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terça-feira, 25 de agosto de 2009

KISS / Secos & Molhados... Máscaras. Enfim, tudo explicado

Por Charlie F. Curcio


Certos artistas quando se acostumam com a notoriedade na mídia e se vêem fora dela, entram em um processo deprimente de achismos e teorias torpes que apenas geram falsas controvérsias.
Falar que a mídia é um lixo e depois lançar um DVD acústico pela MTV é algo que já virou praxe por parte destas figurinhas carimbadas. O Lobão que o diga.
Recentemente voltou à tona uma teoria defendida e levantada pelo senhor rebolador e pseudo-cantor, Ney Matogrosso. Um chato de galocha, segundo vários amigos meus que dizem terem tido o desprazer de conhecê-lo em camarins, ou até na rua, no dia-a-dia. E olha que eram fãs do “vira homem, vira lobisomem”. Teoria esta que diz que o KISS copiou as maquiagens dos Secos & Molhados.
Não quero aqui ficar colocando datas, ou informações didáticas, apenas defendo o pensamento de muitos de que tudo isso não passa de conversa fiada de um músico decadente que não se contenta em viver com seus showzinhos e sua fama pelo o que fez no passado.
Analisando como as coisas mudaram de uns anos pra cá, veremos que no anos de1980 e 1990 era muito difícil vermos revistas especializadas nas bancas. Não existia a internet. Nada de TV, não se falava em Globalização,e todos os recursos que temos hoje e que facilitam toda forma de difusão de idéia. O que um grupo de pessoas conhecia era o que estava ao seu redor e no seu cotidiano. Por exemplo, o que rolava nos bares e casas de shows em San Francisco não atingia em praticamente nada a cena nova-iorquina.
O próprio Beatles quando foi aos Estados Unidos da América, para se apresentarem no programa de Ed Sullivan, não eram nem um pouco conhecidos naquele país, mesmo sendo um estouro e o nome do momento em toda Inglaterra.
Foi feito um forte trabalho de divulgação do nome “The Beatles” em terras norte americanas como preparação. Gerando uma expectativa enorme pela vinda dos “Garotos de Liverpoll”.
Esta história de que dois empresários americanos foram a um show dos Secos & Molhados no México para conhecer esta banda brasileira é um dos piores equívocos que já ouvi. Quem garante que eram empresários do KISS? E que ligação teriam? Quem acompanha, pelo menos por cima a história da banda nova-iorquina, sabe que Bill Alcoin estava praticamente quebrado quando decidiu apostar naquela banda nova e totalmente desconhecida. O primeiro LP do KISS foi uma loucura que muitos amigos de Alcoin, e até sua namorada, condenaram e alertaram que seria uma furada.
O empresário só tinha olhos e grana pra esta nova empreitada em sua carreira de lançador de talentos.
Ele não teria condições de ir ao México apenas pra assistir a um show de uma banda totalmente desconhecida para eles.
Se você leu o livro “Behind The Mask”, pôde ver que os caras do KISS viam o mundo da música como apenas a vida noturna de Nova York. Quando sentiram que teriam condições de conquistar mais, partiram para este novo e abrangente caminho. Não queriam ser como o New York Dolls, que se contentava em ser grande apenas nas calçadas de Nova York.
Gene Simmons nunca negou suas influencias. Em uma entrevista recente à revista “Wizmania”, Gene assume que se influenciou em personagens de quadrinho para suas roupas. Nunca foi negada a influencia de nomes como o próprio New York Dolls, Arthur Brown, Alice Cooper, Gary Glitter, The Beatles e do teatro Cabuque para as maquiagens. Porque negariam terem ao visto a tal foto que o Ney Matogrosso fala que saiu numa edição da revista americana “Billboard”, e que gerou tamanha polvorosa na cena musical americana? Balela!
Mesmo que por um lapso de caduquice ou motivados por um cheque rechonchudo, Gene ou Stanley venham a assumir tal cópia de idéias nas maquiagens, as datas não deixariam que a mentira se perpetuasse:
Dezembro de 1972 - Primeiro show dos Secos e Molhados com maquiagem
Março de 1973 - Primeiro show do Kiss com maquiagem.
Agosto de 1973 - Lançamento do primeiro LP dos Secos e Molhados.
Fevereiro de 1974 - Lançamento do primeiro LP do Kiss.
Março de 1974 - Ney Matogrosso é contatado por dois empresários americanos no México
Dizer que os Secos tocaram primeiro é tolice, pois não havia os recursos de difusão que temos hoje em dia. E mesmo assim o primeiro LP do KISS saiu antes, um mês, da tal ida dos Secos ao México.
Vale mencionar que as campanhas de divulgação do nome KISS nos EUA e consequentemente no mundo foram as maiores de toda a história da música até então. Os empresários da banda aprenderam bem com o trabalho desempenhado para o nome The Beatles. Mas, mesmo com todo aparato de difusão, o KISS só foi sair em uma capa de revista no Brasil em 1978, com a hoje já famosa foto sobre o Empire States. Então, alguns querem defender que a divulgação do nome “Secos & Molhados” atingiu mais longe. Mesmo hoje tem artistas brasileiros ou estrangeiros que são enormes em seus países, mas fora ninguém nunca ouviu falar. Ou você acha que a Xuxa recebe o mesmo assédio nas ruas de Nova York que nas ruas do Rio de Janeiro?
Portanto chega de tolice, teimosia e cegueira. Ninguém copiou ninguém. Todos foram influenciados por meios semelhantes ou distintos, e o que realmente importa é a influencia da música e no marketing que o KISS trouxe para o mundo. O resto é conversa fiada, rebolados, plumas, paetês e meia dúzia de musiquinhas emplacadas aqui e ali.


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ATENÇÃO: Esta é uma versão inteiramente nova do texto originalmente publicado. As novas informações obtidas desde então me levaram a publicar esta "edição revista e atualizada" em 02/02/2009. O texto anterior continua disponível nos sites que o citaram.

O Kiss copiou a maquiagem dos Secos e Molhados? Ney Matogrosso costuma contar sempre a mesma história quando é perguntado sobre o assunto. Eis o que ele falou, por exemplo, para o Jornal do Brasil:

...o Kiss é que copiou a gente! A banda já era um estrondo no Brasil e fomos ao México. O sucesso lá foi tanto que ficamos mais uma semana. A Billboard tinha publicado uma foto nossa de página inteira e dois empresários americanos quiserem me levar para os EUA. Recusei a oferta: ''Estou começando uma história no meu país e quero dar seqüência a isso''. Não queria acabar como Carmen Miranda. Inclusive disseram que minha imagem era boa, mas que o som tinha que ser mais pesado. Eu não ia mudar nosso som por causa disso. Viemos embora. Uns seis meses depois começou o Kiss, com uma maquiagem como a nossa e um som mais pesado.

Os fãs em geral interpretam esse testemunho de Ney como uma informação privilegiada de que o Kiss realmente copiou os Secos e Molhados. Ou seja, "é verdade porque o Ney falou". No entanto, basta ler com atenção (e isenção) para ver que os fatos que ele alega não provam nada. Ele apenas faz suposições. Sim, é verdade que o disco dos Secos saiu primeiro. Mas, no site oficial dos Secos e Molhados, é possível verificar a data em que o grupo se apresentou no México: foi em março de 1974. Pois bem: nessa ocasião, quando os Secos foram abordados por empresários americanos, o primeiro disco do Kiss já estava nas lojas, com maquiagem e tudo. Ele saiu um mês antes, em fevereiro. A data pode ser conferida neste site e confirmada em outras fontes, como o livro "Black Diamond", de Dale Sherman, e a edição de 23 de fevereiro da revista Billboard.

Mas tem mais. O terceiro volume da série de DVDs "Kissology" traz um DVD bônus com um show do Kiss em dezembro de 1973, no Coventry. A qualidade de imagem deixa a desejar, mas vale pela raridade. E mostra que a banda já estava devidamente maquiada:

Com isso, cai por terra a tese da "maquiagem copiada por empresários no México". Os dois empresários americanos que procuraram os Secos e Molhados naquele país não tinham nada a ver com o Kiss. Até porque, como se sabe, o Kiss tinha somente um empresário no começo da carreira: Bill Aucoin.

Certo. Mas e antes? Os Secos e Molhados lançaram seu primeiro LP em agosto de 1973. Já o álbum de estreia do Kiss saiu em fevereiro de 1974. Nesse ínterim, não haveria tempo de o Kiss tomar conhecimento dos Secos e Molhados e copiar o visual do grupo brasileiro? Em princípio, sim. Mas para saber com certeza, é preciso verificar quando cada grupo começou a se maquiar.
A Rolling Stone brasileira publica uma entrevista com Gene Simmons em seu último número e diz que o Kiss usa maquiagem desde 1972. Na verdade, a maquiagem tradicional do Kiss surgiu um pouco depois. O que aconteceu em 1972, mais precisamente em novembro, foi que a banda Wicked Lester, então formada por Gene Simmons, Paul Stanley e Peter Criss (Ace Frehley ainda não havia entrado), fez uma apresentação de teste para Don Ellis, Diretor de A&R (artistas e repertório) da Epic Records. Os três usaram uma maquiagem toda branca e é uma foto dessa ocasião que costuma aparecer em livros e sites:


Terça-feira, Março 28, 2006
Secos & Molhados e Kiss: fim de polêmica



ATENÇÃO: Esta é uma versão inteiramente nova do texto originalmente publicado. As novas informações obtidas desde então me levaram a publicar esta "edição revista e atualizada" em 02/02/2009. O texto anterior continua disponível nos sites que o citaram.

O Kiss copiou a maquiagem dos Secos e Molhados? Ney Matogrosso costuma contar sempre a mesma história quando é perguntado sobre o assunto. Eis o que ele falou, por exemplo, para o Jornal do Brasil:

...o Kiss é que copiou a gente! A banda já era um estrondo no Brasil e fomos ao México. O sucesso lá foi tanto que ficamos mais uma semana. A Billboard tinha publicado uma foto nossa de página inteira e dois empresários americanos quiserem me levar para os EUA. Recusei a oferta: ''Estou começando uma história no meu país e quero dar seqüência a isso''. Não queria acabar como Carmen Miranda. Inclusive disseram que minha imagem era boa, mas que o som tinha que ser mais pesado. Eu não ia mudar nosso som por causa disso. Viemos embora. Uns seis meses depois começou o Kiss, com uma maquiagem como a nossa e um som mais pesado.

Os fãs em geral interpretam esse testemunho de Ney como uma informação privilegiada de que o Kiss realmente copiou os Secos e Molhados. Ou seja, "é verdade porque o Ney falou". No entanto, basta ler com atenção (e isenção) para ver que os fatos que ele alega não provam nada. Ele apenas faz suposições. Sim, é verdade que o disco dos Secos saiu primeiro. Mas, no site oficial dos Secos e Molhados, é possível verificar a data em que o grupo se apresentou no México: foi em março de 1974. Pois bem: nessa ocasião, quando os Secos foram abordados por empresários americanos, o primeiro disco do Kiss já estava nas lojas, com maquiagem e tudo. Ele saiu um mês antes, em fevereiro. A data pode ser conferida neste site e confirmada em outras fontes, como o livro "Black Diamond", de Dale Sherman, e a edição de 23 de fevereiro da revista Billboard.

Mas tem mais. O terceiro volume da série de DVDs "Kissology" traz um DVD bônus com um show do Kiss em dezembro de 1973, no Coventry. A qualidade de imagem deixa a desejar, mas vale pela raridade. E mostra que a banda já estava devidamente maquiada:


Com isso, cai por terra a tese da "maquiagem copiada por empresários no México". Os dois empresários americanos que procuraram os Secos e Molhados naquele país não tinham nada a ver com o Kiss. Até porque, como se sabe, o Kiss tinha somente um empresário no começo da carreira: Bill Aucoin.

Certo. Mas e antes? Os Secos e Molhados lançaram seu primeiro LP em agosto de 1973. Já o álbum de estreia do Kiss saiu em fevereiro de 1974. Nesse ínterim, não haveria tempo de o Kiss tomar conhecimento dos Secos e Molhados e copiar o visual do grupo brasileiro? Em princípio, sim. Mas para saber com certeza, é preciso verificar quando cada grupo começou a se maquiar.

A Rolling Stone brasileira publica uma entrevista com Gene Simmons em seu último número e diz que o Kiss usa maquiagem desde 1972. Na verdade, a maquiagem tradicional do Kiss surgiu um pouco depois. O que aconteceu em 1972, mais precisamente em novembro, foi que a banda Wicked Lester, então formada por Gene Simmons, Paul Stanley e Peter Criss (Ace Frehley ainda não havia entrado), fez uma apresentação de teste para Don Ellis, Diretor de A&R (artistas e repertório) da Epic Records. Os três usaram uma maquiagem toda branca e é uma foto dessa ocasião que costuma aparecer em livros e sites:



Mais detalhes sobre esse fato podem ser conferidos no livro "Sealed With a Kiss", de Lydia Criss, primeira esposa de Peter. A propósito, a banda não passou no teste.

As máscaras que viriam a se tornar a marca registrada do Kiss começaram a surgir no dia 9 de março de 1973, em um lugar chamado The Daisy, em Nova York. A data pode ser verificada no livro citado e também em "Kiss Alive Forever – The Complete Touring History", de Curt Goof e Jeff Suhs. As fotos abaixo são do dia 10 de março, e mostram uma versão embrionária das maquiagens. Os desenhos iriam evoluir, especialmente o de Paul Stanley, que chegou a experimentar variações. A estrela no olho surgiria depois. Mas as máscaras de Gene, Ace e Peter já estavam delineadas.



E os Secos e Molhados? Existem muitas versões sobre a origem da maquiagem do grupo. Ney Matogrosso certa vez disse que quis se maquiar para não ser reconhecido quando ficasse famoso. Conta-se também que, antes de um show, Ney decidiu passar um pouco de purpurina e acabou se pintando todo. Outro testemunho diz que o cantor encenava uma peça com Regina Duarte e, na hora do show dos Secos, não teve tempo de tirar a pintura. É possível que tudo isso seja verdade e Ney tenha usado maquiagem de forma esporádica nas primeiras apresentações com o grupo. Mas o visual dos Secos e Molhados que viria a estourar em todo o Brasil surgiu na sessão de fotos para a capa do primeiro LP, conforme depoimento do fotógrafo Antônio Carlos Rodrigues para a Folha de São Paulo em 2001:

"Numa viagem para o Rio, vi na praia meninas com uns corações grandes de purpurina no rosto, pensei em fazer um ensaio inspirado naquilo. Chamei o maquiador Silvinho, e começamos a criar". (As fotos foram publicadas em 1973 na revista Fotoptica.)

"O pai de João Ricardo trabalhava comigo no Última Hora e pediu que eu desse uma ajuda aos meninos. Vi um show deles, que ainda faziam sem máscaras. Falaram que a gravadora não acreditava neles, que tinham uma quantia insólita para me pagar. Mostrei as fotos da Fotoptica. Acharam arrojado demais, mas entenderam que era uma grande ideia."

"Um dos quatro, o baterista Marcelo [Frias], não gostou da ideia de se maquiar, tanto que saiu do grupo logo depois. Ney no máximo usava batom antes disso."

Para corroborar o testemunho do fotógrafo, existe a foto abaixo, em que os Secos e Molhados aparecem no Museu de Arte de São Paulo, publicada na revista Pop de maio de 1973:



Podem clicar para ampliá-la, mesmo assim vejam estes detalhes:



Ney Matogrosso pintou somente as sobrancelhas. Gérson Conrad aparece de cara limpa no fundo, à direita.



Aqui está João Ricardo, também de cara limpa.

E se o baterista Marcelo Frias saiu do grupo por não concordar com a maquiagem, por que posou para a capa do primeiro LP? Porque imaginou que a pintura seria somente para aquelas fotos. O que confirma que, antes, não se maquiavam.

Voltemos ao site dos Secos e Molhados. A cronologia informa junho de 1973 como a data da sessão de fotos. Logo, mesmo que alguém quisesse acreditar na improvável hipótese de o Kiss ter tomado conhecimento dos Secos e Molhados antes de o grupo brasileiro lançar o primeiro LP, vemos que a banda americana começou a se maquiar um pouco antes, em março. Em suma: ninguém copiou ninguém.

Existe também o depoimento de Zé Rodrix, que diz que Gene Simmons e Paul Stanley teriam estado em sua casa em 1973 levados pelo bailarino Lennie Dale. Rodrix, que tocou no primeiro LP dos Secos, teria mostrado a capa do disco "em primeira mão" para ambos. Embora o músico brasileiro esteja convicto de que foram realmente os integrantes do Kiss que o visitaram, ele admite nunca ter confirmado a identidade dos americanos que acompanhavam Dale. E quem conhece a história do Kiss sabe que nenhum deles veio ao Brasil nos anos 70, antes ou depois da fama. Além disso, se Gene e Paul fossem mesmo amigos de Lennie Dale, seria mais fácil que tivessem se inspirado nos Dzi Croquettes, que o dançarino dirigia. Mas os músicos do Kiss nunca se interessaram por coreografia profissional, mímica, dança ou nada que pudesse ligá-los a Dale. Se fosse David Bowie, até poderíamos considerar a hipótese, pois essa era bem a praia dele, na época.

Outro detalhe, este realmente incrível, é que, como se vê em clips do YouTube, no tempo dos Secos e Molhados, Ney Matogrosso mostrava a língua ao final de "O Vira". Não vai muito longe: no livro "Secos e Molhados", publicado pela Editora Nórdica logo após o fim do grupo, em 1974, aparece a foto abaixo:



Segundo os que defendem a tese do plágio, isso seria mais uma "prova incontestável" de que o Kiss copiou os Secos. Aqui, desculpem-me, mas não há outra explicação senão uma tremenda coincidência. Eu assisti aos Secos e Molhados várias vezes na TV e uma vez ao vivo, em dezembro de 1973, no Gigantinho, em Porto Alegre. Esse momento isolado em que Ney Matogrosso mostrava a língua nunca me chamou a atenção. Hoje, com os recursos que temos de vídeo e Internet, é possível esmiuçar cada quadro de imagem de clips exibidos há 35 anos e verificar essas curiosidades. Já Gene Simmons mostra a língua o tempo todo nos shows do Kiss, além de exibi-la ostensivamente em fotos promocionais e até em entrevistas:



Ainda que os dois lados não entendam, meu objetivo não é "defender o Kiss" e sim checar informações. Mas é difícil tocar neste assunto sem que vire "briguinha de torcidas". Os fãs do Kiss afirmam que Ney está "mentindo" e "está com inveja" porque "o Kiss é a maior banda do mundo", enquanto os fãs dos Secos e Molhados me acusam de "defender americanos". Já houve quem me perguntasse onde estava "minha auto-estima de brasileiro", como se isso me obrigasse a aceitar mitos em nome do nacionalismo. Com tantas paixões em jogo, ninguém mais acredita em investigar os fatos apenas para saber a verdade e não para defender alguma bandeira. Ney Matogrosso não está "mentindo". Nem Zé Rodrix. Mas estão tirando conclusões erradas.

Infelizmente, os pouquíssimos livros existentes com informações sobre os Secos e Molhados apenas reciclam as "achologias" que se perpetuaram em relação a essa polêmica. Seria interessante que alguém fizesse uma pesquisa mais profunda, inclusive tentando localizar os empresários americanos que procuraram os Secos e Molhados no México. Gérson Conrad afirmou no Orkut que um deles se chamava David Ruffino.

Por fim, cumpre lembrar que houve casos de maquiagem no rock antes dessas duas bandas. Existe um clip de 1968 no YouTube em que Arthur Brown aparece cantando "Fire" com uma maquiagem branca e preta. Já em 1971 surgiu na Itália o grupo de rock progressivo Osanna, também com as caras totalmente pintadas. Muitos lembram Alice Cooper, mas ele apenas usava preto em torno dos olhos e da boca. A semelhança não era tão grande com Secos e Molhados ou Kiss. David Bowie usou uma maquiagem bem marcante na capa de "Aladdin Sane" e também no clip de "Life on Mars", ambos em 1973. Segundo o produtor Tony Visconti em sua autobiografia "Bowie, Bolan and the Brooklyn Boy", quando Bowie estava gravando "Lodger", lançado em 1979, recebeu a visita de Gene Simmons e Paul Stanley. Os dois teriam prestado uma homenagem ao músico inglês reconhecendo que, sem o seu pioneirismo com o visual da fase Ziggy Stardust, eles jamais teriam sido o Kiss. Isso teria acontecido no estúdio Hit Factory, em Nova York. Não confirmei que o Kiss tenha gravado nenhum disco nesse local, mas não significa que não pudesse estar lá ensaiando ou preparando demos.

Fim de polêmica. Arquive-se.

fonte: blog do Emílio Pacheco
http://emiliopacheco.blogspot.com/

Viagem de 1994. Monsters Of Rock



Prefácio

Essa historia não é recheada de atos heróicos ou fatos fantásticos. Fizemos Simone, Sérgio e eu apenas uma viagem que muitas pessoas, se já não a fizeram, poderão fazê-la. Não queríamos demonstrar nada a ninguém, além das pessoas com quem convivíamos que podemos sim, esquecer os orgulhos e valores caídos. E encararmos o mundo como quintal de nossas casas. Não queríamos respeito ou admiração dos amigos, mas muitos deles nos parabenizaram pelo fato que eles diziam não terem coragem de enfrentar. Sei que várias outras pessoas já tiveram aventuras como esta, e talvez até com riscos maiores, dificuldades e privações, mas estas são histórias delas e pra elas contarem. Eu sempre achei que nossa história deveria ser registrada. Pra que ficar com essas lembranças presas em nosso consciente que um dia se perderá no infinito da mortalidade?

Dedico essas minhas memórias às pessoas que foram mencionadas e influenciaram direta ou indiretamente nos acontecimentos que antecederam e se realizaram em nossos dias, noites, tardes e madrugadas. Às pessoas que não acreditaram em nosso sucesso e aquelas que ainda hoje acham que tudo não passa de imaginação, deixo-lhes o único sentimento que posso ter por elas, o respeito. O respeito por sua franqueza em admitir sua incapacidade.


Charlie F. Curcio

Extraído de manuscrito da época



Essa primeira parte não contém maiores detalhes, pois procurei não modificar muito do texto original, um manuscrito que comecei e que não dei continuidade, uma vez que Sérgio, meu companheiro, se dispôs a anotar tudo em uma pequena agenda. Algumas informações faltantes nessa primeira parte poderão ser notadas no decorrer das páginas seguintes. O importante era que este início não perdesse a essência original.



Dia 18 de agosto do ano de 1994. Acordamos por volta das 06h00min, 06h30min. Era uma quinta feira. Tomamos café e saímos para a nossa louca viagem sob os olhos preocupados de familiares do Sérgio. Pouco antes de sairmos chegou a Dayse, uma amiga próxima, para se despedir, ela foi conosco até o centro de Campina Grande, onde fizemos nosso primeiro “mangueio”. Manguiar é um termo utilizado principalmente por hippies, e é o mesmo que pedir. “Manguiamos” uns passes para irmos à Manzoá, a operação realizada pela polícia do estado da Paraíba nas fronteiras das cidades, com intuito de coibir o roubo de carros.



Lá chegando falamos aos guardas de nosso objetivo, eles prometeram nos ajudar. Só que a carona demorou muito e enquanto não pintou, choveu e fez sol. Eu levei uma queda do banco em que estava sentado numa de suas extremidades, quando Sérgio e Simone levantaram da outra extremidade, fazendo do banco uma gangorra. Foi super divertido. Conhecemos um velho com um guri que só tinha um braço, vítima de um tumor maligno. Eles queriam ir a São Paulo, ao programa do Silvio Santos manguiar um braço pro rebento. O que achamos impressionante foi o fato deles não terem nem batalhado nada em Campina Grande, resolvendo ir à Sampa na doida, mesmo. Conseguimos carona às 12h30min em uma Pampa. Os guardas da Manzoá disseram que ela, a Pampa, ia até Maceió, só que ficaríamos em Caruaru. Foi nossa segunda refeição, bolacha Cream Cracker, pizzazinhas e bombons. A Simone foi na cabina e Sérgio e eu fomos atrás, tomando chuva. Ao chegarmos em Caruaru o motorista nos deu cinco Reais. Descemos em um posto no inicio da cidade e fomos andando até o CEACA (Central de Abastecimento de Caruaru), o mesmo que um CEASA. No meio do caminho, antes da casa com o carro em cima, na realidade uma loja de acessórios para carros, encontramos Adalberto, um velho amigo que residia na cidade. Conversamos um pouco e continuamos até o CEACA, foi uma caminhada desgraçada. Chegamos em Caruaru às 14:30 e ao CEACA às 18:25. Nossa entrada foi bem tímida, conversamos com uns figuras que nos disseram que perdemos uma carona certa até Aracaju-Se e garantiram que no outro dia pintaria algo certo, então ficamos por ali, onde fizemos nosso primeiro gasto, ou seja, gastamos R$0,50 com três mamões meio aguados. Conhecemos um vendedor de laranjas que usava um boné da banda americana Ramones e parecia com nosso amigo Alexandre Exploited, ou simplesmente Xanda-Ex, mais um amigo de Caruaru. Ele descolou um plástico preto pra forrarmos o chão entre uma grade de laranjas de vendas. Esse foi o local mais quente que achamos. Fizemos mais amizade com dois motoristas que nos chamaram para ir tomar umas pingas. Subimos às barracas num clima super legal, os Manoeis se mostraram bem amigos. O local era super-ultra-hiper “carregado”, ou seja, era freqüentado por pessoas com caras de pouco amigos e prontos para uma boa briga. Só pra se ter uma idéia, estava muito frio e havia uns figuras só de calção. Detonamos uma garrafa de Pitu e uma porção de carne assada com cebola, por sinal, muita, mas muita cebola mesmo.

Anos após, O que ainda me lembro...



Havia um ótimo clima. Contavam historias engraçadas que haviam ocorrido com eles, um tirando sarro com a cara do outro. Nos divertimos bastante, mas percebemos, Sérgio e eu, que um deles olhava demais para a Simone e lhe depositava maior atenção. Lembro de termos comentado algo a respeito com o outro caminhoneiro, mas como nada demais se passava, fomos deixando rolar.

Pediram a conta, pagaram tudo e nos retiramos da barraca, onde estávamos bebendo. Estas barracas eram feitas de madeira, piso de cimento grosso e mesas de madeira, bem simples, tudo bem rústico e de pouca estrutura. Pois bem, saímos e descíamos os cinco em direção ao lugar onde estava estacionado o caminhão dos “Manoeis” onde nós três dormiríamos. O clima entre nós cinco continuava bem animado, com piadas, comentários irônicos e muitos risos e gargalhadas. É valido salientar que sempre mencionávamos nossa preocupação em chegar a São Paulo em uma semana pelo menos, e só hoje percebo que fomos ingênuos confiando deixar nossas mochilas no canto onde dormiríamos na confiança de um vigia que não sabíamos nem o nome. Se alguém quisesse levar nossas coisas, levaria e até com o consentimento do tal vigia. Tudo bem, cobrimos as mochilas com o plástico preto que nos protegeria um pouco, mas se o pessoal de lá quisesse nos sacanear, não haveria o mínimo problema, em vista que estávamos em uma terra que não era a nossa e em lugar de comércio, onde muitas e diferentes pessoas trafegam e onde os pensamentos e atos maldosos fluem com tamanha facilidade.

Tanto que quando chegamos ao cantinho entre os montes de laranjas onde dormiríamos e já havíamos conferido as mochilas, chegaram os dois caminhoneiros, que haviam se apresentado como ambos se chamando “Manoel”. Vinham de seu caminhão estacionado na plataforma de carga/descarga um pouco à frente de onde escolhemos para dormir. Chegaram só a mim e ao Sérgio, fomos até perto do caminhão deles para recebermos a proposta de uma quantia satisfatória em dinheiro, que daria para irmos os três a São Paulo e voltarmos, além da alimentação e de comprar os ingressos para o festival. O que queriam em troca? Nada mais que induzirmos a Simone a dormir com eles no caminhão. E sabermos bem as intenções deles para quando estivessem com ela no interior do veículo. De inicio colocamos que isso quem deveria escolher seria ela e não nós. Com a insistência dos sujeitos fomos nos irritando e deixamos bem claro que ela não era um objeto e estava na viagem, nesta louca aventura, pelos mesmos motivos que eu e o Sérgio, não para nos proporcionar alguma facilidade em conseguir algo que precisássemos. Eles aparentemente entenderam e quando voltavam para o caminhão deram uma ultima tentativa dizendo que se caso mudássemos de idéia poderíamos bater na porta do caminhão. Eles estavam muito afins mesmo.
Voltamos ao lugar para a primeira noite de sono da viagem. Ainda conversamos um pouco, mas eu e o Sérgio não mencionamos nada a respeito do papo desagradável com os motoristas, que ainda hoje me pergunto se tinham os dois realmente o mesmo nome de Manoel. Esticamos o plástico preto por cima de nós para nos proteger do frio e dormimos vestidos com as roupas que couberam, pois como não levamos cobertores ou lençóis, a única maneira de nos aquecermos era vestindo o maior numero de roupas.

Acordamos no outro dia bem cedo, com o som dos motores dos caminhões e o falatório das pessoas. Nos levantamos, tiramos o excesso de roupa, uma vez que o frio já havia passado, dobramos o plástico, agradecemos ao vigia, conhecemos outras pessoas e constatamos que os “Manoeis” taradões haviam sumido e nos deixado. No momento foi a primeira decepção, eles tinham nos prometido levar até a cidade de Aracaju e contávamos com aquele progresso na viagem. Mas hoje sei que foi melhor assim, penso no que seriam capazes de nos fazer, das atrocidades que poderiam, em algum momento de insanidade, embriagues ou sei lá o que mais, fazer a nossa companheira, que realmente era uma bela garota, alta, medindo por volta dos seus um metro e setenta, com longos cabelos castanhos e de idade por volta dos seus dezessete.

Com isso tivemos que nos prontificar a falar com algumas pessoas que poderiam nos ajudar a conseguir alguma carona. Circulamos por todo o CEACA, falamos com algumas pessoas e nada. Havia uma total apatia conosco, mas com razão, como confiar em três malucos desconhecidos num lugar como aquele, em que circulam todo tipo de mente e intenção? Então, sem demora resolvemos seguir a dica de alguém, para irmos à saída da cidade vizinha a Caruaru, São Caetano. Pusemos as mochilas nas costas e saímos em passos rápidos do CEACA, praguejando os caminhoneiros que haviam nos prometido carona e fugiram, e a todo aquele lugar. Hoje sei que ao menos tivemos um lugar para dormir, e não ficamos ao relento na borda de alguma estrada. E mesmo com a proposta vergonhosa, os Manoeis nos deram uma noite divertida na barraca, sem contar que o que comemos lá acabou sendo o nosso jantar.

Saímos do CEACA, tomamos a entrada e já fazendo sinal de carona para todos os veículos que passavam. Era uma manhã de sol e poucas nuvens e um clima ameno, sem aquele calor infernal que muita gente pensa ser característico por todo nordeste. Não passaram muitos carros, até um caminhão Ford carregando algumas laranjas e quatro indivíduos na carroceria, parar em resposta ao nosso pedido de carona. Corremos, ficamos super felizes, e particularmente senti um certo alívio pelas frustrações, até então já vividas. Cheguei primeiro à cabina, perguntei ao motorista se estavam indo até São Caetano, ele me respondeu que estavam indo a Caruaru, mas nos deixariam em frente à estrada que nos levaria ao nosso objetivo imediato.

Subimos na carroceria, ficamos na parte traseira, não por receio dos trabalhadores que estavam sentados na dianteira da carroceria, mas para termos onde nos firmar, pois assim que subimos o motorista acelerou. Os rapazes que estavam ali quando subimos não nos deram muito cartaz, apenas nos cumprimentaram e viraram-se para frente do caminhão. Algumas laranjas que estavam no carregamento rolaram pelas tabuas da carroceria, com o movimento do veículo, e passavam por nós. Fiz um sinal pro Sérgio na intenção de catarmos algumas nas mochilas. Ele sorriu, como que ironizando a situação. E deixou para mim a pratica desse furto. Mas estava fadado a falhar, pois como a velocidade do velho Ford azul era alta, a traseira do mesmo balançava para cima e para baixo, e para todos os lados, me impossibilitando de equilibrar, consegui segurar as laranjas e tentei coloca-las no interior da mochila, que por sinal era emprestada do próprio Sérgio. O fracasso desse pequeno furto foi tal que em minha primeira tentativa o vento levou o meu boné, e por outro lado, a sorte nos pregou, talvez, a maior peça em toda a viagem. Pois assim que senti o boné voando de minha cabeça e me virei, li em uma pequena placa verde com letras brancas o nome da cidade de São Caetano e uma seta indicando entrada à direita. Nossa comoção foi total, pedimos aos gritos que o motorista parasse imediatamente. Os motivos eram óbvios, eu não queria perder o meu boné que poderia me proteger do sol implacável. E eu teria que tê-lo logo em mãos antes que algum carro passasse por cima. Com a parada do Ford, o Sérgio e a Simone foram agradecer ao motorista, enquanto eu corri pelo acostamento em busca do tal boné. E sem nenhuma laranja na mochila.

Voltamos um pouco na estrada até chegarmos à entrada que leva ao nosso momentâneo destino, lá, segundo o individuo do CEACA que nos indicou a irmos à saída desta cidade, poderíamos conseguir carona no entroncamento para Paulo Afonso, em vista do grande fluxo de carros e caminhões. Quando já estávamos na estrada que leva a São Caetano, começamos a fazer sinal de carona, e depois de alguns fracassos, não me recordo o modelo e marca, mas a cor era meio esverdeada, pára um carro bem a nossa frente, muito longe para quem deseja conceder uma carona. Ficamos um pouco na duvida, mas como o maior risco na altura do campeonato era receber um “não”, resolvemos arriscar e corremos muito ladeira abaixo. Creio que o veículo fora estacionado há uns duzentos metros de nós, mesmo assim corremos como loucos. E ao chegarmos do lado do motorista, ele estava vasculhando alguns papeis, e como havia passado desapercebido da nossa pequena louca maratona até ele, levou um pequeno susto. Fomos logo perguntando se ele poderia nos levar à cidade. Respondeu, como esperado, que não. Insistimos. Outro não. E não. E tudo bem, ele resolveu nos levar. Entramos no carro. Comecei a conversar com o homem, inicialmente muito apreensivo, sem duvida imaginando que poderíamos ser assaltantes, com isso ele foi se soltando e no decorrer do pequeno percurso, enquanto eu observava a paisagem, ele se identificou como sendo um medico, morador em Caruaru e de atendimento também em São Caetano. Quando lhe contamos nosso objetivo nos qualificou como loucos, aventureiros e nos preveniu sempre termos cuidado com os riscos nas estradas.

Enfim, chegamos à entrada da cidade. Ele teria que entrar à direita, em direção ao seu local de serviço. Nós descemos do veículo no pequeno trevo, agradecemos, nos despedimos, ele seguiu, adentrando a cidade, e nós ficamos parados reconhecendo o lugar, procurando algo, algum lugar ou alguém que nos fosse útil. Avistamos a frente à esquerda um posto de gasolina. Fomos andando até lá, onde bebemos água e nos informamos com um frentista onde poderíamos conseguir carona para o sul. Ele apontou para um posto da Polícia Rodoviária Federal há um quilometro, mais ou menos, logo no entroncamento de saída para Paulo Afonso e para o sul do país. Resolvemos encarar a caminhada e debaixo de um sol forte, saímos em direção ao lugar indicado pelo frentista, enquanto caminhávamos, aproveitamos para conversar sobre o aparente bem desenrolar do nosso inicio de aventura, das dificuldades mínimas que vínhamos encontrando e dos planos daqui para frente. Decidimos que ficaríamos um determinado tempo na saída para Paulo Afonso e caso não conseguíssemos nada por lá, voltaríamos ao posto de gasolina, onde poderíamos ao menos ter contato direto com os motoristas e ajudantes, assim facilitando o alcance de uma carona que nos levasse o mais perto possível de nosso objetivo, São Paulo.

Passamos meio desconfiados pelo posto da Polícia Rodoviária Federal, não carregávamos drogas nem armas, só um canivete para facilitar na alimentação. Mas o que nos deixava ”com uma pulga atrás da orelha” era o fato do Sérgio estar levando na sua mochila, o seu material de fazer tatuagens e por sabermos muito bem da antipatia dos policiais para com os caronistas e aventureiros das estradas. Talvez pelos assaltos e demais crimes associados a pessoas que se passam por caronistas para aproveitarem determinado momento da viagem e efetuarem os seus reais objetivos, e a cisma com o material de fazer tatuagem era pelo simples motivo de algumas pessoas insistirem em não admitir que a tatuagem é uma arte e descarregam todo tipo de comentário pejorativo e discriminatório. Vale salientar que o material do meu companheiro era profissional e de total higiene, falo da máquina, luvas, agulhas, e tudo referente à execução da arte de adornar a pele. Mas, chegamos ao local onde tentaríamos durante algumas horas conseguir nos locomover em direção ao sul do país. Porém, poucos carros passavam por ali, e para todos pedíamos carona com o tradicional gesto com o polegar, mas sem sucesso. Então decidimos pedir ajuda aos policiais, caso não conseguíssemos nada, voltaríamos ao posto de gasolina, na entrada de São Caetano. E foi isso mesmo o que aconteceu, pois os policiais não nos deram muita atenção, e explicaram sem muita gentileza na fala, que não podem facilitar caronas, justamente pelos motivos por mim já citados. Nós agradecemos (de quê?) e rumamos de volta ao posto, já esquematizando como deveríamos agir.

Chegando ao posto eu fiquei do lado de um quebra-molas na rodovia, bem em frente ao posto, pois quem nele não entrasse por um ou outro motivo, teria que passar por ali onde eu estava. O Sérgio com a Simone ficaram nas intermediações, circulando pelas bombas de gasolina, a saída do restaurante, o bebedouro do lado de fora de restaurante, e principalmente abordando os motoristas. Não passamos muito tempo, fui logo surpreendido por um assobio do Sérgio, me chamando com ar de riso e felicidade no rosto. Peguei minha mochila, atravessei a rodovia e me deparei com os dois conversando com o motorista de um Mercedes Bens 1113 azul. Sérgio quis saber se uma carona até Paulo Afonso nos serviria, foi quando o motorista, como que já tivesse falado o mesmo ao Sérgio e a Simone, que lá poderíamos chegar a São Paulo com mais facilidade, do que ali, onde estávamos. Resolvemos encarar, subimos eu e o Sérgio, na carroceria e a Simone na cabina. Era um carregamento de cimento, havia umas três fileiras de altura do início da carroceria até o seu final, logo percebemos que os sacos de cimento estavam um pouco quentes e tratamos de nos proteger com a lona que estava na parte dianteira da carroceria. Como já haviam abastecido, imediatamente demos partida, passamos pelo posto da Polícia Rodoviária Federal e seguimos justamente pela estrada que ficamos pedindo carona umas duas horas sem sucesso, e continuamos em direção à cidade turística de Paulo Afonso. Lembro que havia a expectativa de vermos, pela primeira vez, a tão conhecida grandeza das águas de lá. E que estávamos sempre felizes, ninguém desanimara ou se arrependera, ou até que não chegaríamos ao destino... tínhamos muita vontade de concretiza nosso plano principal. Até porque nos preparamos psicologicamente para enfrentar todas as piores dificuldades, e também por termos recebido muito apoio por parte de amigos e amigas.

Em cima da carroceria, Sérgio e eu, comemos umas bolachas e vestimos camisas de mangas compridas e bonés, para nos proteger do sol, que ajudava a aquecer mais ainda os sacos de cimento em que íamos sentados, até chegar ao ponto de não conseguirmos mais ficar nessa posição, e seguimos revezando, de meio agachados, ajoelhados e em pé na carroceria. Fizemos uma parada em um posto de gasolina bem simples e modesto, onde bebemos água e nos divertimos com um ônibus caindo aos pedaços e que fazia propaganda de uma candidata a vereadora, chamada Emília. Emília é uma antiga amiga nossa que muito quis ter feito esta viagem conosco. Nas propagandas havia a foto da candidata, que nada tinha de semelhante com a fisionomia de nossa amiga. O que foi o motivo de muitos gracejos. Nós demoramos muito nessa parada, mas o “ônibus da Emília” saiu bem antes de nós e logo se fez uma boa distância. Então, seguimos viagem, e ao chegarmos a uma parte alta da pista avistamos o ônibus acabando de descer o trecho que faríamos agora, e logo ao descer o ônibus já começara a subir outro trecho à frente, o que nos possibilitava avista-lo quase de cima, pois o terreno íngreme faz com que a pista fique parecendo com a letra “U”. Novamente ele foi alvo de nossos risos, ao vermos que ele seguia de lado, com a dianteira um pouco para a esquerda e a traseira enviesada para a direita com as rodas em linha reta. Realmente muito engraçado, principalmente por ser uma “furreca” utilizada por alguém homônimo à nossa amiga de tantas outras risadas.

Como seguíamos em boa velocidade, logo alcançamos e ultrapassamos o mal conservado veículo, e ao passar demos “tchau” para a Emília do cartaz, como sendo a nossa amiga que ficara em Campina Grande, e mais risos e gozações. Já devia ser umas duas horas da tarde, o calor era intenso, não tínhamos almoçado e muito ainda havia pela frente. O caminhão seguia viagem e nós em cima da carroceria com os sacos de cimento fomos nos desgastando, o calor nos obrigava a nos esconder dentro das camisas. Lembro de termos comentado a respeito da proposta que fizemos ao motorista do caminhão e seu companheiro, de Sérgio e eu descarregarmos os sacos de cimento quando chegássemos ao local da entrega, em troca do pagamento que fariam aos “chapas”, seria um dinheiro que nos poderia ser muito útil no desenrolar da viagem. Mesmo os dois dizendo que o local que havia comprado o cimento já tinha os seus funcionários para esse tipo de serviço, combinamos de insistir na proposta feita na ultima parada, ainda no posto aonde vimos o tal ônibus velho. E será que suportaríamos serviço tão pesado?

Neste momento acho importante fazer um parêntese, um comentário que pode servir de esclarecimento para uma deficiência de minha parte em fornecer maiores detalhes, como nomes de cidades, horários exatos e pormenores, que apesar de sua importância, a memória vai nos dando golpes fatídicos. Mesmo consultando mapas, guias rodoviários, etc. me vejo em tamanha deficiência em recordar tantos nomes, devido a duas casualidades. A primeira é a inconstância dos motoristas na busca por caminhos que por motivos particulares lhes pareciam mais apropriados na execução de sua trajetória, e nós nada podíamos sugerir, opinar ou questionar, não estávamos em posição para isso. A segunda casualidade é mais trágica. Pois bem, o Sérgio logo no inicio se dispôs a anotar em uma caderneta de bolso todas as informações. Por volta de um ano, mais ou menos, após nosso retorno à Campina Grande (sim, nós lá regressamos. Ou você, caro leitor, imaginava que o desfecho desta aventura não fosse este?), a mãe do Sérgio aproveita que ele está em viagem para os lados de Fortaleza e resolve fazer uma faxina das grandes no quarto dele e a tal caderneta vai direto pro saco de lixo. Ali estavam os nomes de todas as cidades, os horários em que passamos por cada uma delas, detalhes como a que horas tomamos banho e onde, hora de almoço, jantar, bem, toda essa informação estava nessa caderneta. Não é preciso descrever o estado de espírito que o meu amigo de tantas aventuras ficou ao dar falta de tão estimado objeto; ou é? Por estes motivos, infelizmente, me privarei de certos detalhes, mas mesmo assim sinto que o contexto da aventura não perde seu brilho.



Por volta das cinco horas da tarde avistamos a placa com o nome da cidade em que seria feita a entrega dos sacos de cimento. Entramos à direita, seguimos por alguns poucos quilômetros e nos vimos numa cidadezinha bem cuidada, com pracinhas limpas, muitas árvores nas calçadas, e logo chegamos ao armazém de material para construção. Havia uma casa branca à esquerda e um portão largo do lado direito. Ao parar o caminhão o motorista, a Simone e o acompanhante de motorista logo desceram e Sérgio e eu os imitamos, só que pulamos de cima dos sacos de cimento, que por sinal, já haviam esfriado consideravelmente. O motorista e seu companheiro foram em busca de alguém na casa que pudesse receber o pedido, para em seguida irmos logo para Paulo Afonso. Voltaram a nós dizendo que teríamos todos que esperar, pois a domestica informou que os proprietários da casa e do estabelecimento comercial haviam saído para fazer compras em um supermercado. Então, aproveitamos para darmos uma voltinha para conhecer um pouco do local. Não fomos longe, ficamos nas intermediações da rua em que o caminhão estava estacionado. Por volta das sete horas da noite, fomos avisados que os donos da casa haviam chegado e receberiam a encomenda. Entramos pelo portão do armazém, que é conjugado com a casa, ali bebemos água e nos serviram um jantar que foi muito bem recebido, pois já estávamos passados de fome. Enquanto isso uns três homens bem “parrudos” iam descarregando em boa velocidade os sacos de cimento. Demonstravam tamanha agilidade com o serviço que logo percebemos que não nos daríamos bem naquela tarefa, e logo fomos comentando que a gente poderia conseguir o dinheiro que nos pagariam para a descarga, com as tatuagens do Sérgio.
Assim que os caras terminaram de descarregar o caminhão, enquanto eram feitos os pagamentos, e nós já havíamos terminado de jantar e de conversar sobre a nossa viagem com algumas pessoas da casa, ficamos circulando pelas dependências tanto do galpão quanto do quintal da casa, que em si eram uma coisa só. Às nove horas da noite, mais ou menos, nos despedimos do pessoal local e subimos no caminhão para dar saída do material de construção e em seguida pegar a estrada rumo a Paulo Afonso. Enquanto estávamos na cidade o clima era ameno. Nós três fomos distribuídos como antes, e nós da carroceria nos alojamos sentados na lona dobrada e na parte dianteira da carroceria. Enfim, saímos da cidade e pegamos a auto-estrada, com o veículo desempenhando maior velocidade, junto vindo o vento e o frio, nos encolhemos na grade de madeira, mas neste lugar o vento que passa pela cabina faz um tipo de redemoinho que é impossível de se fugir dele. Então, tratamos de abrir um pouco a lona e nos cobrimos. Cogitamos a possibilidade de perdemos algo curioso que passasse por nós durante a viagem, como lugarejos ou qualquer outro tipo de coisa que pudesse nos servir de referência ou lembrança. Mas o frio falou mais alto e nos jogamos em baixo da lona, ali ficamos até percebermos estar entrando em uma cidade, poderia ser Paulo Afonso. E era. Saímos de baixo da lona, tratamos de dobrá-la mesmo com o veículo em movimento e ficamos admirando a cidade, e conversando sobre os conselhos que os dois novos amigos haviam nos dado enquanto passeávamos na cidadezinha em que fizeram a entrega do cimento. Eles diziam que estávamos sendo ingênuos ao falarmos sempre a verdade. Que não poderíamos pedir carona para tão longe alegando que queríamos ir assistir a um festival de Rock. Tínhamos que inventar algo, do tipo que estávamos em São Paulo estudando e que fomos visitar nossas famílias, que não éramos apenas amigos, e sim primos, que nossas famílias eram pobres e não tinham dinheiro suficiente para pagar nossas passagens, e que como fomos sem avisar, para fazer uma surpresa, os pegamos desprevenidos e não se preocuparam em guardar algum dinheiro para ajudar nas nossas despesas. Essa nova situação nos deixou pensativos, não estavam em nossos planos mentiras neste sentido, tínhamos em mente procurar ser o mais honestos e sinceros possível. Poderíamos cair em contradição, as pessoas poderiam nos perguntar coisas demais e daí seria como uma bola de neve. Demos tanta importância e pareceres a esse novo assunto que nem observamos muito a cidade passar por nós. Logo estávamos em frente a uma casa simples em um bairro modesto da periferia. O caminhão parou e o motorista disse que podíamos descer, nós dormiríamos na casa deles, onde tomaríamos banho, jantaríamos, e no outro dia continuaríamos a viagem. Entramos na casa em que o motorista morava com esposa, filhos, e se não me engano, com sua mãe. Tiramos nossas mochilas do caminhão, as colocamos no piso da sala da casa, depois de uma breve apresentação entre nós e sua família a Simone foi logo tomar banho. O acompanhante do motorista, um senhor beirando os cinqüenta anos, se mostrou bem chegado da família e com total liberdade e intimidade na casa do companheiro. Enquanto íamos um a um tomar banho, o papo sobre nossa aventura já era o assunto em questão em uma roda de conversa na sala, à espera do jantar. Foi na ocasião que aprendemos uma lição que foi nosso pensamento comum pelo resto da viagem: “na estrada ninguém ajuda ninguém, por receio, mas quem se dispõe a ajudar, ajuda mesmo”. E esse pessoal era, certamente encaixado no segundo caso. Como explicar que colocaram em sua residência três pessoas que haviam conhecido não fazia um dia? O que garantia que não éramos de má fé? A partir deste bate papo informal, muito rotineiro em certas famílias, esses tipos de pensamentos passaram a freqüentar nossas mentes, os novos amigos nos abriram os olhos para uma realidade que ainda não tínhamos nos adequado. Mesmo já tendo viajado muitas vezes de carona de Campina Grande para Caruaru, João Pessoa, etc., não havia em nossas mentes a idéia de que a maldade pudesse tomar tamanha proporção em certas pessoas. Muitas pessoas já tinham passado por situações como a que os experientes profissionais nos relataram. E nos instruíram a dali em diante armarmos uma historia convincente e de certo modo, comovente, a ser utilizada como artimanha e argumento para conseguirmos carona, não poderíamos mais mencionar o festival que nos objetivava. E o pior era o pensamento de ser obrigado ao ato da mentira para a obtenção de algo que poderia nos ser concedido mesmo a com verdade, sem enganação, mas se é assim que o mundo funciona e a vida se completa, se as pessoas precisam ser enganadas para ajudar alguém, então não havia muito a se fazer, uma vez que já estávamos até ali envolvidos. Mais uma vez digo que o receio maior era a possibilidade de cairmos em contradições em algum momento para determinadas pessoas, que não saberíamos seu temperamento perante a sensação de terem sido enganadas. O que poderia nos acontecer?



Tomamos uma sopa deliciosa e fomos dormir. A Simone se alojou em uma das dependências da casa, Sérgio e eu deixamos nossas mochilas no interior da casa, recebemos cobertores e lençóis, e fomos apresentados à cabina do caminhão. Dormiríamos ali. Entramos nos despedimos do pessoal como de costume com “boas noites” para todos, e enquanto íamos arrumando a noturna acomodação aproveitamos para conversarmos um pouco sobre a nova idéia de ter que assumir um novo rumo em nossos planos. E comentamos sobre o notório motivo que não dormiríamos no interior da casa. E se não fossemos tão ingênuos quanto nos mostrávamos? E se tivéssemos segundas intenções enquanto estivéssemos dentro da casa? Mas, estávamos com muito sono e cansados devido ao dia corrido, amanhecemos em Caruaru com o pensamento voltado em ir até Aracaju, e depois de tantas reflexões, conversas, conselhos, dicas e mudanças de metas momentâneas, cá estávamos, em Paulo Afonso, diante de uma nova realidade. O motorista e dono da casa abriu o assento o fazendo como que uma cama, espalhamos os lençóis, enquanto conversávamos, nos deitamos, cada um com a cabeça para um lado, e logo pegamos no sono.

Acordamos logo cedo com o pessoal nos chamando. Abrimos as portas do caminhão, dobramos as cobertas e nos dirigimos ao interior da residência, onde trocamos “bom dia” com todos, escovamos os dentes, tomamos o café da manhã ouvindo os últimos conselhos dos nossos anfitriões. Eles disseram que nos levariam até o centro da cidade, onde pegaríamos um ônibus coletivo até o Posto Fiscal, saída para o sul do país, infelizmente não poderiam fazer mais por nós, pois tinham compromisso em outra parte da cidade. Fazer mais do que dar comida, banho, teto e cobertas para dormirmos? Eles tinham feito até mais do que esperávamos, acolheram pessoas que eles não conheciam e ainda aconselharam-nos mediante suas experiências. O que mais esperar dessas pessoas? Estávamos impronunciavelmente gratos. Terminamos a primeira refeição do dia, nos despedimos de todos, nos alojamos no veículo, como havíamos chegado e seguimos em direção ao centro da cidade e sabe-se lá de mais o que. No translado Sérgio e eu já íamos combinado os detalhes dali em diante, tínhamos que acertar tudo com a Simone, para não haver contradições. Além de estratégias para conseguirmos chegar ao Posto Fiscal sem gastarmos dinheiro e se possível acumularmos mais alguma quantia, por menor que fosse. Passamos por cima de uma ponte enorme e ficamos maravilhados com aquele visual.

Mas eis que chegamos a uma praça no centro, onde descemos do veículo com nossas mochilas e demos adeus aos nossos companheiros, que ainda disseram que ali, naquele ponto de ônibus, pegava-se um coletivo que passa em frente ao Posto Fiscal, era só esperar um pouco que logo passaria. Eles se foram então, e nos vimos sozinhos novamente, em um lugar onde ninguém nos conhecia. Perguntamos a uns senhores que ali estavam se o tal ônibus que esperávamos demoraria a passar, como havia passado há pouco, o próximo deveria demorar uns vinte minutos a meia hora. Com isso decidimos conhecer um pouco da cidade, colocamos as mochilas nas costas e fomos dar uma voltinha pelo centro de Paulo Afonso. Fomos a uma galeria de lojas de roupas, relojoarias, etc. Foi quando vimos um cartaz de um tatuador, havia o endereço, perguntamos a alguém se ficava por perto que nos mostrou que era só seguir numa rua a direita que logo chegaríamos à rua que procurávamos. Queríamos conhecer o profissional e suas técnicas, assim como seu material, além de que ele poderia nos fornecer coordenadas melhores sobre como conseguirmos uma carona de maior confiança, um conhecido dele poderia ser caminhoneiro ou estar de viagem para o sul e poderia nos levar com a indicação do artista “dermográfico”, colega de profissão de Sérgio. Conseguimos chegar à casa do rapaz, de codinome “Xamã da Paz”, e que pelo menos no cartaz sugeria que tivesse escrito na testa, como tatuagem, “Jesus Salva”, no pescoço “Fé” e na barriga “Paz”. Realmente, uma figura ímpar.



Mas ao chamarmos na casa de número vinte à Rua Tiradentes, constatamos infelizmente que ele não estava em casa, decidimos voltar ao ponto de ônibus e seguirmos para o Posto Fiscal. Chegando ao ponto o assunto foi logo o de pagarmos três passagens e cogitou-se a possibilidade de batalharmos uma carona até o Posto Fiscal. Logo interrompi com um argumento quer havíamos conversado muito antes de termos a data da viagem marcada, ou seja, nós passaríamos por cidades em que as pessoas locais não nos conheceriam, e se precisássemos pedir algo, como comida, dinheiro ou passes-estudantis, vales-transportes e passagens, não deveríamos nos acanhar. Precisávamos daquilo e se o sentimento de humilhação ou impotência surgisse seria logo apaziguado quando não estivéssemos mais por ali. As pessoas olhariam para nós, talvez até sentissem pena, mas logo nos esqueceriam devido à falta de convivência. Já estávamos pedindo carona, então qual o problema em pedir a algumas pessoas uns vales-transportes? Sérgio e Simone ainda relutaram e argumentaram que tínhamos dinheiro que dava pra a gente pagar as passagens sem interferir muito. Vale salientar que eu era quem conseguiu juntar a maior quantia em dinheiro para a viagem, vinte e cinco Reais. Sérgio veio com quinze Reais e a Simone resolveu nos acompanhar na véspera da viagem, então pegou só algumas roupas e se esqueceu do dinheiro, veio sem nenhum centavo. E com os cinco Reais que o primeiro motorista nos deu na saída de Campina Grande até Caruaru, e os gastos com a rápida alimentação no CEACA, nossas economias não eram propícias a gastos que poderíamos ao menos tentar evitar, e foi isso o que sugeri. Sérgio ficou no ponto de ônibus e eu e a Simone, com as mochilas nas costas e coragem na mente, fomos logo pedindo às primeiras pessoas que fomos encontrando. Depois de alguns “nãos”, em uma loja de tecidos e roupas, conseguimos quatro vales, um a mais do suficiente, mas não sabíamos se precisaríamos em breve e não o rejeitamos.





Em frente à loja de roupas havia uma padaria, onde fui logo chamando a minha companheira a uma nova investida, ela estranhou, pois já tínhamos os vales, mas minhas intenções eram outras. Chegando ao estabelecimento procurei ser o mais convincente e humilde possível, pedindo uns pães ao atendente, que disse não poder fazer isso, pois não era o dono da padaria e o patrão poderia achar ruim. Mas o que são uns míseros três a cinco pães? Nós ainda “não” havíamos comido nada desde ontem, e a estrada nos esperava, se tivéssemos dinheiro você acha que estaríamos pedindo pão? E o bondoso rapaz nos cedeu alguns pães, que seriam nossa alimentação mais pela frente. Agradecemos enormemente e saímos em direção ao nosso companheiro que já nos olhava com ar de riso no rosto. Guardamos os pães e ficamos esperando o coletivo, enquanto eu reforçava a idéia de que assim é que teríamos que agir. Rapidamente o ônibus parou no ponto, subimos e deparamos com todos os lugares ocupados, passamos pela roleta, pagando com os passes que ganhamos, sorte que o cobrador não solicitou as carteiras de identificação estudantil. Informamos que iríamos ficar nos Posto Fiscal e pedimos que nos avisasse a hora de descer. A paisagem pelas janelas variava constantemente, vimos até uma feira popular.

Chegamos, então ao nosso destino momentâneo. Descemos do coletivo, atravessamos a pista e notamos que só havia um guarda na guarita, por sinal à paisana. Já fomos revisando os nossos planos de persuasão enquanto nos aproximávamos da guarita. E ao chegarmos no pequenos escritório e abrigo saudamos o policial, ou fiscal que seja, nos apresentamos e perguntamos se ele poderia nos ajudar a conseguir uma carona para o mais perto da cidade de São Paulo, ele foi muito gentil mas disse que não tinha consentimento para facilitar esse tipo de atitude, pois muitas coisa ruins já haviam acontecido a motoristas que se habilitaram a ajudar pessoas dando-lhes carona. Aí demos inicio à nossa farsa, dizendo que morávamos e estudávamos em São Paulo, fomos visitar nossas famílias em Campina Grande de ônibus, fomos passar o período de São João naquela cidade e como não avisamos que iríamos, ele não tiveram condições de nos ajudar com as passagens de volta, e nós tínhamos que estar em São Paulo até o dia vinte e sete de agosto, devido ao nosso calendário escolar. Ele nos perguntou o que éramos um do outro e sem pensar fomos logo respondendo o mais convincente possível que éramos primos e não tínhamos muito dinheiro nos bolsos. Pediu que esperássemos por ali e se quiséssemos usar o banheiro, o mesmo ficava nos fundos da guarita. Imediatamente fomos revezando a ida à “casinha” para as devidas necessidades fisiológicas e higiênicas. Eu aproveitei para fazer a barba rapidamente na pia do banheiro mesmo, passei desodorante e arrumei a cabeleira que beirava os ombros. Comemos ali os pães que ganhamos na padaria no centro de Paulo Afonso, o guarda nos ofereceu café, o que foi imensamente agradecido e bem recebido, pois era um dia meio nublado e sempre havia o pensamento de aproveitar bem todas as oportunidades já que o futuro era incerto e inesperado. Vez por outra o fiscal ia vistoriar os veículos pesados e carregados que da cidade saiam, e nós ficávamos na expectativa de que algum nos fosse útil. Percebemos que o policial rodoviário comentava sobre nós com os motoristas dos caminhões que por ali paravam, ele fazia gestos e apontava para nós, e era claro, mesmo a distancia, a negativa dos motoristas. E cada vez mais era reforçado o meu pensamento “pré-aventura” de que “um é pouco, dois é bom e três é demais”. Era muita gente para se acomodar em um veículo feito para carregar produtos e não pessoas. E eu sempre olhava para o Sérgio com olhares de reprovação pela sua iniciativa de levar conosco nossa atual companheira. Ora, desde que idealizamos essa aventura eu, particularmente, me preparei psicologicamente para tudo que conseguisse fosse dividido entre dois, ou seja, comigo e meu companheiro. Nunca foi cogitado o menor sinal de outra pessoa se juntar a nós. Alguns amigos e amigas comentaram que gostariam muito de ir conosco, e sempre colocamos as dificuldades possíveis envolvidas no decorrer da viagem, além de nosso pensamento de uma viagem feita apenas por mim e meu amigo. Em meus pensamentos tudo na viagem incluía o Sérgio, e só ele, a presença de uma nova e inesperada companhia quebrava todo o esquema psicológico, e mentalmente idealizado. Tudo foi montado como um conjunto comigo e com o Sérgio. Mas, na véspera da viagem, da saída dramática da casa dele, o mesmo foi se despedir de algumas pessoas e cobrar algumas dividas pendentes, com o compreensivo pensamento de levar a maior quantia em dinheiro possível, e nesse meio tempo encontrou com Simone, comentou a proximidade do inicio de tudo isso que conto aqui, ela se interessou e se empolgou, perguntando a ele se poderia nos acompanhar e como a idéia dessa historia também pertencia, em partes iguais, ao tatuador que me acompanhava, ele achou por bem dar sinal verde à moça. Que imediatamente foi à sua casa, pegou algumas peças de roupa, sabonete, xampu, escova de dentes e creme dental, e se esqueceu de incluir alguma, qualquer que fosse, quantia em dinheiro. Os dois se locomoveram à casa do Sérgio, onde eu já estava o esperando para combinarmos os últimos detalhes e sairmos juntos de um mesmo ponto, para evitar algum desencontro ou o menor atraso. A presença daquela nova personagem me deixou sem ação. Como seria dali em diante? Porque não fui consultado primeiro? Tudo acertado entre nós, e agora essa novidade, sem o menor vestígio de acontecer àquelas horas, tão próximas de nossa saída. E eu não conhecia a Simone direito, só de vista, a vi algumas poucas vezes, pois fora namorada de um amigo meu, o Afrânio. Eles entraram no quarto de Sérgio e ela logo saiu para ir ao banheiro e aproveitei para demonstrar a minha indignação, ele disse que não havia problemas e que uma mulher poderia facilitar as coisas, eu me contrapus, ele disse que poderia desmarcar tudo ali mesmo com ela, mas ficaria muito chato e até humilhante, então lhe disse que ele seria o responsável direto no que dissesse respeito a ela, que eu faria tudo como de combinado, mas algum problema com ela e, ele é quem deveria se mover para resolver. Mas, toda essa conversa foi logo à lona no primeiro dia de viagem, e agora lá estava ela, com peso de responsabilidade e importância igual a nós dois. A situação com os dois motoristas no CEACA (Central de Abastecimento de Caruaru), que até hoje não sabemos se seus nomes eram mesmo Manoel, pois assim se apresentaram ambos com o mesmo nome, nos deixou mais unidos em três mesmo, e não em dois mais uma, como antes em minha mente.

Por volta das dez e meia, onze horas pára um Mercedes Benz azul, o fiscal vai até ele para a rotineira vistoria de documentação, notas e tudo o mais, e mais uma vez percebemos, mesmo a distancia, que o policial comentava a nosso respeito com o motorista, dessa vez o papo foi um pouco mais demorado no que se deu a entender que estavam falando sobre nós. Ficamos sempre na maior expectativa, torcendo por um chamado do fiscal. E eles lá conversando, apontando para nós, o motorista apontava com o polegar, por cima do ombro, para a carroceria e nós ali quase comendo os dedos. E eis que o fiscal nos chama pra conversar com o motorista. Perguntou-nos para onde íamos e se havia algum problema de eu e o Sérgio irmos na carroceria e a Simone com ele na cabina, respondemos que não, lógico. O que queríamos era sair dali o quanto antes. Então, nos indicou que no final da carroceria, após a carga de mais ou menos um metro e meio de altura, havia um espaço vago, e que poderíamos nos alojar ali, e que a Simone já poderia subir à cabina. Acenamos e agradecemos ao fiscal e nos dirigimos cada um ao seu novo lugar. Estávamos radiantes, pois na rápida conversa com o motorista, ele nos informou que estava indo para São Paulo e que nos deixaria lá sem problemas. Que sorte, no nosso terceiro dia já conseguimos carona direto pra São Paulo, assim muitos acontecimentos que esperávamos enfrentar seriam burlados e teríamos mais tempo na terra da garoa. Subimos na carroceria, no lugar indicado pelo motorista, lá havia o resto da lona utilizada para cobrir a carga, e tínhamos por volta de um metro e meio para nos acomodarmos onde seria nossa nova estadia por alguns dias e noites. Logo o caminhão deu partida e mais uma vez acenamos ao fiscal que fora tão nosso amigo e fomos, eu e Sérgio logo tratando de espalhar a lona cobrindo as tábuas da carroceria, para fica mais confortável para nós, uma vez que ali seria a nossa cama, sofá e onde teríamos de nos mexer pelos próximos dias. Os comentários sobre nossa sorte eram inevitáveis. Estava tudo correndo o melhor que o esperado, mas como seria dali em diante? Será que mesmo com essa carona algum problema nos esperava? Mesmo com essas dúvidas a alegria era o sentimento que enchia os nossos pulmões e nos motivava a seguir em frente.

Rapidamente pegamos a auto-estrada e a velocidade do veículo aumentou gradativamente. Eu e Sérgio nos protegíamos do vento que fazia um tipo de redemoinho atrás da carga. O dia nublado nos favoreceu. Surgiu nesse meio tempo a dúvida do que seria aquela carga, tentamos levantar um pedaço da lona que a cobria por inteiro e nos servia de colchão, não conseguimos e preferimos deixar pra lá, pois poderia desmantelar a amarração e o motorista desconfiar de que queríamos roubar algo da carga. Seguíamos em frente quando o caminhão começa a descer uma ladeira, nos levantamos para ver a extensão dessa parte da pista, ficamos em pé e escorados com o peito na carga, a velocidade deveria ser uns cem quilômetros por hora, ou mais. As brincadeiras com o vento forte logo começaram, um fazia de conta que era um super herói de gibi, o outro gritava feito um louco, até que a loucura chegou ao seu ápice quando decidimos subir na carga e sentarmos nela, com os pés presos nas cordas da amarração. Foi uma sensação de se estar realmente voando, ali sentados, com os braços erguidos e balançando ao vento que golpeava nossos rostos. Foi realmente insano, pois se algo ocorresse não tínhamos a carroceria como apoio, devido à sua pouca extensão, cairíamos direto no asfalto. A descida estava para se encerrar e voltamos para o nosso lugar, eufóricos com o que acabáramos de fazer, a descarga de adrenalina foi grande, e falávamos que daquilo nós nunca iríamos nos esquecer, que tínhamos que contar rapidamente aos amigos assim que voltássemos. Enquanto conversávamos a estrada ia passando e ficando pra trás, e chegamos a um trecho em obras, em que a pista literalmente sumia o que víamos era um aterro que se estendia além das dimensões da estrada e se misturava a onde deveria ser o acostamento. Os enormes buracos e elevações no terreno faziam o caminhão se locomover em marcha lentíssima e em movimentos de sobe e desce semelhantes a uma embarcação no mar. A situação desta parte da estrada nos causou revolta e comentários sobre os vários impostos que são pagos constantemente para a manutenção da estradas. E o caminhão seguia no sobe e desce até que se encerrou o pedaço acidentado e pegássemos um breve trecho de terra. Entramos em um posto de gasolina, parando perto a uma casa de cor azul claro. O motorista desceu e nos convidou a fazer o mesmo. Ele entrou na casa e de lá de dentro nos chamou, nós atendemos ao chamado e já todos no interior da casa que na realidade servia de restaurante, bem simples e modesto, mas com um delicioso aroma de comida sendo feita, o motorista se apresentou como “Mineiro”, disse que na realidade nasceu em Aracaju, mas tinha o apelido de Mineiro, nem ele sabia o porquê. Perguntou nossos nomes ao mesmo tempo em que nos convidava a sentar com ele em uma mesa retangular de madeira e quatro cadeiras. Nos sentamos todos, dizendo os nossos respectivos nomes, ele perguntou se já tínhamos almoçado, a resposta foi que não, virou-se e pediu ao senhor no balcão de mais três pratos. Fomos logo dizendo que não queríamos dar despesas a ele, mas a resposta foi que não nos preocupássemos, estava tudo bem, ele só não poderia pagar todas as nossas refeições. Perguntou também se tínhamos algum dinheiro conosco. Uns vinte e cinco a trinta Reais foi a nossa resposta. O Mineiro quis saber nossa história, o porquê de estarmos fazendo aquela viagem tão arriscada, e perguntou se tínhamos noção dos riscos que estávamos sujeitos a passar. Ficamos naquela conversa até quando o almoço chegou e durante até o final de deliciarmos o lauto manjar. Apesar de se mostrar de certa forma amistoso conosco, Mineiro tinha uma aparência de ser muito gente boa, do tipo fácil de se tornar amigo. Era um homem de um metro e sessenta e cinco de altura, mais ou menos, de cor parda, tipo queimado do sol, cabelos crespos e com idade por volta dos trinta e cinco anos, deveria ter o peso na faixa dos seus sessenta e sete a setenta quilos.

Enquanto terminávamos de almoçar, Mineiro foi abastecer o caminhão. Ele voltou e nós ainda estávamos comendo, se surpreendeu com aquela cena e nos convidou a darmos partida o quanto antes. Terminamos rapidinho e nos dirigimos ao caminhão, cada um em seu lugar, lá fomos nós de novo. O céu ainda nublado, era por volta das uma ou duas horas da tarde, e em cima da carroceria íamos recordando o dia de muitas e ótimas novidades. Depois de uma longa conversa sobre vários assuntos, inclusive sobre o telefonema à sua mãe que o Sérgio fez em que ela lhe contou que nossa amiga Emília estava vindo também de carona ao nosso encontro. Ela ficou sabendo de um senhor que estava vindo para São Paulo de caminhão e lhe pediu que a levasse junto. Mas, segundo a própria mãe de Sérgio, isso não era cem por cento certeza de acontecer. Então após esta longa conversa, ficamos cada um no seu canto da carroceria, ali matutando. Eu observava a estrada passar, via a vegetação se alternando, olhava os carros que de nós se aproximavam e depois de ter certeza da segurança, nos ultrapassavam e iam para seus respectivos destinos. Eu me perguntava quem eram aquelas pessoas, para onde iam, o que faziam das suas vidas, se teriam coragem ou estimulo pra fazerem o mesmo que nós. Em partes da pista não se tinha acostamento, e o mato esguio crescia rente ao asfalto. Vez por outra algumas casas de pau a pique se mostravam no meio do nada onipotente, como um palácio de pessoas simples, que viam os carros velozes passarem pela estrada, como que um lazer para os fins de tarde. Assim como as pedras no asfalto, as horas passavam, e envolvido em meus pensamentos fui surpreendido pelo chamado de meu companheiro, ele tinha na mão uma lata de cola de sapateiro, me perguntou se eu queria cheirar aquilo, eu respondi que não e quis saber onde ele havia conseguido aquela lata. Ele respondeu que foi no armazém de materiais para construção, onde paramos para descarregar os sacos de cimento, no dia anterior. Eu ainda comentei que aquilo poderia fazer mal a ele, mas a resposta foi que só iria ver qual era a “viagem” daquilo ali, e ficou no canto dele cheirando até dormir. Eu continuei o observando, com o pôr do sol daquele longo dia ao fundo. Lá estava meu amigo de tantas horas, sempre com o boné virado pra trás, magro, pele queimada, a mesma roupa da saída, uma calça jeans surrada, camiseta e sempre disposto a novas experiências, um típico cidadão do mundo. Naquele momento percebi que tínhamos esquecido de algo muito importante nesse tipo de aventura, uma maquina fotográfica. Quantas coisas e pessoas teríamos registrado até aquele momento? E me recordei dos momentos em cima da carroceria, descendo a ladeira sentado na carga, e depois quando eu e o Sérgio comemos algumas bolachas pensando que aquela seria nossa única refeição do dia. E comecei a sorrir sozinho, lembrando da conversa em nossa recente parada, que nós lá de cima da carroceria tínhamos comido as bolachas. Simone reclamou por a gente não ter guardado nenhuma pra ela. Então falamos bem sérios, que tínhamos jogado bolachas lá de trás em direção à cabina, procurando fazer com que as bolachas fizessem uma curva e caíssem bem dentro da cabina. Perguntamos se ela comeu alguma e ela disse que a gente não havia feito isso não, respondemos que fizemos sim, e ela, ingenuamente, comentou que nenhuma bolacha havia caído dentro da cabina e que a gente só fez desperdiçar comida. O que me fez sorrir naquele momento, ali sozinho, enquanto o Sérgio dormia chapado com a lata de cola no piso da carroceria, era o fato de que a Simone havia acreditado mesmo que havíamos arremessado bolachas “Creme Cracker” lá de trás e que as bolachas conseguiam vencer o vento forte que se produzia na alta velocidade que o caminhão desprendeu ladeira abaixo, antes de chegarmos ao pedaço da pista em obras. Eu pensava que ela era muito ingênua e nós dois muito maus.



A noite logo chegou, e com ela Sérgio acordou, falou comigo, reclamou de uma dor de cabeça. Praguejando a lata de cola de sapateiro jogou-a na direção do mato e disse que nunca mais queria saber daquilo. E mesmo com ele reclamando de dor de cabeça, nós conversamos enquanto a noite avançava e as cidades passavam. Antes de chegarmos à cidade de Feira de Santana, o Mineiro pára o caminhão e combina que quando ele buzinar de um determinado jeito é sinal que há um posto da Polícia Rodoviária Federal à frente e nós nos escondemos embaixo da lona e ficamos bem quietinhos, pois é terminantemente proibido viajar como Sérgio e eu estávamos, e além de perdermos a ótima carona o Mineiro levaria uma multa tremenda. Tudo combinado, seguimos viagem. Nós já ficamos logo debaixo da lona, pois estávamos com sono e pretendíamos dar umas cochiladas. E estava quase dormindo quando o caminhão passou por uma lombada em velocidade avançada para tal manobra e a carroceria sacudiu rapidamente o suficiente para nos erguer uns vinte centímetros e eu voltar com um golpe seco nas taboas da carroceria com as costas, soltando um breve grito de dor. Não posso negar que praguejei o motorista pela imprudência e por não poder sair de debaixo da lona até segundo sinal. Eu mal podia me mexer. Ainda comentei com meu companheiro e o que recebi de resposta foi uma gargalhada e o conselho pra ficar esperto. Era uma noite de clima bom, nem tão quente e nem tão frio, e após o sinal do Mineiro pudemos nos levantar de debaixo da lona que nos cobria e escondia, e daí pudemos também ver ainda um pouco do final da cidade. Continuamos rodando mais um pouco e paramos em um posto, onde o Mineiro foi jantar, e não nos convidou, sem que levantasse de nossa parte qualquer tipo de remorso ou chateação com relação a ele, uma vez que não era sua obrigação nos sustentar durante a viagem, mas nos deu algum dinheiro, o qual não gastamos todo, seguindo o nosso pensamento de economizar ao máximo, procurando comer o que fosse mais barato e com maior valor nutritivo, rico em calorias, principalmente. E como nos postos o cafezinho não é cobrado aos motoristas e seus acompanhantes, nos valíamos desse benefício e acompanhávamos com fatias de bolos, ou alguma comida, como mandioca com molho de carne, que é barato, alimenta e é rico em calorias.

Dormimos por ali. E logo bem cedo fomos despertados pelo Mineiro, que sugeriu que se quiséssemos tomar banho nos apressássemos, pois logo sairia em viagem. Assim o fizemos, um de cada vez, primeiro a Simone, depois o Sérgio e, por último, eu. Tomamos mais uma vez daqueles cafezinhos gratuitos com fatias de bolo e tomamos a estrada. Foi um dia sem muitas novidades, apenas o caminhão ganhando caminho, as cidades passando por nós, ou melhor, dizendo que nós passávamos pelas cidades. Em algumas tínhamos que passar por dentro delas mesmo. Acredito que a minha maior dificuldade, hoje em dia, em traçar o nosso verdadeiro trajeto em detalhes se deve tanto pela perda da caderneta do Sérgio, quanto por esses atalhos que encaramos. Nesse dia terminamos de cruzar o território da Bahia e adentramos por Minas Gerais, e como já sabíamos que a carga do caminhão era de pinha, uma fruta de rápido amadurecimento, era normal a pressa do nosso amigo caminhoneiro. Agora me recordo que antes que o Mineiro nos dissesse o que estava carregando, eu e o Sérgio conseguimos erguer um pedaço da lona e descobriras caixas empilhadas com as frutas, ainda tentamos tirar algumas, mas a possibilidade de estragar as caixinhas, ou com as frutas, nos fez mudar de idéia rapidamente. Lógico que quando o Mineiro nos informou o conteúdo da carga, nos fizemos de desentendidos e surpresos. O que nosso companheiro pensaria quando relatássemos o nosso feito de tamanha curiosidade? Nessas circunstancias toda tentativa de passar uma boa imagem, ainda é pouco. Tem que se pensar primeiro no que vai se falar, e foi importante nossa atitude, de certa forma, amistosa, procurando não nos mostrar muito interessados em sermos grandes amigos. Por volta das duas horas da tarde, quando já estávamos no estado de Minas Gerais, paramos pela primeira vez, desde que saímos do estado da Bahia. Logo o Mineiro veio nos informar que ali deveríamos tomar um bom banho e faríamos nossa ultima grande parada, onde almoçaríamos bem e seguiríamos praticamente sem parar até o CEASA do Rio de Janeiro. Ponto final da carga, de lá tocaríamos até São Paulo. Ele anunciou também que não iria parar pra dormir e que rodaríamos quase dois dias direto, pois estávamos atrasados e só assim para ganharmos terreno. Então começamos o revezamento da ida ao banheiro, dessa vez invertemos, fui primeiro, depois o Sérgio e por ultimo a Simone, que por sinal demorou muito, e ao sair ficamos olhando, foi inevitável. Como era bonita e charmosa, vestindo uma blusinha sem mangas e uma calça de algodão colada que cobria suas pernas até altura das canelas, mas também muito esquecida e desastrada. Enquanto vinha na direção do caminhão e nós a observando, nos perguntamos quando ela iria se tocar de determinado detalhe. Sérgio põe a mão na testa e diz que aquilo não está acontecendo. Mas tudo bem. Quem nunca esqueceu de algo em algum lugar? E quando de uns quatro metros do caminhão ela nos olha com os olhos esbugalhados e volta quase que correndo em direção ao banheiro de onde saíra há pouco. Após alguns segundos, retorna na nossa direção colocando sua mochila no ombro direito. Ela havia esquecido a própria mochila. Como já disse, tudo bem. Mas estávamos em um posto de gasolina e no meio do mundo. E se alguém tivesse entrado e saído do banheiro feminino naquele meio tempo em que ela se dirigia a nós? Poderia ter levado sua mochila, com todas suas roupas e pertences. Mas foi um esquecimento, só ficamos mais atentos em nos lembrar mutuamente, sempre que preciso, de algo importante, dali pra frente. Este é um fato que pode acontecer com qualquer um de nós, é sempre bom ter atenção redobrada. Vale salientar, até então ainda não tínhamos trocado de roupas. Tomávamos banho, mas vestíamos as mesmas roupas. Imundice, falta de higiene? Mas o nosso pensamento era o de não ficarmos com as mochilas cheias de roupas sujas, pois poderíamos precisar de roupas limpas em determinada ocasião, como conversar com alguma pessoa que pudesse nos ajudar. A Simone sempre trocava de roupas após os banhos, mas eu e o Sérgio só trocávamos as cuecas, e as que estávamos vestindo aproveitávamos e já lavávamos durante os banhos. Pra secar, era só pendurar nas amarras da carga e depois guarda-las nas nossas mochilas.

Após todos termos tomado banho, fomos ao encontro do Mineiro no restaurante do posto, onde ele já estava quase terminando de almoçar. Ele estava sozinho sentado a mesa, e por serem daquelas mesas de quatro lugares, preferimos sentarmos, os três juntos, em uma mesa separados dele, mas antes comunicando nossa escolha, para evitar que ficasse chateado conosco ou sentindo rejeição, ou até desconfiança. Falamos que íamos sentar em uma outra mesa a parte, para não superlotar a pequena mesa em que ele já estava sentado, ele entendeu prontamente e apenas nos pediu que fossemos rápidos. Assim que a garçonete nos trouxe os pratos, talheres e as tigelas com a comida, começamos o espetáculo da comilança desenfreada. A fome era terrível, e havia a pressa pra não atrasar o Mineiro. Com tempo ele se levanta, vira-se para nós e comenta que está nos esperando, no caminhão e que o almoço já estava pago. Nós, lógico, agradecemos e avisamos que já estávamos acabando. Mas assim que ele saiu do restaurante, nós chamamos o garçom que estava retirando o almoço dele da mesa e pedimos que nos trouxesse as tigelas em que ainda tivesse alguma quantidade de comida, e ele nos trouxe as que tinham mandioca frita, macarrão, arroz e feijão. O resultado deste desastre gastronômico foi três barrigas redondas e inchadas de tanta comida. Como a intenção do motorista era só parar no Rio de Janeiro na noite do próximo dia, tínhamos que aproveitar ao máximo o almoço, e assim fizemos, sem dó nem remorso. Terminando fomos apressadamente pro caminhão, cada um tomou sua posição e lá fomos nós de novo. Nós de cima da carroceria, tivemos que nos apressar a guardar logo as roupas que estavam em cima da carga tomando um solzinho, antes que o vento as levasse. Eram nossas cuecas, meias e toalhas. Tomada a estrada novamente só nos restava ver a paisagem que ia passando com o vento, as pessoas em seus mundos, as cidades e seus costumes. Éramos meros espectadores passivos. Lembro-me das fazendas localizadas a vários metros de distancia abaixo da pista, parecendo fazendinhas de brinquedo, as vacas holandesas se transformavam em vaquinhas brancas no vasto tapete verde que as contornava. As enormes montanhas, com seus vales que escondiam plantas e segredos que para nós continuam inéditos. Assim a estrada ia ficando para trás, tracinho amarelo por tracinho amarelo. E o tempo que se arrastava sorrateiro nos aproximando de mais uma noite. Conversávamos bastante, sobre tudo, pois como éramos muito amigos, tínhamos a liberdade de conversar sobre todo tipo de assunto, e no meio destas conversas, comentamos que se soubéssemos que iríamos ter tanta sorte ao conseguirmos as caronas que conseguimos, talvez tivéssemos saído de Campina Grande uma semana depois, ou seja, faltando apenas uma semana para o festival “Monsters Of Rock”, que nos fez tomar a atitude de sairmos de nossas casas e encararmos toda esta loucura em que estávamos metidos até as cabeças. Na realidade nós sempre tivemos o anseio de fazer esta viagem, de Campina Grande até São Paulo e voltarmos de carona, arriscando tudo neste jogo, mas faltava um intuito, um objetivo, uma meta. Só chegar a São Paulo e voltar não tinha graça, era preciso uma data, um evento, algo que não dependesse de nossa chegada para que ocorresse, nós que tínhamos que correr contra o tempo para chegar a tempo de presenciar tudo. O festival estava previsto para ser realizado no dia vinte e sete de agosto de mil novecentos e noventa e quatro. Decidimos sair na manhã de dezoito de agosto, na tarde do dia quatorze, justamente na casa da Emília. Eu já estava por ali em nosso quarto de ensaios de nossa banda, e o Sérgio chega, todo eufórico, dizendo que estava confirmado o festival, e que agora tínhamos um motivo para nossa, há muito planejada, viagem. Ele me disse que faltavam apenas duas semanas, e queria saber quando seria melhor sairmos. Eu respondo que como já era domingo, teríamos que ter tempo suficiente para esquematizar tudo bem direitinho, não poderíamos fazer tudo na maior correria, era preciso cautela. Então deveríamos sair na terça-feira. Ele se surpreendeu e disse que estava muito em cima, tinha que correr atrás de umas dívidas e esquematizar tudo melhor, na terça não daria tempo. Então sugeriu que saíssemos na quinta-feira, dia dezoito. Enquanto se pensa que houve pouco tempo para os preparativos, vale lembrar que já pensávamos e planejávamos tudo para esta viagem há mais ou menos um ano, então quase tudo já estava em nossas mentes há um bom tempo. O engraçado foi como a idéia desta nossa viagem chegou ao conhecimento de tanta gente em uma semana ou menos. Do domingo até a quinta-feira praticamente todas as pessoas que a gente conhecia já estavam sabendo e vinham com todo tipo de conselho, dúvida e curiosidade a respeito. Sinceramente, até hoje não sei o porquê de tanto “bafafá”. Alguns amigos e amigas diziam querer nos acompanhar, mas cada um com suas dificuldades e empecilhos. Outros confirmaram presença no festival, mas iriam de avião e ficariam em pousadas com confirmação de estadia antecipada. Tudo muito fácil, ali, na mão. Mas nós também estaríamos marcando presença no Pacaembu no dia vinte e sete de agosto. Era nosso pensamento.

Passamos do estado de Minas pro Rio de Janeiro e nem percebemos. Não conhecíamos as cidades por onde passávamos, e as que conseguíamos ver as placas de referência foram Governador Valadares e algumas outras poucas. Mesmo porque havia a pressa do motorista em chegar logo à cidade do Rio, e com isso depois de atravessarmos algumas pequenas cidades e Volta Redonda, estávamos entrando em um charmoso posto de gasolina, onde paramos para um rápido abastecimento e pra tomar um cafezinho, pois o frio estava intenso. Ao descermos do caminhão perguntei ao Mineiro onde estávamos e ele respondeu que ali era a Serra de Petrópolis e nos convidou a tomarmos um café pra esquentar um pouco. Dentro do restaurante bem arrumado e cheio de gente bem vestida, com casacões compridos e de cores escuras, trocamos algumas palavras a respeito da viagem e a proximidade do destino final da carga, o CEASA do Rio de Janeiro. Aproveitamos para irmos todos aos sanitários e andar um pouco pra esticar as pernas que já estavam há horas praticamente na mesma posição. Desde o almoço que estávamos rodando direto e já deveria ser meia noite ou um pouco mais, talvez uma e meia da manhã. O frio estava de rachar, e até então não lembro de ter enfrentado temperatura tão baixa em toda minha vida. No intervalo em que a Simone foi ao sanitário, o Mineiro pediu que um de nós dois fosse com ele na cabina, pois ela, a Simone, era muito calada, e como geralmente os caminhoneiros viajam sozinhos, as caronas que sedem servem também de companhia e troca de prosa. Sérgio disse que estava com sono e queria tentar dormir um pouco, então eu me prontifiquei a salvar nosso amigo motorista, mas confesso que também estava com sono e cansado devido ao frenético movimento da carroceria, do vento constante e do Sol que desgasta. É um belo conjunto pra quem quer perder peso, dormir bem a noite e ficar com a aparência de idade mais avançada que a que tem realmente. A Simone saiu do sanitário, nós terminamos de tomar nossos cafés, e mais uma vez tomamos nossas posições no caminhão, dessa vez ela assumiu um lugarzinho na carroceria e eu fui acompanhando o Mineiro na cabina. Ao tomarmos a estrada tratei de conversar com ele sobre assuntos diversos, mas fui logo dizendo que estava com um sono danado, e observei que a sua janela estava aberta, o perguntei se não estava com frio, e a resposta foi que estava um tempo bom, nem frio, nem calor. Puxa! A minha janela estava fechada, eu vestia um tanto de roupas, inclusive dois pares de meia, e um par de meias fazendo as vezes de luvas, e mesmo assim eu ainda tremia de frio. Como conversar nessas circunstancias? A essas temperaturas não se tem vontade de se fazer nada, além de dormir, e após poucos quilômetros foi o que procurei fazer. Encostei a cabeça no encosto do banco, mas devido às curvas e às trepidações, não consegui relaxar, então tive que encarar o assento como uma meia cama, com as penas como estavam enquanto estava sentado e a cabeça e tronco deitados no banco da cabina. O quê o Mineiro deveria estar pensando naquele momento? Se já estava maçante com a Simone, que só observava a paisagem na janela, e só respondia as perguntas dele, imagine com um fulano dormindo ao seu lado. Mas não consegui grandes coisas, apenas um rápido cochilo e pronto, fui despertado por um sonorizador e me sentei novamente, daí em diante procurei ser uma boa companhia, mesmo com a fumaça terrível dos cigarros, que ele acendia vez por outra.



Rapidamente estávamos circulando pelas ruas da cidade do Rio de Janeiro rumo ao CEASA. E logo paramos frente a um portão largo com uma guarita a sua esquerda, de onde saiu um rapaz para checar as notas fiscais e se tínhamos autorização para entrar. Tudo certo, lá fomos nós CEASA adentro, não faltaram os comentários de finalmente termos chegado, e sem nenhum problema. Mesmo com as paradas para almoço, jantar e café, a carga estava entregue no tempo previsto e esperado, não havia o risco de apodrecimento em quantidade. Enquanto o Mineiro me explicava que assim que todas as caixas de pinha fossem descarregadas e ele recebesse o pagamento, nós seguiríamos pra São Paulo, uma Kombi nos acompanhava do meu lado com um rapaz negro empunhando uma metralhadora direcionada pra nossa cabina, e gritando, o mesmo acontecia do lado do Mineiro. Como minha janela estava fechada, não pude entender o que ele queria, e comentei com o Mineiro sobre aquilo tudo, ele disse pra baixar logo o vidro da janela, enquanto falava com o cara do seu lado como que estivesse tudo bem, tudo certo, sem problema. Mas assim que eu baixei a minha janela, o cara gritou pra pararmos rapidinho senão ia nos encher de bala. Falei com o Mineiro o que eles queriam, e prontamente o caminhão foi parado, assim como as kombis que nos acompanhavam, seus ocupantes saíram em seguida e em segundos estavam cercando nosso veiculo com as metralhadoras em nossa direção. Gritavam pra abrirmos rapidinho as portas e descermos pro asfalto, mas não foi preciso tanto, o Mineiro já estava com as notas da carga em mãos e com as portas abertas entregou-as a um dos caras e quis saber o quê estava acontecendo. A gente havia acabado de passar pela guarita sem nenhum problema. Então, pra quê todo aquele aparato e correria? Porque daquelas armas apontadas para nós? Não fizemos nada demais! Eu estava com um indivíduo de uns dois metros de altura falando pra eu ficar bem quietinho e com as mãos a vista, e não fechar a minha porta, isso com uma metralhadora nas mãos. Nunca tinha passado por uma situação semelhante em aflição e risco de perder a vida por motivo que não sabia qual era. O cara que recebeu do Mineiro as notas perguntou se o pessoal da carroceria estava conosco, a resposta instantânea foi que sim, estavam só pegando uma carona, e foram lá por não caber todo mundo na cabina. Daí o cara pede pra olharmos num morro às nossas costas, e informa que ali é a Favela de Acari, lugar perigoso, que freqüentemente tem problemas com pessoas tentando roubar cargas, ou entrar clandestinamente no CEASA. Completa que quando passamos pela guarita a lona no final da carroceria se levanta e sai um cara com uma touca cobrindo o rosto. Daí ele pergunta ao Mineiro se o cara da carroceria está mesmo conosco, e a resposta é a mesma que antes, ou seja, que sim. Então acompanhamos os guardas até o fim do caminhão, onde estavam mais dois guardas com as armas nas mãos em direção ao Sérgio e Simone, que estavam em pé na carroceria e de braços erguidos, olhos esbugalhados, como que em estado de choque, sem entender nada, como nós ficamos, lógico! O rapaz que ouvira as explicações do Mineiro diz aos companheiros que estava tudo bem, que os dois ali estavam conosco, mas dá uma dura no Sérgio e quis saber o motivo da touca cobrindo o rosto. Sérgio responde que não era uma touca, e sim uma simples camisa que ele colocou daquele jeito devido ao frio que estava muito grande ali atrás, e como estava dormindo debaixo da lona até o caminhão parar na guarita, ele quis saber onde estávamos, o porquê de termos parado e ao ver que havíamos chegado ao CEASA, ficou muito feliz e queria conhecer o local. O guarda entendeu, mas quis saber se ele sabia que aquele morro à sua esquerda era a Favela de Acari. Sérgio respondeu que nunca havia estado no Rio de Janeiro, e que não sabia nem onde estava direito. Tudo resolvido, apesar da pouca cordialidade dos guardas, que mais gritavam com o sotaque carioca peculiar, do que falavam, fomos pra cabina e rumamos em direção ao local indicado na nota para a descarga das pinhas. Era muito cedo, ainda estava escuro, imagino que eram umas quatro horas da manhã. Assim que chegamos ao “box” reservado para nós, ou melhor, para o caminhão, o Mineiro fez manobra para coloca-lo de ré, o estacionando rapidamente, descendo da cabina me chamou para conversarmos no final da carroceria. Lá ele nos pediu que não dormíssemos, que ficássemos de olho na carga e no caminhão, ali é um lugar muito perigoso e todo cuidado com os malandros é pouco. Ele ia ao bar/lanchonete situado no “Box” de esquina na “rua” em que estávamos, ia tomar um copo de leite pra cortar o efeito do “rebite” que havia tomado para dirigir direto, sem dormir a noite anterior, pra chegar a tempo. Disse que é só tomar o leite para o efeito do estimulante ser cortado e o sono e cansaço baterem novamente. Não era preciso acordar-lo quando os descarregadores fossem começar a retirar as caixas da carroceria, eles já sabiam o que tinha que ser feito, e só o fariam com ordens dos proprietários da carga, que trabalhavam justamente no Box a nossa frente. O Mineiro foi ao bar e nós ficamos na carroceria comentando o ocorrido a pouco, da confusão com o Sérgio, que envolveu a todos nós. E se ele não tivesse se levantado, os guardas desconfiariam de sua presença debaixo da lona? Um ladrão teria feito o que o Sérgio fez? Teria se mostrado e com um pano no rosto? Não teria sido exagero dos guardas? Com o retorno do Mineiro, revezamos as idas ao sanitário do mesmo bar onde ele havia tomado o leite. Só a Simone que não foi. Estávamos com muita fome e sono, e no bar não tinha muita coisa interessante pra comer, só uns pedaços de porco assado, como orelhas, tripas e outras iguarias de gosto duvidoso. Ficamos por ali, tomando conta da carga, enquanto o Mineiro dormia. Como é grande aquele lugar, e quanta fruta deve passar por ali! O dia ia surgindo com o raiar do Sol, e já comentávamos a possibilidade de hoje mesmo estarmos em São Paulo. Como foi rápida a nossa viagem. E as dificuldades que esperávamos enfrentar não surgiram. Essa carona com o Mineiro foi a melhor coisa que aconteceu até ali. Como ele estava com uma pressa tremenda, devido à carga perecível, fomos obrigados a simplesmente ver as cidades ficarem para trás, e desde que o acompanhamos que poucos foram os momentos que passamos além de ficarmos na carroceria apenas observando.



Logo cedo começa a tarefa de descarregar os caminhões, e o número de pessoas cresce gradativamente. Você vê todo tipo de gente. Os “chapas” são homens enormes em termos de coragem e disposição para o trabalho. Dependem disso. Não podem se dar ao luxo de escolher serviço ou com quem trabalhar. Não demora chegam três indivíduos com idades entre os trinta e quarenta anos, que abrem as duas portas do Box, e rapidamente surgem os chapas que tirarão as caixas do caminhão tão rápido como formigas num doce. Um dos proprietários da carga e do Box vem até nós, nos cumprimenta e pergunta se estávamos com aquele caminhão. Respondemos que sim e que o motorista estava dormindo na cabina, ele diz que pensava que eu fosse o motorista. Então, os chapas tiram a lona e iniciam a retirada das caixas de pinhas, empilhadas na carroceria que foi nossa casa por dois dias. Enquanto eles faziam o serviço, o Mineiro dormia na cabina, nós observávamos tudo, as pessoas que passavam, as senhoras com os carrinhos de carregar frutas pedindo uma pinhazinha aqui, umas laranjas ali, algumas bananas acolá, assim enchendo os carrinhos sem gastar um centavo. Tudo ali era curioso pra a gente. Como se joga fruta fora, é só não estar num estado ou tamanho desejado que se joga na borda das plataformas de descarga, que logo ficam lotadas. E mesmo essas têm utilidade para varias pessoas que passam de plataforma em plataforma olhando e escolhendo as frutas que ainda estão em bom estado. Como surge gente de todo tipo tão rapidamente. Como é rápido o negócio da compra e venda das frutas. Mal os chapas descarregam as caixas e faziam com elas pequenas pilhas no piso do interior do Box e já tinham que tirar tantas caixas pra aquele comprador, outro tanto pra aquele outro, e assim íamos vendo a carga inteira sendo retirada, selecionada por tamanho e estado de conservação das frutas a serem vendidas. Como a fome estava grande, não exitamos em pedir umas pinhas, que eram rejeitadas, para comer e as caixas que eles iam jogar fora, por algum problema. Nós íamos pedindo e juntando, na intenção de levarmos conosco como futuro alimento e talvez como presente a quem nos acolhesse em São Paulo. Impressionante como o Mineiro conseguia dormir mesmo com todo aquele barulho típico de uma feira popular, e com o balanço do caminhão para a retirada das caixas.

Terminada a descarga das caixas de pinha, foram acordar o Mineiro para os acertos finais. Era hora, enfim de seguirmos rumo a São Paulo, nosso grande e final objetivo. Dessa vez tínhamos mais espaço na carroceria, e nos posicionamos bem na grade junto à cabina, as nossas mochilas com as seis caixinhas de pinha que herdamos da descarga. Não estavam ruins como se pode pensar, estavam com uma ou outra fruta um pouco amassada, ou com tamanhos diferentes entre si, o que já é motivo para serem execradas das outras. Sinceramente nunca comi tanta pinha em toda minha vida, e não pensava em comer as que levávamos. Saímos, afinal do CEASA do Rio de Janeiro, o Sol estava escaldante, o calor típico de uma cidade litorânea. E lá estávamos nós, conseguindo concretizar nosso plano. Próxima parada só em São Paulo, se nada ocorresse de errado. Passávamos pelas ruas da cidade do Rio e olhávamos tudo em volta, queríamos guardar todos os detalhes possíveis, assim como procuramos fazer com todos os lugares por onde passamos, seja nas cidades ou nos postos de gasolina onde íamos tomar um cafezinho e comer alguma coisa pra enganar o estômago antes de seguir viagem. Como esquecer do pequeno posto na estrada de Minas Gerais, onde o caminhão teve que resolver um problema de pneu, e que nos chamou a atenção o forte sotaque caipira do menino borracheiro? Como esquecer das situações engraçadas que passamos, que aqui estão sendo relatadas? E das circunstâncias em que passamos e conhecemos a cidade, dita “maravilhosa”? E nossa estadia na cidade foi muito rápida e passageira. Logo nos víamos na estrada e vendo a cidade ficando pra traz. Quando estaríamos por ali de novo? E o que nos aguardava no decorrer do dia? Em meio a esses pensamentos fomos em direção a mais um posto para um abastecimento, tanto do caminhão quanto para nós, que só tínhamos comido as pinhas. O veículo ficou estacionado a esquerda da entrada do restaurante simples, e enquanto Sérgio e eu estávamos cobrindo as mochilas com a lona, a Simone vem até nós, sem subir na carroceria, e diz que o Mineiro, antes de se dirigir ao restaurante, lhe entregou algum dinheiro para que a gente comesse alguma coisa. Não me recordo o valor exato, mas eram uns dois Reais, ou menos. Acho que ele já estava querendo dar fim na nossa amizade, meio companheiros de viagem. E logicamente não queria continuar nos bancando até o fim da viagem, o que também não era o nosso pensamento em nenhum momento. Se alguém nos pagava algo ou nos dava algum dinheiro, isso era tudo por livre e espontânea vontade, a única coisa que pedíamos eram as caronas, o resto era lucro. Bem, como ela disse estar com muita fome e nós ainda escondendo as mochilas, sugerimos que fosse primeiro e pedisse algo pra nós também. Assim ela o fez e nós dois fomos após alguns segundos. Sabíamos que seria nossa última parada antes de São Paulo e estávamos muito alegres com isso. Ao entrarmos no restaurante, logo a vimos encostada no balcão, e a ela nos dirigimos. Quando nos encontramos, a Simone estava com uma garrafa de Coca-Cola na mão e tomando seu conteúdo com um canudinho colorido. Em cima do balcão havia mais duas já abertas e com seus respectivos canudinhos coloridos. Perguntei a ela o que ela tinha pedido para comermos, ela respondeu que pediu três Cocas, e o dinheiro não dava pra mais nada. Sérgio e eu nos olhamos e procuramos entender como uma pessoa que dizia estar com fome aproveita os últimos trocados que tem para tomar uma Coca-Cola. Ficamos muito chateados com ela, Sérgio foi até desagradável e grosseiro. Eu procurei ficar calado, mas tentei explicar que nossa intenção sempre foi a de comermos o mais barato e nutritivo que encontrássemos, bastava pedir uma jarra de suco de frutas, já que disse que estava com sede. Existiam algumas opções de escolha e combinações baratas e nutritivas. Chamamos o atendente e conversamos com ele para que trocasse os refrigerantes por fatias de bolo que estavam expostas no balcão dentro das costumeiras estufas de vidro. Ele não se mostrou muito satisfeito com tudo aquilo, mas fez a troca. Acompanhando as fatias de bolo, uma pra cada, bebemos água, acho que uns três copos cada um. Não sei se foi boa a refeição, mas a água fez o bolo inchar dentro dos nossos estômagos, nos dando uma falsa sensação de satisfação, como se estivéssemos almoçado mesmo. De uma coisa estou certo: foi melhor do que tomar uma garrafa de Coca-Cola, que no máximo nos daria um belo arroto e a verdadeira sensação de vazios e de não termos comido nada. Encerrada a nossa “refeição” fomos para o caminhão esperar o Mineiro terminar sua invejada refeição. Não demorou muito e saiu do restaurante e veio ao nosso encontro, pediu que se quiséssemos, poderíamos subir à carroceria, mas se preferíssemos poderíamos ir a pé até a bomba de gasolina, onde ele ia abastecer o caminhão, nós preferimos não arriscar e subimos na traseira do veículo. Chegando lá descemos e ficamos trocando idéias com um senhor muito agradável que trabalhava naquele posto há décadas. Ele se mostrou revoltado com o mundo de hoje, com a violência e tudo mais. Disse que não tínhamos juízo por fazer o que estávamos fazendo, deveríamos recorrer a algum político que pudesse nos ceder as passagens de volta a São Paulo. Coitado, tão gente boa, mas teve que ser ludibriado pela nossa mentira forçada, não poderíamos confiar em ninguém naquela altura da viagem, faltava tão pouco! E se o Mineiro descobrisse a farsa que ele estava acreditando como sendo nossa verdade e drama? Não via a hora de poder parar com toda esta história que inventamos. Enquanto conversávamos com o gentil senhor, o Mineiro foi tratar dos detalhes da manutenção do caminhão, e voltando nos despedimos do homem, cada qual ao seu respectivo lugar de sempre e fomos nós estrada afora. Após alguns quilômetros, vimos à nossa direita placas indicando a localização do Quartel da Agulhas Negras. E por não sermos nada simpatizantes das idéias militares, não faltaram irônicos tchauzinhos e votos de contínua distância. Por outro lado, junto à proximidade da cidade que almejávamos estava a noite. E no decorrer da tarde passávamos por lugares que nos chamaram a atenção, como em São Bernardo do Campo, com suas enormes chaminés, fábricas, muitos carros em frenético vai e vem, o nosso caminhão em altíssima velocidade para poder acompanhar o ritmo alucinado das metrópoles. E o mais irônico dessa parte da história foi ver junto a uma placa em que colocava a cidade como campeã da defesa à natureza, uma grande queimada, que gerava um turbilhão de fumaça que invadia a pista com suas cinzas.

Se estávamos nas intermediações de São Bernardo do Campo era porque já havíamos adentrado o estado de São Paulo, e até a capital seria uma questão de tempo. Pouco tempo, torcíamos em nosso íntimo. Nós, da carroceria nos agradamos tanto da viagem e das condições pelas quais passamos, como a pouca dificuldade em conseguir as caronas, que pensamos até em prosseguir em direção à Califórnia. Devaneio? Claro que sim, mas foi assim, despretensiosamente e aparentemente sem motivos que decidimos fazer essa viagem. O problema era a Simone, se já foi um erro trazê-la até aqui, e disso Sérgio já há muito havia tomado consciência, o que diria carregá-la até a Califórnia. Não sabíamos como fazer para entrar nos Estados Unidos, e nem nos preocupamos em colocar à mesa as possibilidades, se decidíssemos mesmo, o negócio seria cair na estrada novamente, após o festival e torcer pela sorte.

Estávamos, enfim, na Marginal Tietê. Nossa recepção não poderia ser mais calorosa, passava por nós e pelos demais carros, um “carro-forte” em alta velocidade e na sua cola duas viaturas da polícia, e o pior disso tudo era a troca de tiros entre os três veículos. Vi algumas balas ricocheteando no carro-forte. Lógico e naturalmente ficamos assustados com aquela cena típica de filme americano de ação besteirol e perseguições sem fim. Em um semáforo o caminhão pára, devido ao sinal vermelho, o Mineiro coloca a cabeça pra fora e nos chama. Respondi e me cheguei para saber o que desejava. Queria saber se poderia nos deixar em algum lugar por ali, perguntei onde estávamos, ele respondeu que na Marginal Tietê. Procurei passar calma ao dizer que agora havia me situado. Mas, e o Terminal do Tietê, estava por perto? Com ar de indignação, responde que é só subir a alguma das escadarias à nossa direita que logo se chegaria ao terminal. Ele pareceu surpreso porque se nós morávamos em São Paulo, como não reconhecer a Marginal Tietê e suas intermediações? A essa altura o caminhão já estava em movimento e tivemos nosso segundo grande impacto ao nos depararmos com uma extensa favela que se situava a nossa direita, tomando conta desde a calçada e invadindo o terreno adentro. Ficamos um pouco de pé, para poder observar melhor como eram feitas as vielas e as casas daquele verdadeiro mundo com suas próprias leis. Quantas vidas por ali passavam? Como seriam os dias e as noites daquelas pessoas? Como e porque foram morar ali? Quantos sorrisos e lágrimas rolavam por aquelas vielas estreitas? Quais as esperanças de alguém que ali estivesse levantando um barraco, mais um em meio ao amontoado de papelão, zinco, arame, isopor, plástico e todo tipo de material encontrado que sirva de abrigo? E foi em meio a essas reflexões que vimos o caminhão parar rente a uma calçada, e o Mineiro anunciar que ficaríamos ali e ele seguiria em frente, pra casa finalmente. Perguntou se ali estava bom pra gente e eu sem pensar duas vezes respondi que ali estava ótimo, mas ainda perguntei se ele poderia nos deixar no Terminal Rodoviário do Tietê, a resposta foi que pra chegarmos lá teríamos que rodar muito, devido ao caminhão que tem que seguir a “mão” nas vias públicas. Tudo bem, já sabíamos que era só subir pelas escadas e rapidinho estaríamos no Terminal. Descemos, enfim, agradecemos, e despedimos do companheiro dos últimos dias e nos viramos para a subida. Nossa despedida e agradecimento foram muito rápidos, pois como o caminhão não poderia permanecer demoradamente ali onde estava parado, o Mineiro tratou de sair logo, e nem o agradecemos com as palavras que queríamos. Ele, com seu jeito simples e de poucas palavras, foi mais do que o cara que nos deu uma carona ótima, foi um companheiro que praticamente nos sustentou, mas soube mostrar sucintamente os limites.

E ali estávamos nós. Em uma cidade que nunca havíamos estado antes, sem conhecer ninguém, só alguns correspondentes que eu trocava cartas, por amizade e para divulgar nossa banda. Tomamos então a primeira escadaria que encontramos. O Sérgio e a Simone iam à frente, e eu um pouco mais atras pois estava meio enrolado com as alças da mochila. Olhei para cima, dei uma sondada na extensão dos degraus acima e na distância que me separava dos meus companheiros, foi quando avistei o vulto de uma cabeça, alguns lances de degraus acima de nós, como alguém que se escondesse e se valesse da escuridão. Fiquei logo cismado e chamei os dois para subirmos na escadaria mais a frente. Aquilo parecia uma tocaia. Como já havíamos galgado uns três lances da escadaria, Sérgio não gostou da idéia de retroceder e quis saber o motivo dessa minha atitude. Não falei nada que denunciasse o indivíduo lá em ciam, disse apenas que a outra escadaria era melhor, chegaríamos mais rápido por lá. Eles disseram que era besteira de minha parte e que subiriam por ali mesmo. Eu, antes de me virar e descer, ainda disse que isso era com eles, e que eu havia avisado. Desci os degraus que acabara de subir caminhei até a outra escadaria, e ainda na calçada olhei para trás, e quem me seguia? Os dois, Simone e Sérgio. Os esperei, e com ar irônico perguntei se haviam mudado de idéia, ele respondeu que já me conhecia e se eu mudei de pensamento daquele jeito e naquele lugar era porque algo duvidoso havia. Fomos juntos, e enquanto estávamos subindo eu explicava o motivo de minha desconfiança, e a certa altura olhamos para a outra escadaria e lá estava o indivíduo de pé, encostado no parapeito, talvez esperando por outra vítima. Imagino que me praguejou demais.
Chegamos ao final da escada sem maiores problemas e certamente com mais atenção do que na anterior. E agora, pra que lado ficava o terminal? Ora, era só perguntar a alguém que passasse por ali. Mas as pessoas andavam muito rápido e desconfiadas com tudo e todos, inclusive conosco, que não deveríamos estar com aparências muito atraentes. Tentamos a primeira vez, ao procurar parar uma senhora ela adiantou os passos e nem nos ouviu ou nos olhou direito. Continuamos andando em uma direção que não sabíamos se era a que ficava a rodoviária. Só não deveríamos ficar parados, se a gente andando com toda aquela pinta de perdido já estávamos despertando suspeitas, imagine parados, feito três bobos, alguém poderia até chamar a polícia. Logo percebemos que a correria não era por nossa causa, e sim um senso comum, comentamos que ali deveria ser um pedaço de certa forma perigoso. Tentamos perguntar a um senhor que foi meio desagradável, nos chamando de vagabundos, e em seguida sugeriu que a gente se virasse sozinho. Realmente nos ajudou muito. E a gente ali, andando sem rumo, pensando que seria mais difícil chegar ao terminal rodoviário do que sair de Campina Grande e colocar os pés em São Paulo. Foi quando um senhor de calção e camiseta apontou para seguirmos em frente e virarmos na primeira esquina a esquerda, num barzinho. E lá fomos nós, pelo menos não havíamos escolhido a direção errada, e no boteco paramos para tomar mais informações e um refrigerante, dessa vez um guaraná. Não sabíamos da qualidade da água que nos serviriam. Seguindo as indicações dos gentis e certamente assíduos freqüentadores, caminhamos calçada a frente e logo nos deparamos com aquele monte de concreto, aquele corre-corre de pessoas, carros, ônibus, malas, bolsas, cores, falas, sotaques de todos os lugares. Passamos por um orelhão que nos passou despercebido. E fomos perguntar numa banca de revistas onde poderíamos encontrar um telefone público. Estávamos tão nervosos e apreensivos, e com a indicação do senhor da banca de revistas voltamos ao telefone pelo qual acabávamos de passar. Havia uma pequena fila e após alguns atormentados e nervosos minutos tivemos o aparelho à nossa disposição. Assumi a responsabilidade de ligar para as pessoas que poderiam nos acolher. Pessoas que nem sabiam que estávamos indo a São Paulo, e nunca haviam ouvido falar de nós. Eu estava tão nervoso que não conseguia discar direito, então um rapaz que estava na fila, logo após nós, se prontificou em nos ajudar, logo de primeira conseguiu linha e me passou o telefone. Poucas chamadas e alguém reponde de lá, procurei por Chôla, e foi justamente ele quem atendeu. Identifiquei-me como amigo do Alexandre, de Caruaru, que teria ligado a ele falando de nós e solicitando que nos ajudasse a conseguir um lugar para ficar enquanto estivéssemos em São Paulo. Mas não fez, e ninguém sabia quem éramos e nem de nossa viagem. Procurei passar as maiores evidências de que não éramos pessoas más e que realmente conhecíamos o Alexandre, que tinha parentes morando na cidade e que há poucos meses passou tantos dias no apartamento deles, em Vila Sabrina. Até o apelido que colocaram nele, no Alexandre, eu disse, quando informei que havia sido “Rapadura” que nos deu o endereço deles como referência. Parecia não surtir efeito, o Chôla ainda se mostrava receoso e eu já com medo de termos que passar a noite na rua e perdermos a nossa maior referência. Caramba! Porque diabos o Alexandre não havia ligado para o apartamento do Chôla e relatado a possibilidade de chegarmos nos dias que se seguiram? Estaria sem cartão telefônico? Pensou que não concluiríamos a viagem? Ou será que a gente iria desistir e voltar para Campina Grande? Mas, com tudo isso e todas as dúvidas de nosso êxito ou não, ele prometeu informar que “poderíamos” aparecer por lá. Se isso ocorresse o quê o Chôla e seus companheiros de quarto poderiam fazer? Estávamos frente ao maior fracasso em toda a aventura por causa de um telefonema que não foi dado. Eu estava muito nervoso, tremia, todas as hipóteses sobre as dúvidas do Alexandre passavam em minha mente, e não tinha mais argumentos, enquanto acompanhava as últimas unidades do cartão sumirem no visor digital do aparelho telefônico. Foi quando o Chôla disse para irmos para lá, que lá eles veriam o que poderia ser feito para nos acolher, e deu todas as referências de como chegar tanto à Vila Sabrina, quanto ao apartamento deles. Nisso um grande alívio percorreu meu peito, minha feição com certeza mudou tanto que até eu percebi, e isso também nos rostos de Sérgio e Simone, que sorriu com os olhos úmidos. O desespero estava por igual em nós, e o alívio foi dividido e experimentado pelos três, mesmo sem saber ainda se ficaríamos juntos ou não.





Seguindo as coordenadas do Chôla atravessamos as duas vias a frente do terminal do Tietê, andamos um pouco pelo estreito acostamento, e mais a frente descemos em meio a umas árvores e chegamos a um ponto de ônibus em frente ao “Shopping D”. Não demorou até que o ônibus pra Vila Sabrina parasse e nós nele entrássemos. Mesmo com os tickets que conseguimos arrecadar entre as pessoas que esperavam por ônibus, ainda no terminal rodoviário, eu conversei com o motorista para que nos deixasse viajar até Vila Sabrina sem pagar. Argumentei que não éramos dali de São Paulo e que não tínhamos dinheiro pras passagens, que havíamos acabado de fazer uma viagem de carona do nordeste até ali, estávamos tremendamente cansados e o resto de nossos trocados foram-se no final da viagem que tínhamos acabado de concluir. Em parte não menti. Ele não pareceu muito comovido com o drama que relatei, mas nos deixou fazer o trajeto sem passar para parte de traz do coletivo. E ficamos por ali, nos primeiros lugares, observando tudo, querendo guardar em nossas memórias todos os detalhes. Essa foi uma regra em toda a viagem, tentar guardar o máximo de recordações em todos os lugares e ali não deveria ser diferente.

Quando o ônibus parou finalmente em um lugar que logo de cara tinha toda pinta de “ponto final”, o motorista anunciou pra nós que ali era Vila Sabrina, e lá fomos nós com a dúvida de sermos ou não acolhidos no apartamento. Na caminhada decidimos terminar com toda aquela história de primos, universidade em São Paulo, famílias miseráveis e tudo mais que tivemos que inventar, seguindo a sugestão do pessoal de Paulo Afonso, para conseguirmos carona com mais facilidade e evitar que mais tarados surgissem em nosso caminho, como os motoristas do CEACA (Central de Abastecimento de Caruaru). Para o pessoal do apartamento podíamos ser nós mesmos, afinal, ainda faltavam cinco dias para o festival e se ficássemos onde quer que fosse, havia o convívio por aqueles dias, e alguém poderia cair em contradições, além de não haver motivos para mentirmos para aquelas pessoas, pois com elas tínhamos um amigo em comum, o Alexandre. E porque será que ele não avisou de nossa possível aparição por ali? Entramos, então por um portão e tivemos que usar o interfone para anunciar nossa chegada. Quem nos atendeu foi o próprio Chôla, que pediu para subirmos, indicando o caminho. Após subirmos as escadas, lá estávamos nós, frente a porta do apartamento do Chôla e seus companheiros de moradia. Como seriam as pessoas? O que achariam de nós? Onde passaríamos os dias em São Paulo? Se ficássemos ali, todos os três juntos seria ótimo. Tocamos a campainha, alguém nos observou pelo olho-mágico e poucos segundos após a porta se abre um pouco, aparece um cara e pergunta o que queríamos, respondi que queria falar com o Chôla. Queria saber quem éramos, eu disse que tínhamos ligado há pouco e falado com ele, éramos os amigos do Alexandre “Rapadura”, de Caruaru. Ah, Sim! Tudo bem. Nos convidou a entrar. Puxa! Deveríamos estar com uma aparência horrível, sem contar o cheiro. Principalmente eu e Sérgio que não trocamos as roupas até então e só agora vem a revelação de que o Sérgio prometeu só tomar banho e trocar de roupa quando chegássemos a São Paulo. Ele devia estar mesmo terrível. Entramos e nos deparamos com um pequeno apartamento, muito arrumadinho e com uma divisórias de madeira, onde era o quarto do Chôla e do Marcelo. Fomos muito bem recebidos, havia uma certa distância, mas nada mais natural para um primeiro contato. Nos apresentamos rapidamente e logo fomos chamados para o quartinho dos dois. Lá sentamos no chão e começamos a contar nossa aventura, o motivo para a mesma, comentamos sobre a furada do Alexandre em não ligar para avisar sobre nós. Daí começamos a nos entender, ouvíamos quase o mesmo estilo de música, todos gostávamos de quase as mesmas coisas e logo comentamos sobre vários objetos, desenhos e posters do time de futebol do São Paulo. Se anunciaram “são paulinos roxos”. A conversa realmente cresceu e de maneira bem espontânea por parte dos dois e de nós três, e aproveitando o bom momento de descontração comentei que o papo estava ótimo, mas estava ficando tarde e gostaríamos de saber onde íamos ficar, se eles conseguiram achar a casa de alguém para nos dividir, ou não. Estávamos muito cansados, loucos por um banho e pra comer alguma coisa. E o Chôla diz que ficaríamos lá mesmo. Ainda comentamos se seríamos divididos e como, ele disse que poderíamos ficar os três lá, mas só até a Segunda-feira após o show no estádio do Pacaembú. O que poderíamos querer mais?



Com essa maravilhosa notícia, pedimos a permissão para tomarmos banho, Sérgio, lógico, se anunciou como primeiro. Ele não tomava banho desde a véspera de nossa saída de Campina Grande, na Quarta-feira da semana passada, dia dezoito, e nós já estávamos na Segunda-feira, dia vinte e dois. Antes de começarmos o revezamento ao banho eu apresento nosso presente de agradecimento, as seis caixas de pinha que ganhamos no CEASA do Rio de Janeiro na manhã daquele mesmo dia. Para o Chôla aquilo foi motivo de mais galhofas e muitas gargalhadas. E logo começou-se a comilança de pinha, nos ofereceram, mas ao contarmos que aquela fruta foi nosso café da manhã e praticamente nossa única refeição o dia inteiro, eles entenderam o motivo de nossas recusa, e o Chôla riu mais ainda. Fomos, então, tomando banho, jantando e tratando de colocar as roupas mais sujas de molho e as menos logo foram lavadas. A camisa que usei em toda a viagem estava irreconhecível, precisou ser lavada quatro vezes para tirar todo o grude e sujeira nela impregnados, e acabou perdendo bastante de seu amarelo inicial. A Simone foi chamada a acompanhar as duas moças que dividiam o apartamento com o Marcelo e o Josildo, ou seja, Chôla. E ela ficou de dormir e se alojar no quarto delas também. Nunca foi tão bom fazer coisas tão simples e rotineiras como tomar banho, trocar de roupas, jantar e conversar sem precisar mentir. Rapidamente nos sentimos em casa, com as devidas moderações, claro, mas aquelas pessoas nos faziam sentir a vontade e tranqüilos. E nunca foi tão bom deitar em um colchonete no chão e dormir, descansar depois de tantas horas dormindo numa ou outra carroceria de caminhão. O único problema foram os gatos que eles criavam, como filhos e que vez por outra vinham deitar comigo no colchonete e acabavam me acordando. Mesmo assim dormi muito bem e finalmente conseguindo relaxar sobre o colchonete bem mais macio do que as taboas da carroceria do nosso companheiro Mineiro.



Na Terça-feira nossa intenção era ir ao centro da cidade para comprar os ingressos para o festival a ser realizado no Sábado próximo. No decorrer da viagem eu consegui juntar mais dinheiro do que gastar, sempre seguindo o pensamento de dizer a todo mundo que nos perguntava se já tínhamos comido naquele dia, que não, e se já tivesse comido eu guardava o dinheiro que me dessem, caso contrário eu comia, e dividia entre os três, o mais barato e nutritivo que encontrássemos. Menos Coca-Cola. Em todas as paradas nós descíamos do caminhão e a quem se interessasse contávamos um resumo de nossa aventura com muita dramatização, e vez por outra alguém abria a carteira e nos dava algum dinheiro para comermos algo. Assim consegui sair de Campina Grande com vinte e cinco Reais e chegar a São Paulo com trinta e seis Reais na carteira. Ainda tínhamos os tickets que conseguimos arrecadar no terminal do Tietê, na noite passada, quando chegamos, o que nos dava a possibilidade de ir ao centro sem gastar, pelo menos com a ida, e por lá poderíamos pedir às pessoas novos tickets para voltarmos à Vila Sabrina. Sérgio estava com dificuldades para comprar o seu ingresso, não havia feito nenhuma tatuagem no decorrer de todo trajeto e não teve escolha, senão pedir emprestado aos caras que já estavam nos dando a acolhida. Após um tempinho de negociações foi passado às mãos de meu companheiro de viagem o valor de trinta Reais, pagos assim que retornarmos a Campina Grande. Solucionado esse maior problema, tratamos de tomar banho, trocar de roupa, tomar café e, seguindo as orientações do Chôla, fomos para o centro da cidade. O Marcelo já não estava em casa, tinha ido ao trabalho e só voltaria pela noite.

O ônibus ganhava o asfalto sofrido da metrópole. Nossa expectativa crescia, queríamos conhecer lugares que sempre havíamos ouvido falar em revistas e na televisão. E após algumas ruas, esquinas, pessoas entrando e saindo do coletivo, lá estávamos no ponto de nossa descida. Ganhamos logo as calçadas, e vez por outra aproveitamos para perguntar como chegar ao Vale do Anhangabaú. Lembro de termos entrado em uma lanchonete à rua Antônio de Godói, para usarmos o sanitário e em seguida o objetivo era chegar à loja que vendia os ingressos, a Woodstock. Praticamente cresci vendo suas propagandas nas revistas especializadas em música, as fotos dos artistas internacionais em seu interior. Tinha muita vontade de conhecer aquela loja. Enquanto atravessávamos o Vale do Anhangabaú nós percebemos que realmente tínhamos conseguido concretizar nossa viagem, que todos os sacrifícios não tinham sido em vão. Era mágico ver aqueles prédios e toda aquela gente. O espanto não era pelos prédios e sua estrutura e sim por termos conseguido, poder ver tudo aquilo era um sentimento inexplicável. A felicidade do dever cumprido nos invadia a cada passo. Já estivemos, cada um, em diversas cidades, grandes ou menores, mas nunca senti uma sensação de realização tão grande. Caminhávamos cheios de orgulho, como se as demais pessoas soubessem de nosso feito recente. Mais uma vez sentimos a enorme valia de uma máquina fotográfica, para provarmos aos amigos que cumprimos com o esperado. Entramos então na loja, compramos os ingressos e saímos rapidamente. Não se parecia com a mesma que via nas revistas, foi uma decepção. De lá fomos em busca da famosa Galeria Vinte e Quatro de Maio, a Galeria do Rock. Agora sim, tivemos um ótimo passeio por lojas repletas de discos e afins. Muita gente de todo tipo, pra lá e pra ca. Muita música. Procurávamos por disquinhos de sete polegadas, os compactos, e vimos uma caixinha generosa em cima de um balcão de determinada loja. Como não se paga para entrar, emburacamos e fomos dar uma olhada neles. Foi quando, em pé, parados no meio da loja, percebemos que algumas pessoas que estavam sentadas em sofás encostados nas paredes laterais da loja nos observavam curiosas. Daí paramos, mais do que já estávamos, e ouvimos a música que rolava, vimos os pôsteres nas paredes e algumas capas de discos nas prateleiras... Entramos em uma loja de pagode e samba. E, sinceramente, nosso visual não sugeria um disco destes estilos como complemento. Sem nenhum tipo de discriminação, preconceito ou aversão, mas não era mesmo por isso que procurávamos, e depois de uma rápida encarada de surpresa, nos viramos e saímos mais rápido do que entramos, e com as mesmas pessoas nos olhando mudas, talvez tão surpresas quanto nós. Aquela loja não deveria ser muito freqüentada por pessoas de cabelos compridos e com roupas pretas, incluindo tênis um tanto quanto sujos. Continuamos nosso passeio pela galeria, e não pudemos deixar de achar aquela última situação engraçada. Visitamos muitas lojas e vasculhamos muitos discos, ouvimos muitas músicas e conversamos com muitas pessoas. Mas chegou a hora de irmos embora, saímos da galeria prometendo voltar por ali assim que tivéssemos oportunidade.




Na rua decidimos tentar conseguir uns vales-transporte para retornar a Vila Sabrina. O pensamento de economizar ao máximo era constante. As pessoas não se mostraram muito amigáveis e ao pedirmos a duas meninas, com jeitinho de “patricinhas”, logo desistimos e decidimos pagar as duas passagens com o resto do dinheiro que eu tinha na carteira. Elas foram muito grossas, mal educadas e tiveram uma atitude ridícula como se fôssemos duas aberrações mal cheirosas, ou como se tivéssemos as ultrajando de alguma forma. O “Não!” seguido de um afastamento repulsivo e uma rápida ofensa, foi por nós recebido com espanto, e um chingamento, também grosseiro, mas a altura de tamanha imbecilidade, por nós foi vociferado para as duas meninas antipáticas. E se fossemos pessoas que estivessem realmente precisando de ajuda? Se não houvesse nenhuma quantia em dinheiro em nossos bolsos? Se tivéssemos sido vítimas de algum assalto ou coisa parecida? Não anunciamos assalto, e nem nos aproximamos muito, apenas pedimos ao menos um ticket. As demais pessoas do ponto de ônibus ficaram nos olhando como se fossemos marginais perigosíssimos que tinham feito algum mal pra aquelas “beldades”.

Enfim, estávamos de volta ao apartamento e tudo o que fizemos e passamos no dia foi o assunto do fim da tarde e noite adentro. Não é necessário frisar as gargalhadas do Chôla. Agora o que nos restava era passar os dias por ali, procurar ajudar no que era preciso e esperar por Sábado. Tínhamos os ingressos, comprados na loja Woodstock, e os mostramos como troféus. Só a Simone que não teve o dela, mas pudera, não trouxe nenhum centavo para a viagem, o valor que conseguimos juntar foi graças às economias minhas e do Sérgio, e não tínhamos as caras de pau de pedirmos mais trinta Reais para o ingresso dela. Já bastava o empréstimo ao Sérgio.

No dia seguinte acordamos logo cedo, mas não havia muito que fazer por ali, a não ser esperar a chegada de um amigo do pessoal que traria um vídeo game para ajudar a passar o tempo. E o Sérgio e o Chôla acertaram de tatuar um ao outro no decorrer dos dias, até Sábado, pois Domingo estava previsto para descansarmos e na Segunda-feira partirmos de volta a Campina Grande. No início da tarde chegou, então, o amigo esperado. Seu nome, Mário e em suas mãos o aparelho de vídeo game. Tão logo ele chegou, já fomos sendo apresentados e o brinquedo passatempo ligado, iniciando a jornada de intermináveis jogadas, revezando entre todos os ocupantes do apartamento, e só interrompida no horário de algumas novelas. E ali dentro estava relativamente com a temperatura agradável, e comentamos sobre o tal frio terrível de São Paulo e sua famosa garoa. Falaram que tivemos sorte, e que trouxemos o calor do Nordeste, mas aquele dia não estava fazendo calor, estava um tempo bom. Então, decidi ir comprar uns pães para acompanhar o café que o Chôla estava preparando. Peguei minha carteira, e ao me aproximar da porta me perguntaram se eu iria daquele jeito mesmo, com aquela roupa. Respondi que sim, sem problema em ir à padaria vestindo bermuda, camiseta e sandálias Havaianas. Já havia acompanhado o Chôla numa noite até a padaria e já sabia o caminho. Dessa vez fui sozinho, estavam todos entretidos com o jogo. Ao sair do apartamento senti um frio que passava pelos comongós das paredes, desci as escadas e ao chegar no “hall” de saída do prédio pus a mão na maçaneta para poder sair, ali já senti como tivesse pegando numa maçaneta de gelo. Puxa! Quando abri a porta recebi um verdadeiro tapa gelado. Um vento cortante me cobriu da cabeça aos pés, mas não retornei ao apartamento pra vestir algum agasalho, encarei a situação. Estava um dia lindo, nublado com muitas nuvens bem carregadas e cinzentas, bem ameaçadoras. Muita gente pode achar estranho, mas sempre achei dias assim muito bonitos e aconchegantes. Ao tomar a rua algumas pessoas me observavam com curiosidade em suas feições e seus casacos, calças compridas, toucas e luvas. Eu ali, atravessando as ruas e caminhando pelas calçadas vestido como se estivesse indo a praia num dia de quarenta graus centígrados. Entrei na padaria tremendo e quase não conseguia pedir a quantidade de pães desejada, só pensava no frio, na minha situação constrangedora e em procurar disfarçar o gelo que me cobria e arrepiava os pelos dos braços e pernas. Diazinho frio, não? Retornei ao apartamento praticamente correndo, a sacola com os pães na mão e passo a passo adiante e parecia que cada vez o prédio ficava mais longe e o frio aumentava. Consegui vencer os eternos cem metros que separava a padaria do condomínio. Ao entrar, quem não estava jogando com os olhos vidrados na tela da televisão, olhou pra mim esperando algum comentário meu. Nossa, que frio! O apartamento explodiu em gargalhadas, até quem estava com os controles nas mãos não se conteve e caiu na risada. O Chôla que quase morreu de rir, chegou até a engasgar. E eu ali, ainda duro de frio, mas levando tudo na esportiva, sem esquentar.



O resto da Quarta e boa parte da Quinta, ficamos praticamente só jogando vídeo game. Mas tivemos o prazer de rever uma velha amiga de Campina Grande, que morava já há alguns anos em São Paulo, a Rose. O pessoal ligou várias vezes ao hospital em que ela trabalhava e depois de algumas tentativas, consegui falar com minha amiga de longa data e a convidei a aparecer por ali, para nos revermos. Ela não acreditou que estávamos na cidade, nem quando passava o telefone para o Chôla ou o Marcelo. Mas, ela combinou de aparecer no apartamento, não me recordo se na quarta ou na quinta-feira. Mas, o importante foi revê-la, depois de uns dois anos. Conversamos muito, sobre os amigos comuns, as noitadas de muita diversão, sobre música, e claro, contamos partes de nossa viagem. Ela não acreditava que fomos capazes de realizar tamanha ousadia. Infelizmente, a Rose não podia passar muito tempo conosco, morava longe e tinha que pegar não sei quantas conduções até chegar em casa. Nos despedimos e ficamos na esperança de nos encontrar no Pacaembú, durante os shows.

Quinta-feira a tarde, a hora de irmos para o estádio se aproximava, todos os detalhes tinham que estar ali, não podíamos esquecer de nada no apartamento. Documentos, dinheiro para alguma alimentação, os ingressos, agasalhos, tudo tinha que ser separado antes para não passarmos por dificuldades e podermos curtir o festival sem problemas. Depois de assistir a apresentação do KISS no Programa Livre, pegamos nossas mochilas, nos despedimos do pessoal que ficaria, inclusive a Simone. Fomos para o ponto final dos ônibus. O que pegamos até não demorou pra chegar por ali, a sua partida é que demorou uns trinta minutos. Saímos, então. Ainda por Vila Sabrina a vontade de urinar me surgiu, mas não havia motivo para alarde, a distância não é tão grande assim, dava pra agüentar até chegar ao ponto em que tínhamos que descer no centro da cidade, que era o mesmo em que descemos na tarde em que fomos comprar os ingressos. Só que, como eram umas cinco horas da tarde, ou um pouco mais, logo o coletivo encarou os terríveis engarrafamentos, não permitindo que o veículo seguisse, em alguns pontos, a mais de um quilômetro por hora, praticamente se arrastando nas ruas lotadas de carros de todas as cores, tipos e tamanhos. E eu me espremendo no banco do ônibus. A cada semáforo que a gente parava na rua eu me contorcia e reclamava com o Sérgio, que acredito só não ria pra não me chatear mais ainda. O sofrimento estava grande e ficava cada vez pior. E o ônibus que não andava, os carros que se metiam na nossa frente, alguém que atravessava a rua, uma moto, outro ônibus colado na nossa frente, mais um carro, e um sinal vermelho a mais pra esperar, e minha bexiga quase explodindo, e o ponto que a gente não via ainda. Ah, vou mijar aqui mesmo! Vou descer aqui, entrar num destes botecos, aliviar e a gente se encontra em frente a Galeria Vinte e Quatro de Maio. Eis que nosso coletivo pára no nosso ponto e eu nem teria percebido se não fosse o Sérgio. Desci correndo pela porta traseira e fui aliviar as tensões no mesmo lugar em que fomos na terça-feira. Desta vez nem perguntei se podia entrar ou não, já fui logo emburacando e só depois, já numa boa, foi que agradeci aliviado.

Adentramos pela segunda vez a Galeria do Rock, como era sexta-feira haviam algumas lojas ainda abertas e tinha um pessoal nos barzinhos. Logo que íamos subindo a primeira escada rolante nos encontramos com uns amigos de João Pessoa que estavam por ali para assistirem ao mesmo festival que nós. Mas eles foram a São Paulo de avião e ficaram em hotéis ali no centro mesmo, só se deslocariam para o Pacaembú na manhã do Sábado. Nós tivemos a idéia de passarmos a noite inteira em frente ao estádio para garantir lugar na frente da fila, pois nossa intenção era a de entrar logo e se grudar nas grades perto do palco, queríamos ver tudo bem de pertinho, guardar todas as imagens que pudéssemos, como de costume. Foi muito bom ver aquelas pessoas. Todos ficaram surpresos ao nos ver. Sabiam de nossa aventura, mas assumiram a descrença em nosso sucesso, e nos parabenizaram pelo êxito da viagem, torcendo para nos encontrarmos no dia seguinte. Demos uma volta rápida pelos primeiros andares da Galeria e encontramos mais alguns amigos de João Pessoa que compravam CDs, e fomos em busca do ponto de ônibus que nos deixaria na Praça Charles Muller. Não sem antes nos despedir de nossos amigos. E já no ponto de ônibus, por mais incrível que possa parecer, encontramos um amigo da cidade de Fortaleza, era o Alexandre. Trocamos abraços e cumprimentos. Depois de um rápido bate-papo descobrimos que ali não passava o tal ônibus pro Pacaembú, e saímos a procura do ponto certo. No meio do caminho passamos por uma padaria, onde compramos muitos pães, que seriam nossas futuras e únicas refeições até a madrugada de Domingo, quando estava previsto o término das apresentações das bandas no festival. De lá seguimos até o ponto que procurávamos e logo pegamos a condução que nos deixou ao lado da Praça Charles Muller. Já haviam algumas pessoas por ali, que tiveram o mesmo pensamento que nós quanto à fila e a uma posição mais privilegiada no gramado. As pessoas estavam divididas em várias rodinhas de conversa E como “espírito de porco” tem em todo lugar, uns carinhas mais afoitos já começavam a demonstrar que vieram pra bagunçar a festa mesmo. Procuramos ficar bem afastados de toda a baderna que se espalhava por vários lugares da praça. Ocupamos um pedacinho do gramado lateral da praça e lá ficamos só observando algumas pessoas arrancarem os tapumes da obra que estava sendo realizada em parte do local, para fazerem fogueiras. Realmente estava frio, mas nos perguntávamos se precisava de tanto. Pensamos na possibilidade de a polícia aparecer por ali e envolver quem estivesse por perto, ao menos das fogueiras. Então saímos para conhecer um pouco dos arredores quando encontramos com uns carinhas que subiam apressados as escadarias, quisemos saber o que estava ocorrendo, eles disseram que o KISS estava fazendo a passagem de som. Os acompanhamos e tentamos todos subir no muro para talvez ver parte do palco e os músicos fazendo os últimos ajustes no equipamento para o grande show no dia seguinte. Alguns conseguiram subir e sumiram lá pra dentro, nós preferimos não arriscar, principalmente depois que um rapaz que não quis ir com os outros disse que se fossem pegos lá dentro, ficariam presos e perderiam o festival. Então, nada de passagem de som.

Voltamos, agora os três, para o mesmo lugar e que estávamos antes, sentamos na grama, conversamos sobre Fortaleza, Campina Grande, nossa viagem, lógico, sobre música, o festival que se aproximava e todo tipo de assunto possível. E o pessoal destruindo os tapumes da obra da praça. A visão que tínhamos era de um filme tipo “Mad Max”, com aquelas fogueiras espalhadas por todo o pátio de estacionamento do estádio e aquelas silhuetas circulando iluminadas pelo fogo. Os carros passando. Um carro parece que invade o pátio em velocidade acima da apropriada e algumas pessoas começam a jogar todo tipo de coisa nele, até murros e pontapés foram desferidos contra o carro que continuava circulando entre as pessoas, por cima das fogueiras e até esbarrando em outras pessoas. Os ocupantes do veículo saem para tentar parar o linchamento ao carro, mas quem quase acaba linchado são eles mesmos, e mais rápido do que entraram, saíram do estacionamento e não voltaram mais. Enquanto nós três comentávamos sobre o ocorrido chegam a nós três caras, nos cumprimentamos e eles perguntaram se poderiam ficar ali conosco, pois éramos os que estavam mais calmos e que aparentavam pouco risco. Fiquei imaginando as figuras estranhas que deviam estar por ali. Logicamente não havia nenhum motivo para negarmos a presença dos três, então nos apresentamos e ali naquele pedaço do gramado passamos a noite conversando e rindo bastante com as conversas, principalmente, do que se apresentou como “Kiss”. Era um fanzão da banda americana e era o que mais falava também. Rapaz alto, magrão, cabelos compridos pelos ombros, aparência de uns trinta anos de idade. Foi uma noite muito divertida e a presença deles ajudou para que o tempo passasse sem que percebêssemos direito, apesar da apreensão pela hora da abertura dos portões. Vez por outra, alguém deitava por um tempo no gramado para tentar dormir um pouco, eu ainda consegui dar um bom cochilo deitado em um pedaço de compensado outrora tapume da obra à nossa frente. Para enganar a fome comemos alguns dos pães, e os outros três também levaram algumas coisas para lanche e foram divididas entre todos nós.

A noite avançava, a madrugada aos poucos ia perdendo espaço para os raios do Sol e nos primeiros momentos do dia já ia se formando os grupos de pessoas se colocando uns atras dos outros, eram os mesmos grupos que passaram a noite juntos conversando. Percebendo o movimento, descemos, enfim, e nos juntamos ao aglomerado de pessoas, que aos poucos iam tratando de se comprimir para formar o que melhor se parecesse com uma fila. Não havia baderna, apenas pessoas se conhecendo e conversando, todos queriam entrar sem problemas e assistir ao festival. Mas de repente inicia-se um empurra-empurra generalizado, uns caindo por cima dos outros, gritaria de dor e palavras de ordem. Era a polícia que chegara para impor, à sua melhor maneira, a simples organização de um afila de dois em dois para a entrada no estádio. Não houve conversa, já desceram do veículo que os trouxe descendo a borracha em todo mundo, homens, mulheres, crianças de até doze anos, senhores e senhoras. Foi uma cena de pura barbárie. Não tiveram a capacidade de organizar a fila com palavras e partiram para o mais fácil, em pessoas que nada haviam feito para merecerem golpes de cacetetes e ainda procuravam argumentar com os algozes de tamanha brutalidade e falta de profissionalismo. Depois de muita estupidez a fila de dois em dois fora feita, e os comentários sobre a ineficiência daquela corporação de trogloditas foram inevitáveis, pois bastava informar às pessoas de frente pra trás da fila que todos tínhamos que nos organizar de determinada maneira, o festival de ignorância teve inicio sem ninguém saber o porquê, depois de muita gente pisoteada e com hematomas por várias partes de seus corpos, foi que alguns poucos policiais, talvez os menos primitivos, falaram o motivo daquele pandemônio. Mesmo com tanta confusão nós seis conseguimos ficar bem próximos e as brincadeiras continuavam, assim como a fome e a sede. Os pães que ainda tínhamos na mochila que estava comigo, ninguém agüentava mais comer, sem manteiga ou outra coisa pra dar um gostinho extra. Foi quando um dos caras que passaram a noite conosco, um dos três que chegaram, tirou de sua mochila uma garrafa de batida de pêssego, eu vi quando ele o fez e denunciei o ato aos demais companheiros que logo tomaram dele a garrafa e passou de mão em mão para que cada um nos arredores tomasse um pouquinho da batida. Até pessoas que não conhecíamos e que estavam na fila, beberam da batida.

Colocamos logo o apelido no cara de “Pessêgo”, não “Pêssego”, e sim “Pessêgo” mesmo. Por sua omissão da garrafa por toda a noite, mesmo bebendo das bebidas que um ou outro havia trazido, e por só ali, meio escondido, ter a retirado de sua mochila. Em meio à brincadeira com o atual Pessêgo a fila ia evoluindo aos poucos e percebemos que as pessoas que entravam deixavam no chão da entrada do estádio garrafas de dois litros de refrigerantes, pacotes de sanduíches diversos feitos de pão de forma e decidimos tentar resgatar alguma coisa dali, a fome estava grande, a grana curta e o dia seria muito longo, com tudo pra ser bem desgastante. Não me recordo quem foi o primeiro a ir até a entrada e buscar uma garrafa de refrigerante e um pacote de sanduíche, mas depois veio um revezamento constante, e depois de dividirmos entre nós seis repassávamos para as demais pessoas. Outras pessoas da fila, mais pra traz nos imitaram e acredito que também passaram bem. Eu fiquei cheio de tanto comer sanduíches de patê, queijo, manteiga, etc. Como não comia carne, os que continham essa modalidade de recheio eu passava para quem os quisesse. E a fila caminhando, as pessoas aos poucos, depois da revista, iam entrando no estádio, e nós nos aproximando de fazer o mesmo. Eu e Sérgio não nos contínhamos de felicidade em termos conseguido realizar tamanha façanha até ali.



Passamos, finalmente, pela revista, ganhamos alguns brindes e ao chegarmos ao portão saímos em disparada com o pensamento de garantir um lugar bem na grade pra poder assistir melhor aos shows que se seguiriam. Não éramos os únicos na correria desenfreada, o que nos tirava o pensamento de estarmos fazendo papel de idiotas. Se o estávamos fazendo, éramos muitos, e nós dois passaríamos despercebidos. Porém, ao chegarmos onde estaria as grades já havia um aglomerado de pessoas que foram as primeiras a entrar e tivemos que nos contentar com a posição há uns dois metros da grade, mas tentando a todo custo chegar à borda do palco. E as pessoas se amontoando, se empurrando, se comprimindo, os espaços vagos diminuindo cada vez mais, as bandas nem tinham começado a tocar, e respirar profundamente ficava muito difícil, devido a compressão das pessoas. Eu tentava por um ombro na frente de alguém na intenção de ganhar um lugar, mas não tinha pra onde esse alguém se mexer e ou ficava com os ombros tortos ou voltava pra posição de antes. Sérgio eu não sabia mais onde estava, isso era muito ruim, mesmo com o plano de que se nos separássemos e não nos víssemos mais no decorrer do dia, um ficaria esperando o outro na entrada do estádio. Com esse pensamento rodopiando em minha mente, o calor aumentando, e o suor a escorrer. Tentei tirar o camisão que usava por cima de uma camisa de mangas compridas e uma camiseta, não conseguia mexer com os braços, estava muito apertado ali, mesmo pedindo espaço às pessoas, elas não podiam fazer muito, pra elas o aperto era o mesmo. Subir o camisão de volta foi uma agonia, aquilo parecia ficar cada vez pior. O povo entrando e invadindo o gramado, se comprimindo na borda do palco, o calor ficava maior, e pra respirar um pouco melhor eu tinha que erguer os braços, o que era um movimento dificílimo de concluir, tinha que empurrar as pessoas com os cotovelos até erguer os braços e encontrar um vento gelado que nos cobria. Numa dessas manobras, ao retornar os meus braços ficaram presos entre o meu peito e as costas das pessoas a minha frente, respirar ficou mais difícil e comecei a sentir que ia desmaiar. Tomei a decisão de sair dali antes que desabasse e perdesse o dia numa maca do Posto Médico instalado ao lado do palco. Me virei de costas para o palco e saí andando sem ver direito as pessoas, só via uns vultos em meio ao branco que me cobria a visão. Dei alguns passos e ao chegar a um espaço vazio no tapete de alcatifa que cobria o gramado, me joguei e fiquei ali por um tempo, respirando fundo até a minha pressão arterial retornar ao normal. Ainda ouvi alguém comentando sobre minha aparência de desgaste e a resposta foi de que pudera, eu estava lá na frente. Eu vinha capengando de onde as pessoas gritavam desesperadamente aos bombeiros por água.




Normalizada a minha situação, evitei voltar para o verdadeiro inferno de onde saí e fiquei circulando entre as pessoas, procurando por meu companheiro. Nos encontramos e fomos descansar mais para o fundo do estádio, longe do palco. As horas passavam, encontramos alguns conhecidos, as bandas começaram as passagens rápidas de som e em pouco tempo as bandas brasileiras dariam início ao festival.



Não cabe aqui, creio eu, relatar as apresentações de cada banda que tivemos o privilégio e satisfação de assistir. Não desejo me reter em detalhes que não sejam do interesse para o contexto dessa história, os shows foram ótimos, as bandas brasileiras deram início às duas horas da tarde e foram seguidas das estrangeiras. Os amigos que nos fizeram companhia a noite passada sumiram desde a entrada do estádio, mas a sorte nos brindou com encontros esporádicos com amigos de Campina Grande e João Pessoa, como o Fábio Rolim, que surgiu no meio da multidão um pouco antes da apresentação da primeira banda estrangeira, a “Suicidal Tendencies”. Trocamos abraços, ele ainda não havia nos visto até então, e se mostrou surpreso com nossa façanha, o pessoal que encontramos na Galeria Vinte e Quatro de Maio, na noite passada, comentou com ele que haviam nos visto e ficou aquela curiosidade. Fomos os três mais para perto do palco, para assistirmos à banda americana, e enquanto esperávamos a entrada, uma mochila vazia é jogada na cabeça do Fábio, gerando uma algazarra de nós e de quem estava ao nosso redor. Nosso amigo pega a mochila e urina dentro, a arremessando de volta para traz. A algazarra foi ainda maior. O show começa e fomos praticamente empurrados para longe do palco. E ficamos lá pra traz por um bom tempo, de onde podíamos ver as apresentações e não nos machucarmos. Só fomos mais pra frente na banda seguinte, “Black Sabbath”. E quero deixar registrado um momento importante, que foi ver a diferença do público da hora do “Suicidal Tendencies” e para a vez do “Black Sabbath”. Se na banda anterior havia muita agitação, pulos, danças, etc. Na seguinte houve uma calmaria geral, eu ficava nas pontas dos pés e o que via ao meu redor e pela arquibancada era todo mundo vidrado na apresentação dessa lendária banda. A única manifestação eram os aplausos e gritaria nos intervalos de uma música para outra. Foi realmente marcante, ver e sentir aquele respeito e admiração, muito emocionante e marcante em minha memória. A essa altura o Fábio e o Alexandre já estavam dispersos, mas com o segundo havia a combinação da espera na portaria quando o festival chegasse ao final. Outro fato que não tem como esquecer e deve ser mencionado, foi o meu encontro com meu amigo Adriano Caminha, de Campina Grande, durante a loucura que foi a apresentação da sétima banda, e penúltima, a americana “Slayer”. Eu e Sérgio fomos bem para frente, queríamos ver o mais perto possível, foi essa banda o motivo principal de toda essa história, além de nossa correria na manhã para termos um lugar à grade. Mas logo aos primeiros acordes o empurra-empurra se torna insuportável. Era gente caindo em cima de gente, a toda hora eu era jogado ou para o chão, ou para cima de outras pessoas, e outras caiam por cima de mim e dos que estavam em baixo. Era falada da presença repulsiva, indesejada, repudiada, odiada e infeliz de alguns “skinheads”, e que eram os “cabeça-de-vento” que estavam gerando o tumulto machucando muita gente. Eu mesmo tive as duas pernas massacradas pelas pessoas que tinham que se apoiar para não cair, e com todo tipo de calçado pisavam nas minhas pernas. As pessoas formavam uma onda que ia para um lado do palco e voltava, nesse meio tempo por causa da brincadeira sem graça de alguns marmanjos que se comportavam como crianças mal educadas. E mesmo com toda esta comoção, em um momento de passageira calmaria, enquanto eu gritava pelo nome da banda e coisas do gênero, um braço me puxa para o lado direito, e uma voz gritava o meu nome antes que eu visse quem era, já estava envolvido em um abraço amigo, e foi quando pude ver que o mundo é pequeno mesmo. Não acreditávamos, eu e Adriano, tínhamos nos encontrado justamente naquele verdadeiro inferno, e procuramos ficar abraçados para curtir ao show que nos levou a todos a São Paulo, mas a estupidez dos mais “animados” acabou nos separando e não nos vimos mais. Devido às pisadas que levei nas pernas, pelo tremendo esforço para me reerguer entre as pessoas, durante a apresentação do californiano “Slayer”, eu perdi quase todo show do “Kiss”. Não conseguia ficar de pé, e fui lá pra traz, onde encontrei alguns amigos de João Pessoa, como o Paulo Bala, que contou uma piada que fez minha boca, o lábio inferior, sangrar, pois devido ao frio intenso, meu lábio rachou, e com a gargalhada que fui forçado a dar, o corte piorou.



Já era madrugada de Sábado e o festival estava acabando. Nosso plano foi cumprido com cem por cento de aproveitamento, até aqui. O cansaço não me deixava ver que aquele momento era tão efêmero e que passava diante de mim para nunca mais ser possível vivê-lo. Eu estava sentado no gramado, com a cabeça baixa entre os braços que seguravam as pernas, a boca latejava, as pernas doíam, o sono era desanimador e ainda tínhamos que voltar para Vila Sabrina e na Segunda-feira, encarar a viagem de volta, nem essa parte da história futura e muito breve me passava pela cabeça, eu só queria mesmo era dormir. Ainda fui até próximo do palco, pra ver um pouco melhor parte do espetáculo do “Kiss”, mas o cansaço me venceu. Não tinha mais forças para driblar as muitas pessoas que estavam a minha frente. Então voltei e me sentei perto de meus amigos até o final de tudo. O que não demorou a acontecer.

De repente o palco escureceu, emudeceu, e algumas pessoas já se dirigiam para fora. Nós esperamos um pouco, e também entramos no meio da multidão. Havia um cordão de seguranças conduzindo todo mundo para fora, sei disso porque fomos dos últimos a se retirar. Lá fora nos encontramos com a Rose e outras pessoas, inclusive com o Alexandre, de Fortaleza e o “Kiss Cover”, um dos caras que nos fizeram companhia no noite de quinta-feira. Esse apelido nós colocamos por ele ser, ou era, não sei... Bem, era fanzão da banda Kiss e tinha até uma tatuagem da máscara do Paul Stanley no braço. Ficamos juntos, Sérgio, “Kiss Cover, Alexandre e eu, e antes de irmos realmente embora, deitamos sobre uns papelões no chão, ao lado dos portões do estádio, eram por volta das três horas da madrugada e a fadiga estava em todos. Ficamos por ali, acredito, que uma hora mais ou menos e decidimos ir embora, cada um pra sua casa, ou acomodações. Fomos andando até pegarmos a Avenida Pacaembú, onde entrei em uma farmácia para comprar um batom de manteiga de cacau e passar no lábio ferido. Estava enrolado com uma bandeira do festival que achei do lado de fora, logo ao sairmos, estava frio e pensei em me agasalhar com aquele pano. Não devia estar muito charmoso. Mas quem deveria ligar pra isso? Os amigos de João Pessoa e Campina Grande, que encontramos dentro do estádio pegaram taxi e foram para as pousadas e pequenos hotéis do centro de São Paulo, e nós quatro, eu, Sérgio, Alexandre e o “Kiss Cover” ainda encaramos a madrugada, o frio e algumas novidades.

Caminhávamos pela calçada quando avistamos uma viatura da “ROTA” parada, e seus ocupantes revistando um Gol cinza, parado um pouco mais a frente da viatura, os dois rapazes que, provavelmente estavam no carro tinham seus documentos revistados pelos policiais e estavam de pé ao lado de seu veículo. Não sei dizer o motivo pelo qual esta prática era realizada com os dois, mas pareciam bem encrencados pelo tom das vozes dos policiais. Comentei com meus companheiros que se nos vissem iriam nos intimar, o Kiss Cover sugeriu que não e que seguíssemos naturalmente bem pelo canto da calçada. Mas, não deu outra, assim que passamos em frente à viatura ouvimos o grito para que “a moçada parasse ali mesmo!”. Daí começou a pior parte desta viagem. Dispensaram os dois caras do Gol cinza e nos pediram documentos, perguntaram de onde vínhamos, de onde éramos, onde morávamos, o que estávamos fazendo a aquelas horas na rua, se tínhamos drogas, o quê eu carregava na mochila, se carregávamos alguma arma, e mandaram que tirássemos os calçados. Eles eram uns cinco, e a gritaria e ameaças eram tantas que fiquei desnorteado, se eu respondia, com a maior educação e com as melhores e resumidas palavras, me chamavam de “folgado”. O policial que me revistava e me humilhava perante as pessoas que transitavam, ao ver que eu cursava Comunicação Social e possuía uma carteirinha da UNE (União Nacional dos Estudantes), se indignou com os pães que eu carregava na mochila. Perguntou se eu não tinha vergonha na cara de comer aquela porcaria. Tentei dizer que não tínhamos dinheiro e aqueles pães eram nosso único alimento até chegarmos em casa. O indivíduo jogou a minha mochila no chão com toda ignorância e me perguntou se eu duvidava que ele meteria o pontapé naquele “lixo”. O que deveria responder? Sim ou não? Expressei-me como que sem escolha, e vi os pães voarem com saco de papel, a revista que ganhei do Kiss (um dos amigos que fizemos na noite de quinta e que se parecia com o Kiss Cover, esse foi o motivo para o apelidarmos o outro, que agora nos acompanhava de Kiss Cover), na noite de quinta-feira. Não havia motivo algum para tamanha estupidez, não tínhamos feito nada.
Não satisfeito com sua atitude ridícula de imbecil abuso de poder, sacou de uma arma, um trinta e oito, cromado e de cano curto, e apontou encostado em minha cabeça perguntando se eu duvidava que ele me jogaria dentro da viatura e me levaria embora. Até hoje me pergunto o quê aquele cidadão queria com tantas dúvidas e com aquelas atitudes infantis e nada profissionais. Só sei que fiquei tão conturbado com a histeria dele que nem via a que situações meus companheiros também se sujeitavam, em nome de uma falsa ordem. Lembro da imagem do Sérgio calçado apenas com um dos coturnos e mostrando seus documentos ao policial que o revistava em plena via pública. Eles foram de uma grosseria tal, que me envergonho de relatar tais acontecimentos, nos hostilizaram de todas as maneiras que tiveram chance, afinal contavam com armas que poderiam disparar “acidentalmente” em nós. Diziam que éramos da “Terrinha”, que vínhamos do “Kiss”, e faziam umas caretas e ruídos estranhos com as bocas. Coisa mais ridícula! Será que não se tocavam da situação cômica a que estavam se sujeitando por alguns momentos de humilhação a outrem? Uns marmanjos malhadões, enormes, vestidos de uniformes pretos, fazendo papel de crianças de dois anos de idade! E pra que tanto ódio? Sem motivo algum para tanto. A nossa situação estava se tornando insuportável, com aquele sujeito com aquela arma em minha cabeça, me chamando de folgado aos gritos, sem contar os outros que eu não podia ver como estavam. Foi quando um outro policial surge de detrás da viatura, pergunta o que nós tínhamos, os exaltados respondem que nada, então manda a gente calçar os tênis, pegar as nossas coisas e irmos embora pra casa. Como eu não havia tirado os tênis, isso me deu chance de pegar a mochila e as coisas que o “sábio” policial, gentilmente, chutou para a porta de uma loja e ainda pude ajudar aos que estavam meio enrolados.

Já recompostos, tratamos de andar, aparentemente, naturalmente. Eu tremia de raiva e pavor ao mesmo tempo. A situação de ter uma arma encostada em minha fronte não foi nada agradável. Nisso o Sérgio diz que tivemos sorte. Sorte?! Que sorte? A gente quase morreu naquela bobeira dos policiais e ele diz que tivemos sorte. Talvez por não termos morrido. Não, porque o Sérgio levava um canivete no coturno, junto ao tornozelo, e ele conseguiu enrolar o policial que o revistava até o momento de sermos dispensados pelo que parecia ser o superior ali, pela aparente idade mais avançada que os demais. Sérgio tirou um dos coturnos e foi enrolado até irmos embora. Se é obrigado a tirar os dois, realmente estaríamos em sérios apuros. Tomamos, então a decisão de deixarmos o canivete com nosso amigo Eduardo “Monga”, que se hospedara em um hotelzinho no centro, perto da Galeria do Rock. Ao chegarmos à esquina do hotel, o Kiss Cover anuncia que vai pra casa, não agüenta mais de cansado. Nos despedimos, ele foi em frente e nós três para o hotelzinho. Perguntamos ao recepcionista pelo Eduardo, informamos que ele estava no quarto que não me recordo o número, depois de tantos anos, passamos sua descrição, sabíamos que ele estava naquele hotel e qual era no número do quarto, porque estivemos lá rapidamente na noite de quinta-feira, quando nos encontramos na Galeria, antes de irmos para o estádio e de encontrarmos o Alexandre, de Fortaleza. Foi meio difícil convencer o recepcionista de que realmente conhecíamos o Eduardo e que éramos amigos. Pedimos para ele ligar para o seu quarto, mas resistiu devido a hora avançada da madrugada, depois de muita insistência e de falarmos que o assunto era urgente e sério, ele cede, liga para o quarto de nosso amigo, passa nossas descrições e nos informa que logo descerá à recepção do hotel. Realmente ele desce, mas com uma cara de pouquíssimos amigos, nada satisfeito em termos o acordado quase às cinco horas da manhã. O Sérgio foi breve, o chamou num canto e o explicou o ocorrido e pediu-lhe que levasse em sua bagagem o tal canivete, e que o pegaria de volta assim que fossemos a João Pessoa, ao retornarmos de nossa aventura. Ainda insatisfeito e aborrecido Monga pega o canivete e se vira sem nem se despedir de nós. Acho que quando acordou teve a impressão de ter sido tudo um sonho.

Livres do instrumento que há pouco quase nos colocaria em uma situação séria de risco, fomos para o ponto de ônibus no Largo São João, o Alexandre ia para outra região e tivemos que nos separar. Prometeu aparecer em Campina Grande para relembrarmos dessa noite, mas não conversamos muito, os horários dos ônibus eram distintos e fomos cada um para o seu destino. Eu e Sérgio tivemos sorte, o coletivo não demorou muito a passar e logo estávamos rumo a Vila Sabrina.

Sentados, enfim, no ônibus, pudemos descansar as pernas e os corpos por inteiro, estávamos um bagaço e não víamos a hora de deitar e dormir o máximo que agüentássemos no Domingo. O Sérgio mal sentou e já dormiu com a cabeça encostada na janela, eu ainda pensava nos vários momentos vividos desde a quinta-feira. Sentia uma satisfação em a gente ter conseguido realizar todas as partes de nossos planos. Agora sentado ali no ônibus, aparentemente seguro de maiores perigos, interpretava os mal-bocados em que passamos como algo a ser contado futuramente, um tempero a mais pra dar uma graça à história. A vontade de por os pés em terreno campinense era muito grande dentro de mim, de rever os amigos e amigas de lá. O que será que pensavam de nós? Sabiam que conseguimos chegar até ali, pelas informações que o Sérgio passava para sua mãe por telefone? Ou viviam em dúvidas quanto ao nosso destino? Em meio a tantos pensamentos, não resisti à fadiga e também caí em profundo sono, no assento do coletivo. Só despertava quando fazíamos alguma curva e eu era jogado para o corredor, numa dessas quase caí.

Ponto final, e a poucos passos Vila Sabrina. Caminhamos como zumbis, não vimos as pessoas nas calçadas, só o Sol que sempre é mais intenso quando o enfrentamos depois de uma noite sem dormir. Entramos no condomínio, subimos as escadas e entramos no apartamento com um sentimento de anestesia por todo o corpo. Ver os nossos colchonetes arrumados no chão nos esperando com lençóis e cobertores foi de uma gratidão sem parâmetros. Só tiramos os tênis e desabamos já adentrando no mundo dos sonhos, nada de banho, comida, nada, o que precisávamos e queríamos era dormir. E foi o que fizemos por quase todo o Domingo. Acordamos lá pelas quatro horas da tarde, saímos do quarto depois de arrumarmos os colchonetes, e nos deparamos com o pessoal ainda jogando vídeo game na sala. Puxa, ainda estão nisso?!? Passaram todo o tempo, em que estivemos para os lados do centro, jogando, revezando às vezes de cada um com o intuito de chegarem ao fim do jogo. Bem, agora sim fomos cuidar de tomar banho, almoçar e contar os acontecimentos. O Marcelo e o Chôla também foram ao festival, mas não nos encontramos em nenhum momento. A conversa durou muito tempo e foi bom termos novamente os sorrisos daquelas pessoas. As informações de como conseguirmos carona o mais rápido e mais perto de Campina Grande, foram também colocadas em pauta. Por sorte, há uma central de distribuição bem próxima a Vila Sabrina, e ali sempre chega caminhão de Campina Grande e sai de volta, isso diariamente. Seria moleza, talvez demorasse um pouco mais, mas a perspectiva era a de pegarmos a estrada na segunda-feira mesmo. A divertida conversa seguiu por parte da noite, mas não demoramos a ir dormir, o dia seguinte seria cheio e quanto antes acordássemos e chegássemos ao novo ponto de partida, melhor seria. Não posso negar a expectativa e apreensão em que estava. Até então tudo havia ocorrido muito melhor do que o esperado, mas as condições eram outras, não tínhamos mais a possibilidade de, se algo acontecesse de errado, voltar pra casa e dar tudo como encerrado. Já passamos tempo demais dando despesa no apartamento, o pessoal era gente boníssima, mas não seria legal abusar da boa vontade deles. Seria importantíssimo pegar uma carona na Segunda-feira mesmo, para não ter que voltar pro apartamento. E se não conseguíssemos nada na Segunda, teríamos que arrumar um meio de nos virar sozinhos. Eu já estava deitado, pensando em todas as hipóteses para darmos continuidade à nossa aventura independentes do pessoal que nos acolheu até ali, e envolvido em tais devaneios acabei por dormir... Só acordando, vez por outra, pelos gatos que vinham se acomodar comigo, no colchonete.

Segunda-feira, bem cedo acordamos, arrumamos os lençóis, cobertores, fomos tomando banho, trocando de roupas, cuidando dos últimos detalhes em nossas mochilas, tomar café e agradecer por todos aqueles dias. O que aquelas pessoas fizeram foi de uma generosidade enorme, não tínhamos palavras para expressar nossa gratidão. O Chôla nos deu uma foto de sua banda, com lembranças e beijos de todos do apartamento e do Mário, que havia ido embora na noite de Domingo, enquanto já estávamos dormindo. Já sentia a falta de todos, fora uma semana de muita conversa, piadas, histórias, e criamos ótimas amizades. O Marcelo saiu bem cedo para ir trabalhar e não nos despedimos dele, mas deixou-nos as devidas lembranças. Era, enfim, hora de irmos embora, pegamos as mochilas, mais uma vez agradecemos por tudo, pedimos desculpas por algo que tivéssemos feito e que os tivesse chateado e saímos do apartamento, sem o pensamento de voltarmos por aqueles dias. Enquanto descia a escada lembrei da tarde em que fui comprar pães enfrentando o frio intenso. Lembrava de nossa chegada, tímida, sem saber se ali ficaríamos ou não, de como seriam as pessoas que ali moravam, e de como foi bom passar os dias dentro do apartamento, sem muitas saídas. Lembrei até do dia em que fui pagar umas contas no banco e aproveitei para tirar umas cópias de umas reportagens que o Chôla tinha em umas revistas e de umas capas de discos dele. Foi um rápido e gostoso momento de nostalgia, interrompido assim que ganhamos a rua e o constante pensamento para a obtenção de um meio que nos levasse de volta a Campina Grande. Não tínhamos dinheiro algum, era necessário sermos altamente persuasivos, mas pelas conversas de nossos amigos, seria muito fácil conseguir carona na central de descarga de mercadorias, de onde já estávamos bem próximos. E mais uma vez inventamos uma história dramática para termos sucesso mais imediato. Diríamos que realmente fomos a São Paulo para assistir ao festival da última semana, e que ao voltarmos pela Avenida Pacaembu, fomos vítimas de um assalto e a única quantia que ficamos foi a que deixamos na pousada em que estávamos alojados e foi a conta certa para pagarmos o tempo em que passamos ali. Como referência serviria a pousada em que nosso amigo “Monga” se hospedou. Mais uma vez a insatisfação de ter que mentir ficou estampada em nossas faces, mas sabíamos que era preciso.

Chegando a um pedaço onde estavam alguns caminhões e uns motoristas, fomos pedindo informações e as pessoas nos indicavam um determinado lugar e alguém para conversarmos sobre o que desejávamos. Adentrando o pátio a gente ia perguntando a um e a outro sobre as pessoas que estávamos procurando e também se ali alguém poderia nos conceder uma carona para o mais perto possível de Campina Grande. E logo percebemos o jogo de empurra-empurra, do tipo “eu não resolvo nada, falem com fulano lá não sei onde”. Vimos até uns caminhões de uma empresa de nossa cidade, e fomos conversar com seus ocupantes, mas sem sucesso. Foi em meio a essas idas e vindas que um senhor nos disse que ali não conseguiríamos nada, que num posto de gasolina, na saída pra Guarulhos, com certeza pegaríamos uma carona bem mais rápido que ali naquela central. Ele e seu companheiro de trabalho iriam passar por perto e nos deixariam lá. Resolvemos arriscar. O motorista nos disse que muitos caminhões do nordeste paravam ali pra abastecer ou pegar nova carga para aqueles lados. Após eles acertarem o que deveriam por seu trabalho, nos convidaram a subir na carroceria, dessa vez a Simone nos acompanhou na traseira do caminhão. Percorremos algumas ruas e logo paramos, o motorista aponta para a nossa esquerda e informa que o posto fica há alguns metros adiante. Descemos, agradecemos e pegamos o caminho rumo ao posto com toda a esperança de ainda naquele dia ganharmos a estrada rumo às nossas casas.




Ao passarmos em frente ao posto, porém do outro lado das duas pistas da Via Dutra avistamos a grande quantidade de caminhões estacionados no pátio. Não é possível que em meio a tantos, ninguém vai se dispor a nos ajudar. Atravessamos a passarela confiantes de que rapidinho sairíamos dali. Acho que o tempo que passamos no apartamento nos deixou preguiçosos para a continuação de nossa viagem e eu sentia que estávamos um pouco acomodados para a situação, acho até que se tivéssemos conseguido dinheiro suficiente, voltaríamos de ônibus. Só que a realidade era bem outra, não tínhamos dinheiro nenhum e mais uma vez estávamos diante de um território inédito, caímos novamente no mundo e seus imprevistos. Após atravessarmos a passarela sobre a Rodovia Presidente Dutra, invadimos o pátio do “Posto e Acessórios Presidente”, e já aos primeiros motoristas que encontramos fomos abordando e perguntando para onde iriam, se poderiam nos levar junto. Quando viam a Simone o comentário era sempre o mesmo, levaria só ela, no máximo ela e um de nós dois, mas os três nunca. Só que nosso intuito sempre foi o de permanecermos unidos. A Simone já havia perdido o festival, ficando no apartamento desde a segunda-feira e só saindo de lá nessa Segunda da viagem de volta, e não seria certo de forma alguma, mandarmos ela sozinha com um sujeito que nem conhecíamos. Seria mais um daqueles “Manoeis” que encontramos em Caruaru? Não, era melhor não arriscar, chegamos até aqui juntos, continuaremos e chegaremos até o fim juntos. Mas estava muito difícil, a manhã se foi, o Sol estava forte, e a cada caminhão que parava nós íamos os três conversar com o motorista, e a resposta era sempre a mesma, ou só ela, ou, no máximo ela e eu ou o Sérgio. Daí passamos a abordar diferente, ia ou eu ou o Sérgio, perguntávamos para onde o camarada ia, e se poderia conceder uma carona e se até aí tudo tivesse ao nosso favor, mostraríamos o resto do grupo. Não adiantava muito. Por volta do meio dia, procuramos um lugar para sentarmos e descansarmos, além de sair um pouco de baixo daquele Sol escaldante. Sentamos no final da calçada, perto de um orelhão, bem na subida de uma rua que vai para a fábrica da “Chocolates Garoto”. É, estava difícil. A Simone ir sozinha era impossível, ela nem queria também. Logicamente que nós não mandávamos nela, mas apenas não concordamos com a idéia e não a aconselharíamos. Porém, se ela assim o quisesse, mesmo contra a nossa vontade, ela seguiria viagem. Enquanto estávamos conversando sobre a nossa falta de sorte até então, um cara vestindo um jaleco da loja de acessórios veio conversar conosco. Quis saber de onde éramos, para onde iríamos, nossos nomes, etc. Contamos a conversa que vínhamos repetindo aos motoristas, sobre o suposto assalto, falta de dinheiro para voltar e tudo mais. Prometeu nos ajudar. Nos indicou os banheiros, a lanchonete e o restaurante. Agradecemos a gentileza, mas fomos logo dizendo que não tínhamos dinheiro pra pagar refeição em um restaurante. Se apresentou como Josepe, falou que ia ver se conseguiria algo para comermos com o cozinheiro do restaurante. Informou ainda que se quiséssemos tomar banho, nos banheiros que nos indicou haviam chuveiros e que não se paga para usá-los. Ele disse ter que ir embora e nos desejou boa sorte. Que cara legal esse! Nos deu várias informações e se propôs a nos ajudar em tão pouco tempo. Será que pelo fato de ter nascido na Paraíba. Bem, isso foi o que ele disse. Seria verdade? Não podemos nos dar ao luxo de confiarmos cegamente em todo fulano que aparecesse, mas ele parecia uma boa pessoa.



O Josepe voltou em uma hora... A tarde ia passando, nós abordando os motoristas, contando nosso drama e ouvindo sempre as mesmas desculpas e as mesmas propostas. Nosso novo amigo vez por outra vinha trocar idéias conosco, trazia algo pra nós comermos, e numa dessas prometeu que se até a hora de fechar a loja de acessórios nós ainda estivéssemos por ali, ele nos levaria para jantar na casa dele. Disse que era casado, já havia conversado com sua esposa e que poderíamos até dormir uma noite em sua casa. Ficamos tremendamente agradecidos, mas não posso negar as nossas suspeitas. O que esse cara queria conosco realmente? Porque estava tão interessado em nos ajudar? Seríamos os primeiros a chegar por ali para pedir carona? Certeza que não. Ele se mostrava muito interessado em nos ajudar, mas não trazia nenhum motorista para nos oferecer uma carona. Será que estava afim da Simone? Não, o cara era casado e disse ter uma filhinha. Talvez estivéssemos sendo maldosos com uma pessoa que só queira nos ajudar, mas em nossa situação a dúvida e desconfiança são boas companheiras. E a tarde passou, falamos com todo mundo que íamos encontrando, ou vendo parar, fosse para abastecer, acertar novas cargas, comprar algum acessório, etc. Começamos a agir aproveitando as oportunidades, se não nos concediam a desejada carona, então conversávamos para nos dar algum dinheiro para comermos algo.

Vimos as portas da loja serem fechadas, a noite já se pronunciava ao nosso redor. O que faríamos agora? Onde dormiríamos? Seria seguro passar a noite por ali mesmo? E agora, meus amigos? Não conseguimos sair daqui durante todo o dia, teremos uma noite de indigentes. Ir para Vila Sabrina? Já tínhamos dinheiro para as passagens de circular, pois estávamos juntando os trocas que as pessoas iam nos dando no decorrer do dia. Não, não seria legal, os caras foram sucintos que só poderíamos ficar com eles até aquela segunda-feira. E se não conseguíssemos nada na terça-feira também, voltaríamos pra lá? Isso até irmos embora? Não mesmo! Tínhamos que encarar nossas responsabilidades e conseqüências sozinhos. Se inventamos de fazer essa aventura, então agora vamos até o fim. Mas que a situação era desesperadora, isso era. Nós três sentados naquela calçada, vendo as pessoas da loja irem embora, o pátio com poucos caminhões que sairiam em viagem no dia seguinte, as luzes dos postes acendendo, o pensamento de passar a primeira noite ao relento em toda a viagem. Aí vem uma voz dizendo para acompanhá-lo. Era o Josepe, que nem contávamos mais. Pensávamos que ele já havia ido para casa e que preferiu não se envolver com gente que não conhecia. Mas ele nos surpreendeu. Levantamos imediatamente e o seguimos até o seu carro, um Chevete azul, entramos e fomos com ele até sua casa. Não acreditávamos no que estava acontecendo conosco. Quando tudo parecia perdido, eis que aparece este cara pra nos dar um apoio deste.

Já na casa do Josepe, enquanto íamos contando nossa nova versão de nossa viagem, íamos tratando de tomar banho, para jantar e dormir. A casa era pequena, mas muito aconchegante, sua filhinha uma gracinha e sua esposa gentil, mas meio receosa, e com toda razão. Dormimos muito bem naquela noite. E foi bom saber que tínhamos feito mais um amigo na viagem. Tomamos o delicioso café da manhã e seguimos com o Josepe de carro até o posto, para mais um dia de procura por carona. Ele disse que só não poderia nos dar abrigo todas as noites que passássemos por ali, por causa de sua esposa receosa e por não ter condições de nos bancar com comida e afins. Mas nossa esperança e expectativa eram de conseguirmos sair dali na terça-feira mesmo. Estacionamos numa garagem da borracharia, que fica na lateral do Posto, o Josepe foi trabalhar e nós, de certa forma, também. Passamos toda a manhã conversando com todo tipo de gente, pedindo informações, carona, e os trocados para comer alguma coisa. Lembro de procurarmos nos jornais que trouxessem matérias sobre o festival que assistimos, ainda conseguimos encontrar algo e guardamos nas mochilas. O dia ia passando e nenhuma novidade surgia, só um motorista, se não me engano, era pernambucano, que ficou conversando conosco na calçada lateral do restaurante. Dizia-se de esquerda sempre, um esquerdista convicto e bom piadista. Nos informou da “Empresa Atlas”, na rua acima, por traz da loja, poderíamos estender nossa batalha por ali também. E nos deu um ticket que dava direito a um motorista e sua companheira jantarem no refeitório da empresa. Mas era restrito a motoristas e suas companheiras, nem eu nem o Sérgio éramos motoristas e a Simone não era conjugue de nenhum de nós dois. Daí ele perguntou pra quê que existe a mentira. Bastava um de nós dois decidirmos quem iria e o outro ficaria, assim quem fosse se passaria por caminhoneiro e a Simone de esposa. Decidimos que eu iria e o Sérgio ficaria, o cozinheiro do restaurante havia prometido uma quentinha para nós. Já pensou uma quentinha pra ser dividida para três famintos? Melhor do que nada. E agora que eu e a Simone íamos jantar no refeitório da Atlas, o Sérgio passaria bem. Pra falar a verdade, não sei se eu tinha aparência de caminhoneiro, mas o pior que poderia nos acontecer era a recusa de nosso ticket pelos guardas da guarita da empresa, e ter que dividir a quentinha. Enquanto esperávamos a hora certa do início do jantar conversávamos com o tal esquerdista, de quem o nome não me recordo, e vez por outra indo ao encontro de alguém que chegasse de caminhão persistindo na busca por uma carona. Havíamos decidido só solicitar carona em caminhões, para não levantar qualquer tipo de suspeita por parte de motoristas e demais ocupantes. Se já era difícil conseguir que nos levasse em um veículo em que ficaríamos lá pra traz, longe de quem estivesse dirigindo e acompanhando, quiçá em um carro pequeno?



Dada a hora do jantar no refeitório da Atlas, lá fomos nós, eu e a Simone. Tínhamos que convencer como casal e acertamos nos detalhes do papo. Mais uma vez estávamos envolvidos em mentiras para conseguir alguma coisa. Nos tornamos uma mentira ambulante, tudo ao nosso respeito soava falso, e não me sentia bem com isso. Mentir de novo era o que faríamos ao ficarmos de frente a guarita. E ao chegarmos já fui logo perguntando aos guardas, com tom de voz bem forte e falando meio alto, onde ficava o refeitório. Os guardas perguntaram o que queríamos lá, respondi que comer, lógico. Entreguei o ticket. Onde estava o meu caminhão? No pátio do posto abaixo. Eu tentava segurar a mão da Simone, mas ela parecia não ter entrado ainda no espírito da coisa, e quando eu a chamava de “meu bem”, ela respondia “ôche, que meu bem o quê!”. Os guardas não pareciam engolir a nossa suposta comunhão e o papo de ser caminhoneiro, etc. Não pegaram nem o ticket que coloquei sobre o balcão da guarita. Daí eu perguntei se agente podia afinal entrar ou não, agente estava com muita fome, tinha que dormir cedo, pois o nosso caminhão ia ser carregado logo cedo. Se não pudesse não fazia mal, agente comeria no restaurante do posto. O guarda ainda perguntou onde conseguimos aquele ticket, respondi que um colega que saiu em viagem me passou, já que não iria jantar no respectivo refeitório. E, enfim, nos deixou entrar. Eu fui tentando segurar na mão da Simone, e ainda comentei que eu não queria nada com ela, a situação nos obrigava a parecermos casados. E a ficha, finalmente caiu, ela segurou minha mão e fomos entrando como um bom casal. Mais uma mentira. Pegamos nossas bandejas, nos serviram, só que mais um problema surgiu, como entregamos só um ticket, só tínhamos direito a uma porção de comida, não poderíamos usar as duas bandejas. Mas já havia alguma comida tanto na minha bandeja quanto na da Simone. O que faríamos agora? Deixaríamos a bandeja ali em algum lugar e comeríamos os dois em uma única bandeja? Minha senhora, disse eu a atendente, nós viajamos o dia inteiro, não comemos nada, devido a nossa carga que era de alimento perecível e a senhora vem nos dizer que agente não vai poder comer direito? Se for o caso a gente paga a bandeja da minha esposa! Um motorista que vinha depois de nós sugeriu que a chefe da cozinha deixasse o casal comer a vontade, a comida ali se perde mesmo. E a confusão se encerrou, encheram nossas bandejas de uma comida cheirosa e muito desejada. E o Sérgio, teria recebido a quentinha do cozinheiro mesmo, ou estaria com uma fome dos diabos? Nos sentamos numa mesa meio afastados do resto do pessoal e iniciamos nossa refeição, procurei parecer bem familiarizado com aquele tipo de ambiente. E até estava, pois na época eu cursava Comunicação Social e almoçava e jantava no refeitório da faculdade, só que lá eu não precisava me passar por outra pessoa tão distinta, nem sabia dirigir moto, quanto mais caminhão. Como foi delicioso devorar aquela comida e como seria bom contar com ela todos os dias que passássemos por aqueles lados. E se eu fosse até as cozinheiras e abrisse o jogo? Eu não sou caminhoneiro, ela não é minha esposa coisíssima nenhuma e estamos é passando fome lá embaixo no posto, pedindo carona pra poder voltar pra casa! Vocês poderiam nos dar uma comidinha toda noite? Pensando melhor, deixa isso pra lá, vamos comer aqui e rachar fora. Se pelo menos pudéssemos levar algo para comermos mais tarde ou até mesmo pra nosso companheiro, que talvez estivesse com fome.

Terminamos de comer, e antes de nos retirarmos eu bebi quantos copos de suco eu pude. Enchi a barriga de suco geladinho e tratamos de sair logo dali, tinha medo que alguém descobrisse nossa farsa e passássemos por vergonha. Saímos do refeitório, eu com a barriga até doendo. Depois pela guarita, desejei boa noite e disse que daqui há uns dias nos viríamos novamente. Descemos a ladeira e vimos nosso amigo sentado na calçada em que passamos os dias, com as mochilas como companheiras. Logo nos viu, e quando eu passei as mãos na barriga começou a sorrir e me imitou, fiquei aliviado, por saber que também tinha jantado. Agora era ir para o carro do Josepe, dormiríamos aquela noite dentro do carro dele, que foi pra casa a pé. Como ele confiava em nós! Deixar o próprio carro conosco, tudo bem, sem as chaves, mas poderíamos fazer ligação direta e nos mandarmos. Acho que ele nos conhecia melhor que nós a ele. Não demoramos no pátio, entramos no carro e ficamos conversando sobre nossa demora por ali, e se não fosse o Josepe pra nos ajudar, os banheiros onde tomamos banho a vontade sem pagar nada, algum dinheiro que nos davam e o cozinheiro que nos cedia alguma comida, e até a sorte de encontramos algumas pessoas que mesmo não cedendo o que queríamos, nos davam algum apoio. Amanhã já seria quarta-feira. Passaríamos a semana inteira ali? Voltar para Vila Sabrina estava fora de cogitação, se saíssemos dali seria o mesmo que desmentir tudo o que vínhamos dizendo até então, e se tivéssemos que voltar como nos viriam e receberiam? O próprio Josepe ficaria, com certeza, muito chateado, se sentindo enganado e usado. Não, com toda demora, o melhor seria ficar por ali, logo alguém nos concederia uma carona e partiríamos dali. Se chegamos até ali, conseguiríamos ir adiante. A Simone dormiu primeiro, nós dois ficamos conversando mais um pouco, e mencionamos nossas desconfianças de que o Josepe realmente estava afim da Simone. Isto ficava claro toda vez que ele se aproximava e dava maior atenção a ela. Talvez esse fosse o motivo de estar nos ajudando. Mas era casado, não deveria ser isso, não. Bem, o melhor era dormir, o dia fora cansativo e os acontecimentos inesperados, sem contar que o dono do carro, no momento nosso dormitório, chegaria cedo.

Nunca dormi sentado tão bem. Estava realmente cansado, o Sol desgasta, o mormaço de asfalto mina as energias. Acordamos com as batidas do Josepe nos vidros. Já era dia, bem cedo, mas estava claro. Ao sairmos perguntou como fora a noite, respondemos que nem vimos a note passar. Se sentimos frio? Não sentimos nada, só sono. Agradecemos a ele por mais esse apoio, e o deixamos saber que se não fosse ele a nos ajudar estaríamos numa pior. Disse-nos que não estava fazendo nada demais. Ora, o que é isso? Respondemos. Estávamos realmente muito gratos por tudo até ali. E nunca o esqueceríamos. O dono do Chevete foi trabalhar, nós fomos escovar os dentes, tomar café da manhã e nos prepararmos para mais um dia.

Quarta-feira e nós ainda presos naquele posto, nenhum progresso, nenhuma perspectiva de sairmos dali em momento algum. A situação ficava cada vez mais caótica. Parecíamos mendigos, pedindo de tudo, mesmo que procurássemos passar uma imagem de que não o éramos, tínhamos a certeza de que as pessoas assim nos viam, e corríamos o risco de engrossarmos os números de pedintes na cidade de São Paulo. A alimentação era pouca e precária, principalmente pela manhã ao fazermos nossa primeira refeição, com uma xicarazinha de café e uma fatia de bolo ou pão sem manteiga mesmo, pra não encarecer. O desânimo e os primeiros sinais de depressão já apareciam em nós três. Não suportávamos mais conversar as mesmas palavras com pessoas que não conhecíamos e que às vezes nem se importavam com nosso drama, não estavam nem aí se virássemos mendigos ou não, se passássemos fome, se dormíssemos no chão ou até se morrêssemos. Não é fácil achar pessoas assim, mas se surgem são realmente de bom coração. E com este pensamento vimos um senhor vendendo meias e outras coisas no pátio e procuramos conversar com ele pra saber um pouco de sua vida, o porquê de estar como vendedor ambulante. Depois dele contar em poucas palavras um pedaço de sua história e suas dificuldades atuais, quis agradecê-lo e ajudá-lo de alguma forma, e comprei um par de meias brancas, por um Real. Sabia que aquele dinheiro poderia nos fazer falta, mas como o consegui, conseguiria outro. As palavras daquele senhor foram encorajadoras para nós, esquecemos as promessas não cumpridas de vários motoristas em nos levar. Tomamos nova porção de ânimo, após o ambulante seguir seu caminho nós reiniciamos as tentativas, as conversas, os pedidos e com mais vontade do que estávamos até então. Novas promessas, novas recusas, novamente só queriam levar a Simone. O dia passando, as horas se adiantando e nós sem conseguir continuar com animação que o velho vendedor ambulante nos trouxe. A fome aumentava, o Sol, o mormaço, a poluição, o desgaste físico e emocional e a vontade de desistir de tudo aquilo me fizeram lembrar que minha família morava no sul de Minas Gerais, na cidade de Nepomuceno, há umas seis horas de viagem, bem próximo à cidade de Lavras, então passamos a incluir essas cidades em nossas metas. Meus companheiros de início não se agradaram da idéia, mas tudo ali estava contra nós, não teríamos o apoio do Josepe por muito tempo, ele também tinha suas obrigações e não éramos nem seus parentes. Alguma nova iniciativa era necessária. Até quando ficaríamos naquele posto, naquela situação? Até quando teríamos que descer mais? Se conseguíssemos chegar a Nepomuceno, minha família nos emprestaria o dinheiro para as passagens e quando voltássemos a Campina Grande, batalharíamos e os reembolsaríamos. Tínhamos de sair dali. Eu particularmente não suportava mais, me sentia humilhado, e de certa forma arrependido de ter inventado e entrado naquela “barca furada”. Depois de explicar o meu ponto de vista e minhas frustrações, os dois entenderam e chegamos a um consenso de que era preciso uma mudança de planos. Não poderíamos continuar com todo aquele contexto romântico de nossa aventura, a situação estava ficando insuportável, e se minha família poderia nos ajudar em alguma coisa, porque não os procurar? Primeiro teríamos que ouvir um belo e longo sermão, mas se fosse preciso, tudo bem.

Não podia acreditar, a quarta-feira se arrastava e a gente corria o risco de passarmos mais uma noite em São Paulo. Ainda teve um motorista que ia para Lavras que disse que nos deixaria em Nepomuceno, pois ia passar por lá de todo jeito, só disse que iria carregar o caminhão e passaria por ali para nos pegar, ainda dissemos que poderíamos ajudá-lo no carregamento, mas nos prometeu que nos pegaria pela tarde. E foi mais uma frustrante promessa não cumprida. Pra falar a verdade nem esperávamos mais que realmente alguém que dizia nos dar carona em breve, voltasse ali para nos pegar. Se ocorresse seria lucro, mas não contávamos mais com aquilo. E a possibilidade de rever minha família e de ir embora, finalmente, pra casa ia junto com as horas que avançavam pela tarde. Na calçada ao lado da churrascaria do restaurante a gente lamentava nossa falta de sorte e perguntava às pessoas que freqüentavam as intermediações se não viam que não éramos ladrões de carga, assaltantes fugitivos e que a única coisa que queríamos era ir embora dali, não importava como. Foi quando nos contaram uma história, há pouco ocorrida naquele posto mesmo. Uma família chegou, como nós, pra pegar uma carona também para o nordeste. Eram pai, mãe e dois filhos pequenos. Passaram uma semana dormindo na calçada em que estávamos conversando naquele momento. Enfrentaram todo tipo de privação, como fome, mendicância e tudo mais. Nós estávamos passando até bem, com o apoio do Josepe, por exemplo. No caso da família nem isso eles tiveram. Um certo caminhoneiro passou pelo posto e viu a pobre família na triste situação, comentou com alguém que se quando voltasse a São Paulo eles tivessem por ali, os levaria ao nordeste. O caminhoneiro foi, voltou e a família passava os dias como indigentes na calçada, pedindo esmolas e vivendo disso. O bom homem, depois de fazer os seus acertos e de ter o seu caminhão recarregado foi conversar com o pai e a mãe da família. Como iriam para o mesmo estado, anunciou que os levaria consigo, que os daria de comer, beber e espaço para dormir. Todos juntos finalmente, no caminhão, foram embora. A agonia da família se findara, após uma semana de humilhação e miséria total, alguém lhes deu a chance de voltarem pra casa, que era o que também queríamos. Mas, o pessoal do posto, o que tratava das cargas, carretos, fretes, etc. sentiu que o motorista demorava muito para reaparecer em São Paulo, não tinha o costume de passar tanto tempo sem pegar uma nova viagem para o nordeste, rapaz trabalhador, pai de família muito empenhado no seu ofício. o tempo passava e nada do homem. O que teria acontecido? As cargas surgiam e ele as perdia. Ficou-se sabendo, então, que fora vítima de um terrível crime, a família que o acompanhava como carona o assassinou e roubou sua carga para ser vendida. Seu corpo fora encontrado jogado num matagal nas bordas da rodovia. Um crime terrível e covarde. E deixou todos por ali muito desconfiados com todo mundo que chegava pedindo carona, o fato de passar um dia ou uma semana, até um mês, não tirava a desconfiança de alguma possibilidade de ocorrer o mesmo com outros companheiros. E nós, que não tínhamos nenhuma intenção como esta, sofríamos com a ingratidão da tal família e de outras pessoas de mente tão voltada a fazer o mal. Nossos três dias de intensa busca por uma mudança de sorte só pareciam representar algum drama para nós mesmos, e com o relato que acabamos de ouvir, também tomamos consciência da apatia de alguns, o descaso total de outros e passamos a temer pela necessidade de ter que enfrentar mais vários dias naquela situação que já nos era insuportável. E o que era pior mesmo eram as promessas não cumpridas, que nos davam alguma esperança e se tornavam frustração e desconfiança.

Mais um dia se ia. As pessoas da loja de acessórios pegando os caminhos de casa, o Sol se pondo mais uma vez diante de nossos olhos desesperados, o número de caminhões e pessoas diminuindo no pátio, nós ficando sozinhos novamente naquele fim de mundo, dessa vez sem nem o carro do Josepe como promessa de “hotel improvisado” e o pensamento em ter que enfrentar o quarto dia perdidos e presos, sem perspectiva alguma de nos mandarmos dali. E quando o sentimento de que tudo parecia perdido, aquele que invade o nosso peito quando nos sentimos abandonados e sem saída, o Josepe se dirigiu até nós nos convidando a acompanhá-lo à casa de seus sogros, ele havia conversado com um motorista, seu amigo, para nós dormirmos aquela noite na carroceria de seu caminhão, bastava arrumar a lona como uma barraca e dobrá-la na manhã seguinte. Fomos com ele, então. Foi um passeio meio divertido, meio estranho, sentimos um certo clima desagradável entre ele e sua esposa. Ficamos pensando que ela não estava se agradando de toda aquela corte que seu marido estava nos dando. Porque tanta ligação com três pessoas que nunca vimos na vida? Quem são eles e de onde são realmente? E essa menina aí, qual será a dela? Eram dúvidas que deveriam estar rodando a cabeça da esposa do cara que mais nos ajudava. Dúvidas compreensivas, mas já deveríamos ter dado motivos suficientes para que não existissem com certa veemência, desde o passeio em que o Josepe fez conosco na noite em que dormimos em sua casa. Após o jantar, saímos, a convite dele, para darmos uma volta no bairro em que moravam, pelas intermediações de sua casa, coisa rápida, o sono já se mostrava impiedoso.

Sinceramente, não foi um passeio nada agradável. Tanto a esposa do nosso amigo, quanto sua família não nos viam com bons olhos, só o Josepe tentava mostrar algum valor em nós, seus conterrâneos. Nem repetindo pra eles a história que o havíamos contado, sobre o nosso suposto assalto, que fomos procurar uma viatura da polícia na rua da pousada em que dissemos estar hospedados, e acabamos recebendo uma “geral” dos policiais grosseiros, que a gente não tinha dinheiro nem pra comer direito e todo o nosso drama, formado de tristes verdades e lamentáveis mentiras, nem contando tudo isso fez com que a família da mulher tirasse o semblante de desconfiança. Não que tivessem sido grosseiros, nem nos convidado a entrar, ou qualquer outra atitude normal de recepção, o fato é que sentíamos que não éramos tão bem vindos como o Josepe desejava. Era como dizer que estavam comovidos com nossa situação, mas e daí? O que temos a ver com isso? Não sabemos o que fazer para ajudar, não temos caminhão, não conhecemos ninguém que o tenha e vá para o nordeste. E o que nos interessa saber da história desse pessoal que nunca vimos? O que queremos é voltar a assistir a novela e pronto! Eu imaginava que seriam os pensamentos das pessoas ali.

Após a rápida visita, sem motivo aparente, o Josepe nos deixou de volta ao posto e foi para casa. Será que sua esposa ficou em casa temendo que nós o assassinássemos neste meio tempo? Ora, que bobagem! Antes de ir embora nos mostrou o caminhão onde dormiríamos apenas aquela noite. Realmente essa também era a nossa vontade, mas queríamos dormir a noite seguinte bem longe dali. Ficamos sabendo que nas quartas-feiras o pessoal de umas igrejas de São Paulo vai entregar cobertores, lençóis, travesseiros e pratos de sopa aos moradores de rua e decidimos que também tentaríamos algo deste pessoal. Já perto da hora em que os carros do “sopão” passaria nós, que já havíamos escondido nossas mochilas debaixo da lona na carroceria do caminhão, descemos para fora do pátio do posto e procuramos conversar com as pessoas que moravam em barracas montadas na calçada vizinha a rodovia Presidente Dutra. Eram pessoas muito humildes, mas com uma riqueza interior tal que logo nos deixou a vontade. Antes de termos o primeiro contato, a Simone se mostrou muito apreensiva. Foi uma experiência nova e talvez até degradante para ela. Ela disse claramente estar com medo. Mas, de quê? O que aquelas pessoas poderiam nos fazer se não tínhamos dinheiro e eles acompanhavam passivos os nossos dias? Além do mais a visão que eu e Sérgio tínhamos daquelas pessoas era bem diferente, eram trabalhadores, que acordavam cedo e saiam para desemprenhar suas tarefas de muito desgaste. Se moravam nas barracas extremamente simples, não o faziam por vontade própria e sim por necessidade. Não os via como uma ameaça, e sim como um apoio a conseguirmos comer algo mais consistente e em maior quantidade, de conseguirmos cobertores para a noite que passaríamos em cima da corroceria do caminhão, e para as demais que viriam e tínhamos noção de como seriam. E nos surpreenderam com sua hospitalidade, amizade e espontaneidade. Disseram logo que poderíamos sim esperar os carros do sopão com eles, e nos cederam panelas e talheres. Formamos uma roda de conversa frente às barracas, contamos nossa história e eles as deles. Eram muito limpas as panelas, o chão ao redor das barracas, os talheres, as roupas e as pessoas tinham aquele cheirinho de “pós-banho”. Só reforçou o meu pensamento de que pobreza indifere de preguiça e desleixo. A conversa fluía com facilidade, eram pessoas vividas e inteligentes, caridosas e conhecedoras das dificuldades da vida nas ruas. Assumiam todo tipo de serviço, lavador de carro, chapa, vendedor ambulante, e por aí vai. O problema eram os fiscais da prefeitura que quando apareciam mandavam desmontar as barracas de plástico e “irem circulando”. Circulando pra onde? Uma família que mora às margens de uma rodovia como a Dutra tem pra onde “circular”? Morar onde se ali não pode? Apesar de não existir preconceito de espécie alguma em relação a aquelas pessoas, confesso ter sentido que estávamos em uma situação preocupante, chegar a nos unir a um grupo de moradores de rua era um sinal de pouca, ou nenhuma, evolução de nossa parte. A espera pelo sopão não fazia parte de nosso cronograma de experiências a serem vividas em nossa viagem, era necessidade mesmo, era fome, queríamos os cobertores não para conhecermos um pouco da vida na rua, e sim porque o frio que enfrentávamos era real, não contávamos com nenhum lugar de apoio, como retorno, não havia para onde voltar, além de Campina Grande, e agora, Nepomuceno. Como evitar o sentimento de derrota naquele momento? E como não se mostrar louco que as pessoas chegassem logo para comermos e ganhássemos os cobertores? No fundo, no fundo, os moradores de rua que nos acolheram, estavam em melhor situação que nós. Foram eles que anunciaram a aproximação da caravana, ficaram todos de pé e nos convidaram a seguí-los. Todos com sua panela, tigelas, pratos e outros recipientes esperando ansiosos pela ajuda semanal. Os carros pararam bem a nossa frente, descemos até eles, nos serviram ao mesmo tempo que ouviam os pedidos e distribuíam algumas peças de roupa, lençóis, cobertores, etc. Nós também tentamos pegar o que fomos pedir, mas só conseguimos nossas tigelas cheias de sopa, logo perceberam que não fazíamos parte daquela pequena comunidade e que não éramos moradores de rua. Explicamos nossa realidade, se comoveram, prometeram tentar fazer algo por nós, mas os cobertores não era possível nos ceder pra já, pois eles distribuem mediante os pedidos da semana anterior. Como os pedimos naquele momento, disseram que nos trariam na próxima quarta. Lógico que nossa intenção era a de não estarmos por lá até o retorno deles. Só nos restava, então, tomar a sopa e irmos dormir. Depois de servir todo mundo e distribuir o que haviam trazido, o pessoal seguiu noite adentro fazendo o mesmo com outros moradores de outras ruas. Recordo-me de termos conversado sobre a importância daquele serviço, era uma ajuda muito importante, mas não passa de um paliativo, pois o que seria de muito mais valia e uma real solução, seria dar condições de essas pessoas terem de onde tirar o seu sustento, uma fonte de renda fixa, um emprego com salário que possibilitasse ter um planejamento econômico e familiar. Morar em uma casa, por mais simples que fosse, mas uma casa, não uma barraca de plástico, zinco e pedaços de pau. Eles, lógico, agradecem enormemente por tudo que lhe era concedido, mas sempre solicitavam por oportunidade de mostrarem suas capacidades, não queriam dormir com medo dos fiscais surgirem e destruírem tudo ao seu redor. Após nos deliciarmos com o sopão, agradecemos muito pela hospitalidade e pelas vasilhas, desejamos boa noite a todos e fomos para o caminhão onde passaríamos a noite.

Desdobramos a lona, esticamos uma parte, cobrindo um pedaço da carroceria onde pretendíamos nos deitar e o resto para cima da grade rente a carroceria. No canto oposto encostamos as três mochilas dando uma pequena altura, a intenção era a de montar uma barraca, não nos cobrir com a lona como com um cobertor, mas fazer como um teto. Terminada a tarefa só nos restava deitar e procurar relaxar, dormir e sempre esperar que o próximo dia fosse o grande dia em que nos despediríamos daquele pedacinho de São Paulo, que já estávamos ficando cansados de freqüentar.

Mais um dia se iniciava com os roncos dos motores dos caminhões. Levantamos, dobramos a lona e fomos para os preparativos de toda manhã. Quinta-feira e tudo se repetia, e tendia a se repetir. Já cogitávamos a possibilidade de irmos procurar emprego em empresas situadas nos arredores, como a Estrela, por exemplo. Era uma grande fábrica de brinquedos e não seria possível que não tivessem nenhuma vaga em nenhuma função. A intenção era a de arrumar um emprego, passar um tempo em alguma pensãozinha por ali e quando estivéssemos com algum dinheiro voltarmos para Campina Grande. O real pensamento era o de passar no máximo um mês, ao recebermos os primeiros salários nos mandaríamos. Que ingenuidade! Mas não fomos nem nas fábricas, ao mesmo tempo em que conversávamos sobre isso, o medo de sair e surgir alguma carona nos prendia às intermediações do posto. Era uma encruzilhada, um beco sem saída. O dia se ia e nada de novidade, isso no quarto dia de tentativa de sair estrada afora rumo às nossas casas. O sentimento de arrependimento se mesclava ao de ter que conseguir reverter a situação. Será que o pessoal de Vila Sabrina tem alguma idéia de que ainda estamos por aqui? Eu pensava.

Um funcionário da loja de acessórios nos procurou, disse conhecer um pessoal que poderia nos ajudar, perguntou se queríamos arriscar e caso a resposta fosse positiva, iríamos com ele na hora de almoço. Tudo certo, não estávamos em uma posição de escolher ajuda, mesmo ele não dizendo do que se tratava concordamos em acompanhá-lo. E mais ou menos uma hora e meia depois de ele ter feito o convite, ele e o Josepe nos chamaram para irmos no carro do Josepe. Nós trocamos de roupas, pois seguíamos a mesma postura de só trocarmos de roupas quando realmente necessário, geralmente tomávamos banho e vestíamos as mesmas de antes. Vínhamos usando as mesmas peças da viagem de vinda, só as trocamos quando fomos jantar na casa do Josepe, quando fomos conhecer os pais de sua esposa e agora. A intenção era a de sujar o menor número de roupas possível para quando precisássemos de roupas limpas, as termos. Não sabíamos com quem falaríamos, então seria bom nos apresentarmos ao menos de roupas limpas, amassadas, mas limpas. E só no caminho foi que o rapaz que usava peruca, comenta que íamos conversar com um pastor de sua igreja. Até aí tudo bem, se poderia nos ajudar de alguma maneira, esqueceríamos a aversão comum entre os três a esses aproveitadores da fé alheia e conversaríamos sem maiores problemas com um dos reis da lábia. Não demoramos no trajeto e logo nos vimos diante a um poderoso e imponente edifício de cor azul, com muita pompa e aparente riqueza nos detalhes, era um prédio da Igreja Universal do Reino de Deus. Particularmente não podia acreditar que havia descido a tanto, chegar a mendigar, recorrer a um homem que ganha a vida fazendo aquilo que mais repudio, que é enganar e usar as pessoas. Recorrer a um destes charlatões que nada mais são que homens comuns e se dizem superiores aos fieis. Mas procurei esquecer desses lamentáveis detalhes e me prendi a um silêncio que tentaria prolongar até a hora de conversar com o tal pastor.

Paramos o carro em frente ao prédio, e fomos seguindo o rapaz que nos convidara, entramos um pouco e ficamos esperando ele ir conversar lá pra dentro não sei com quem. Acho que foi marcar horário com o seu líder espiritual. Voltou e pouco tempo após lá fomos nós ter com um homem muitíssimo bem vestido, com uma roupa social que sem dificuldade percebia-se a ótima marca, assim sendo com seu calçado. Era um homem vaidoso e com aparência de empresário, ou gerente de uma grande e rendosa empresa, com muitos compromissos e negócios a tratar. Não falamos nada, só o companheiro do Josepe foi que relatou alguma coisa de nossa situação. Confesso não concordar com muitos detalhes pejorativos que mencionou, que só não o chamei de mentiroso, pelo fato de rapidamente pensar que não haveria mal em enganar um enganador, o pior era a nossa imagem, mas se conseguíssemos o que fomos buscar, o “bonitão” lá poderia ficar pensando o que quisesse de nós. Depois de ouvir com desdém a versão conturbada do rapaz, o ricaço que nem se levantou para nos cumprimentar, entrou numas de dar sermão desenfreadamente. Nos chamava indiretamente de vagabundos, dizia que se continuássemos naquela vida, ao morrermos, iríamos direto e sem escala para o inferno. O fulano começou a falar sem parar e a nos humilhar, como se devêssemos algo a ele. Aquela situação estava muito chata e não nos agradava ficar ali parados como três crianças que fizeram algo de errado ouvindo a repreensão do pai. Quem era aquele cidadão pra nos dizer como deveríamos nos vestir, falar, se comportar, usar os cabelos? Quem era pra nos dizer regras que podem servir para quem quiser ou for forçado a seguir? Mas não para nós. Há muito que meu próprio pai não me dizia como eu deveria ser, então porque ouvir atentamente aquele discurso típico de um advogado? Cansei daquela lengalenga do almofadinha e me pronunciei com toda a educação, perguntando se afinal ele poderia fazer algo por nós ou não. Pronto! As poucas palavras que falei foram suficientes para que o tagarela mudasse totalmente o rumo de seu enfadonho discurso. Começou, então a me dizer diretamente, que se eu não mudasse tudo na minha vida seria uma desgraça só. Que eu era muito grosseiro, mau educado. Perguntou ainda, com a cara mais deslavada, se eu sabia com quem eu estava falando. Respondi prontamente que não fazia a menor idéia, e que só queria saber o que ele poderia fazer pra nos ajudar. Nada! Não faria mais nada por nós, então me retirei da luxuosa sala. Os que me acompanhavam me seguiram. Eu não acreditava no que via, o Sérgio dizendo que fui muito rude com o pastor/empresário. Eu só quis saber dele o que poderia fazer por nós, não acho que fui grosso, fui até muito educado, pedi licença e me expressei clara e gentilmente. Ele é que é do tipo de profissional que não está acostumado a ter pessoas em nossa situação que o questionem sobre qualquer coisa, não gosta de ficar “na parede”, está acostumado a falar o que quiser e as pessoas ouvirem como a mais pura e absoluta verdade. Saímos do prédio rapidamente, entramos no carro do Josepe e o rapaz não parava de se lamentar por minha atitude.

Já de volta ao posto, procurei saber o porque dos meus companheiros permanecerem em silêncio. O Sérgio diz que eu deveria ter ficado simplesmente calado e deixado o pastor de araque tagarelar as mentiras dele o tanto que quisesse, o que nos importava era o que ele iria fazer para nos ajudar. Insisti que eu não havia feito nada, só uma simples pergunta, e que se soubesse que a reação do ricaço seria aquela realmente teria me mantido calado. Meu amigo ainda completou que não estávamos em situação de poder deixar aflorar nossos pensamentos e ideologias a respeito da hipocrisia de uns e da desordem reinante em nossa sociedade moderna. Pedi desculpas e prometi fazer de tudo para me redimir perante ele e a Simone, depois do trágico e inesperado desfecho da ida àquela fábrica de fazer dinheiro.

A tarde passava, nenhuma novidade. Levar os três era algo que acabamos reconhecendo como praticamente impossível, e tomamos uma decisão que apesar de não agradar a ninguém, vemos como de suma necessidade, passaríamos a pedir carona para os três, como sempre, e se não fosse possível seguirmos juntos dividiríamos em dois grupos, ou seja, eu iria só e o Sérgio acompanharia a Simone. Foi um momento muito ruim, a possibilidade de nos separarmos até então era remota, mas algo teríamos que fazer. Não dava mais pra ficar na mesma durante mais nenhum dia. A noite se aproximava e o outro dia já seria Sexta-feira. Praticamente uma semana sem nenhum progresso. Não podíamos dizer que o Sérgio fazia tatuagens pelo fato de termos descoberto logo nos primeiros dias que justamente as pessoas que poderiam fazer algo por nós sofriam de um preconceito que há muito deveria ter sido extinguido, com relação a essa arte de decorar os corpos. E não sabíamos se poderíamos contar com o Josepe, depois que nos anunciou seu rompimento com sua esposa, agora “ex", ainda pela manhã, quando chegou para trabalhar.

A quinta-feira se foi, dormiríamos no mesmo caminhão da noite passada, nas mesmas circunstâncias. O companheiro de trabalho do Josepe saiu da loja e evitou até olhar pra nós, com certeza ficou aborrecido com minha atitude, e sem limites em seus sentimentos, estendeu sua aversão aos meus companheiros, mesmo sem terem muito que ver com minha pergunta ao pastor. Pois bem, após os preparativos nos deitamos pela segunda vez na mesma carroceria, na mesma lona e na mesma barraquinha improvisada. Os dias eram muito cansativos, acho que pelo barulho dos carros, fuligem, Sol, calor, pouca alimentação, muita conversa, etc. E logo dormirmos todos, para só acordar no dia seguinte. A rotina seria a mesma, sem perspectivas de melhoras. Ao arrumarmos a lona, pegarmos as mochilas, fazermos a assepsia matinal, reiniciamos as tarefas de todos os dias. O desânimo era forte, ouvíamos as mesmas conversas, as mesmas promessas de já uma semana direto e eu já nem tinha vontade de antes de correr atras de todos os caminhões, ficava mais ali, sentado, desanimado de tudo, quando o Sérgio veio até mim com um rapaz moreno, de óculos, camiseta branca e um colarzinho de barbante preto com um berimbalzinho pendurado. Pareciam ter feito uma boa e rápida amizade, se propunha a dar carona a no máximo dois de nós, o papo era o mesmo de sempre, e notava-se a preferência pela presença da Simone. O que ocorreria de toda forma, pois se realmente voltasse ali para ceder a carona prometida, quem iria com ele seriam o Sérgio e a Simone, segundo o nosso acordo, e eu ficaria até conseguir algo para mim. O rapaz foi cuidar da descarga de seu caminhão, carregá-lo novamente e disse que lá pras dezoito horas passaria para pegar meus companheiros. A saudade já invadia o meu íntimo, já sentia a falta dos dois e os momentos que passamos juntos eram projetados em minha mente. Mas ao mesmo tempo o sentimento de alívio por termos dado um passo adiante se mesclava com o da dúvida se o rapaz realmente passaria ou não por ali. O Sérgio estava confiante, notou seriedade nas palavras dele e parecia meio acomodado e esperando apenas.

Dois rapazes pararam diante de nós, nos cumprimentaram e perguntaram se éramos nós quem estava querendo carona para o nordeste. Respondemos que sim. Deveria ser umas duas horas da tarde mais ou menos. Disseram que estavam ali para conseguir um caminhão que levasse um carro que eles compraram em São Paulo, para a sua cidade, Esplanada, na Bahia, e que daria para levar um de nós. Perguntamos se o carro estava vazio ou com alguma coisa em seu interior, a resposta foi que estava vazio, sem nada, era um carro esporte antigo, da década de 1970. Então porque não deixar os três seguirem juntos? Haveria espaço para todos dentro do veículo. Não, não. Seria muito peso, pois o carro deve ir em cima de um caminhão carregado, uma carga baixa, que ocupasse toda a carroceria de ponta a ponta. Se quiséssemos poderiam ceder a vaga para um de nós. Tudo bem, eu iria, mas deixei claro que depois de uma semana ouvindo todo tipo de conversa de todo tipo de gente, eu particularmente, já não confiava em ninguém, mas que esperaria por eles no horário marcado, por volta das dezoito horas da Sexta-feira mesmo. Pedi desculpa pela sinceridade, mas os nossos dias por ali não estavam sendo muito agradáveis, e fui forçado a pensar assim. Pareceram compreender e foram cuidar de arrumar o tal caminhão para levar o carro deles até a cidade de Esplanada. Ainda comentaram, antes de se despedirem de nós, que de lá pra Campina Grande não é muito longe e que não seria difícil de conseguir uma boa carona.

A tarde transcorreu sem nada de novo. A possibilidade das caronas, uma até Esplanada, para mim e a outra pro Sérgio e pra Simone até Recife, não foram motivo para nos acomodarmos, afinal poderiam passar de mais duas promessas não cumpridas, como tantas que fomos vítimas no decorrer da sofrida semana. E a sexta-feira via o Sol beirar o poente, nós o acompanhávamos em meio às nuvens de fumaça, como todos os dias, com um sentimento de amargura, frustração e arrependimento no peito, esse último insistia em querer tomar maior dimensão em nós, mas sempre era burlado pela vontade de voltar pra casa, e pelas várias lembranças vividas até então. Mais uma vez as portas da loja de acessórios se fechavam, o nosso amigo Josepe se despedia de nós, e nesse momento já tínhamos a confissão dele próprio de estar apaixonado pela Simone, algo que procuramos tirar de sua cabeça, desde que soubemos, pois não seria intenção de nenhum dos três, e dela também, ficar em São Paulo. De todo jeito ele demonstrava confiança em que algo entre eles pudesse rolar. Recordo-me de uma conversa que ele teve com ela, em seu carro. Sinto em não saber o dia, ou melhor, a noite exata, mas sei que não deu em nada. Ele havia contado a mim e ao Sérgio, os seus sentimentos por ela, o que achávamos e o que o aconselharíamos a fazer. Ora, conversar a respeito com ela, e se ela decidisse ficar com ele em São Paulo, por nós tudo bem, mas sabíamos que não seria a vontade dela, que o quê mais queria era voltar pra sua casa. E nesse início de noite de Sexta-feira, nosso amigo se despediu de nós, como de costume, e foi pra casa. Ficamos nós esperando a quentinha que uma funcionária do restaurante disse que nos daria ao sair de seu horário de trabalho. E não demorou, felizmente, a se retirar com um embrulho dentro de uma sacola plástica. Nos convidou a seguí-la até fora das dependências do posto, que fica em frente ao restaurante. Saiu com a quentinha e uma colher escondidas dos responsáveis pelo estabelecimento. Acredito que já tinha gente insatisfeita com nossa presença por ali há tanto tempo. Ela nos entregou a quentinha e uma colher, disse que não precisava devolver o talher, e nem o entregasse a ninguém do restaurante, para não comprometê-la, e foi em direção ao ponto de ônibus. Agora me lembro de que a Simone fez amizade com alguma funcionária do restaurante, e ia conversar com elas dentro da cozinha e isso nos rendeu alguma comida, dada pelas mulheres, durante esses dias. Ao terminarmos de comer a deliciosa refeição, voltamos para a calçada onde passávamos os dias e onde passaríamos esta noite. Ei, espere, alguém gritava por nós lá de perto da calçada, o homem moreno perguntou pela pessoa que ia pegar a carona até Esplanada. Respondemos todos, eufóricos que era eu. O carro já ia ser colocado em cima da carga e que se eu fosse mesmo seria bom eu me adiantar, o motorista estava com pressa e sairia em breve. Não podia acreditar que finalmente ia sair daquele lugar, mas seria muito melhor se fôssemos os três juntos, e já começava a sentir a falta de meus companheiros. Nos despedimos rapidamente, o cara estava apressado, e desejamos boa sorte e boa viagem, além de ficar a torcida para que nos víssemos o mais breve possível.

Subi em passos rápidos, seguindo o rapaz que foi me chamar, e paramos em uma rua sem saída, onde, lá ao fundo, estava um caminhão azul parado de ré em uma rampa, e vários homens lutavam para por um carro esporte branco em cima de uma carga que se estendia por toda a carroceira, bem nivelada em um pouco mais alta que as grades laterais. Vi e fui falar com o rapaz moreno claro e de cabeça raspada, que havia me feito o convite para a carona ainda pela manhã. Ele conversava com um senhor mais baixo que ele, de bigode e de roupas bem caídas por sobre o corpo. Era o motorista. Não pareceram muito empolgados com minha presença, me cumprimentaram, mas não deram espaço pra que eu falasse também. Percebendo o descaso, procurei já ir tomando uma postura que pretendia estender por toda a viagem, desde então, a de me manter na minha, sem muitas aproximações, ser cordial e prestativo quando preciso, mas não bajulador e nem um tagarela desagradável. Fiquei afastado deles, vendo a colocação do carro sobre a carga. O que não demorou, e após alguns minutos de conversação entre os trabalhadores, o, motorista e o dono do carro, esse último veio até mim, mas se dirigindo à cabina do caminhão, e falou que eu já poderia subir e entrar no carro. Com a mochila nas costas, pus um pé no pneu do caminhão, me apoiei nas amarras da carga, subi enfim na carroceria e ao abrir a porta do carro, entrei logo, não queria de forma alguma ser motivo de atraso para a saída. Um dos homens que havia colocado o carro sobre o caminhão, grita ao motorista que já podia sair, eu já estava dentro do carro. E lá ia eu sozinho, dentro de um carro em cima de um caminhão, em uma viagem completamente imprevisível, como tudo até ali. Saímos da rua sem saída, descemos a ladeira, passamos ao lado da rua onde se situa a Atlas, me lembrei do arriscado jantar com a Simone no refeitório daquela empresa. Ao passar pelo posto pude ver meus companheiros sentados na calçada, esperando pelo caminhão que, possivelmente os levaria até Recife, torcia intensamente que não passasse de uma daquelas furadas.



Não me contia de felicidade, me sentia o dono da estrada dali de cima, vendo os carros passarem, e o melhor de tudo era ver e sentir que eu não estava mais parado em uma calçada, também evoluía asfalto a frente. Estava tão eufórico com a situação de finalmente sair de onde passei uma semana de sofrimento, que nunca observei faróis de carros com tanta importância, as luzes da noite eram como companheiras de viagem, testemunhas de minha demorada vitória. Os dois lá na cabina pareciam boas pessoas, e o caminhão seguia em boa velocidade. O que talvez me deixasse com uma pulguinha atras da orelha era o fato de não ouvir a conversa dos dois e não saber do que falavam, se um de seus assuntos seria eu ou não, e com que sentido eu teria nestas supostas conversas. Mas naquele exato momento eu nem me preocupava com isso, procurava não me prender nesses pensamentos, queira mesmo era curtir o momento e que a alegria brotava dentro de mim. A sensação de poder estar de volta pra casa em uns dois ou três dias me fazia esquecer o cansaço, os dias que passamos nas intermediações do posto Presidente agora eram lembranças e se os dois na cabina não se agradavam com algo em mim, isso não importava, o que eu queria mesmo era voltar pra casa, com eles sorrindo pra mim ou não. O que me conturbava a cabeça mesmo e era a única coisa que me tirava alguns momentos de alegria, era a dúvida com relação aos meus companheiros. Isso ia e vinha em minha mente direto. E agora, sozinho, tinha a oportunidade de pensar melhor e mais relaxado sobre certos detalhes, como sobre as caronas prometidas e não concretizadas. O horário que praticamente todos se dispuseram a passar e nos pegar, foi sempre o mesmo em que eu peguei a carona em que me encontrava, ou seja, entre as dezoito e vinte horas e onde os motoristas haviam nos encontrado. Fomos aos lugares com o Josepe, fomos aos moradores de rua, na quarta-feira, não ficamos só na calçada, esperando estas possíveis caronas. E uma dúvida me veio: será que eles realmente passavam e nós não estávamos lá? Será que já deveríamos estar em casa nesse momento? Mas não poderíamos dispensar os convites tão gentis do Josepe, nem ter perdido a chance de tomar o sopão. Por outro lado, e se tivéssemos lá? Como saber agora?

Um problema que logo percebi no carro, foi que entrava muito vento por baixo do painel. Até o momento, até que estava um ventinho agradável, pois estava um clima abafado, e até as janelas eu deixei um pouco abertas. Pensei que fossem os orifícios de ventilação convencionais, mas não era, não. Parecia que o painel estava quebrado mesmo. Não conhecia a situação daquele carro, mas parecia meio avariado, mal conservado. Do lado do carona eu tinha mais mobilidade, não contava com o volante para limitar os movimentos. A mochila joguei para o banco de traz, para ter mais espaço na frente. E tão logo adentramos a escuridão da auto-estrada, fui procurando um jeito de me deitar e dormir, agora mais sossegado. Descobri um detalhe que vinha desde o painel, passava pelo câmbio, e se estendia até o banco de traz. Não dava pra deitar usando os bancos da frente, o detalhe em plástico se erguia mais alto que os assentos e quando me deitava minhas costelas esquerdas iam de encontro a esse tipo de porta objetos quadrado. Insisti, mas a trepidação e balanço natural do carro o faziam machucar minhas costelas. Sentei, puxei a mochila para o banco do motorista, passei para o banco de traz, deitei e descobri que o diabo do divisor dos bancos se estendia até dividir também o banco traseiro em dois, incomodava do mesmo jeito que na frente. Puxei a mochila de volta, a encostei no banco ao lado e me apoiei nela, cruzando os braços, meio deitado, meio sentado. Mas, além da divisória ser mais alta que os bancos de traz e ainda assim machucar, eu não podia esticar as pernas devido aos bancos dianteiros. Puxa vida, que agonia! Tudo isso pra achar um jeito pra dormir. Voltei a mochila pro bando do motorista, eu pro banco do carona, inclinei os bancos pra traz, estiquei as pernas até onde dava, me encostei na mochila, fechei as janelas e mesmo com vento de debaixo do painel, procurei relaxar e dormir.

A viagem seguia sem maiores novidades. Uma paradinha pra abastecer e tomar um cafezinho e logo pegávamos a estrada de volta. Logo na primeira comprei um pacote de biscoitos de polvilho. O tempo que passei com meus amigos no posto deu pra juntar umas notas de um Real, poucas, lógico, mas que ajudariam em muita coisa. Na manhã de Sábado, dia três de setembro, paramos em um posto, já no estado de Minas Gerais, não passava das dez horas. Encostou ao lado de uma árvore, ao lado esquerdo do restaurante. O caminhão parecia estranho, dizia o motorista, cujo nome não me recordo há muito tempo. Era algum problema com o motor. Descemos todos para ver o que acontecia, o motorista abriu o capô e começou a olhar aqui, mexer ali. Liga, desliga, acelera, puxa esse cabo, sente o cheiro do óleo... e nada feito, o motor não rendia como de costume e parecia piorar. Estávamos perto de um pequeno município chamado Aventureiro. Decidiram que almoçariam e na parte da tarde procurariam por algum mecânico, era bom deixar o motor desligado para descansar e esfriar um pouco, o ritmo estava muito puxado, passamos muito tempo rodando e forçando o motor. Eles foram, então, almoçar e eu não fui convidado, o que achei de certa forma até bom, não queria me prender e depender deles pra tudo. Comprei alguma coisa baratinha pra comer, aproveitei pra tomar um bom banho e fiquei circulando pra conhecer um pouco do lugar.

A tarde passara, os mecânicos que encontraram só podiam vir dar uma olhada no caminhão, no dia seguinte, pela manhã. Não nos restava fazer muita coisa, além de esperar. Jantaríamos logo cedo para assim também dormir, era preciso descansar, aproveitando a oportunidade. Eles foram jantar, por volta das dezenove horas, eu fui convidado dessa vez, e procurei passar uma imagem de bem educado e cordial, falei um pouco sobre o meu curso de jornalismo, sobre os dias no Posto e Acessórios Presidente, e o suposto assalto que acarretou nisso tudo que se passava. Pedi ao motorista que ao retornar por lá, desse ao Josepe os meus agradecimentos por tudo que fez por mim e meus companheiros. Será que eles já haviam conseguido carona? Nesse jantar foi onde tivemos a oportunidade de nos conhecermos melhor. O rapaz, dono do carro que me levava, tinha o apelido de Perna. Certamente devido à sua deficiência na perna direita. O motorista, que lamento não me lembrar seu nome, morava em Salvador, iria até Esplanada deixar o carro do Perna e voltaria para sua terra natal, onde descarregaria o caminhão. A carga eu não soube do que era, a conversa tomou outro rumo e não chegamos a comentar sobre a mesma. Pouco após o jantar fomos cada um para o seu lugar e procurar dormir, não havia muito o que fazer por ali. Fui dormir encucado com um detalhe colocado pelo motorista, que tinha a ver com o motor do caminhão. Para ele o caso não era tão simples, e deveria ser algo para uma oficina mais especializada, certamente os mecânicos que viriam na manhã do domingo não teriam condições de sanar o problema por completo. Não estava duvidando da competência deles, só dos recursos. Talvez só sairíamos dali na segunda-feira.

Acordei bem cedo, desci do carro, não trouxe a mochila, caso surgisse alguma novidade eu voltaria para pegá-la. Os dois que dormiram na cabina e lá viajavam, não pareciam ter acordado. Fui rapidamente ao banheiro escovar os dentes e fazer as necessidades fisiológicas matinais. No restaurante tomei um cafezinho, e fui na direção dos caminhões estacionados no pátio. Perguntava aos seus ocupantes, que haviam acordado há pouco e se preparavam para partir, se iriam para os lados do nordeste. Aqueles que diziam estar “subindo” eu contava a semana em São Paulo tentando carona, e perguntava se poderiam me levar com eles o mais perto da cidade de Campina Grande. Ninguém se mostrava nem um pouco comovido com minha história, nem disposto a ceder o que lhes pedia. Era “não!” e pronto, não adiantava insistir. Mesmo assim fui seguindo de caminhão em caminhão. Encontrei com o motorista de uma “cegonha”, ia direto para a cidade onde eu morava, mas não podia me levar. O seu caminhão não tem assento de carona e sua categoria é expressamente proibida de dar caronas, sem distinção de parente ou não. Caminhoneiro tinha, ou tem, que viajar sozinho. Ainda comentei que iria sentado no assoalho do caminhão, ou dentro de algum dos carros que ele carregava. Sem efeito. Disse sentir muito e me desejou sorte, além do mais eu já estava com uma carona nas mãos. Na realidade quem sentiu mesmo foi eu ao ver o caminhão que poderia me levar direto e reto para casa, ir se distanciando na estrada. Eu havia dito até que conhecia a concessionária para onde iam os carros, mas se algum fiscal me flagrasse dentro da cegonha, não importava onde fosse, o motorista perderia o emprego, e eu a carona. Vi a melhor carona que poderia ter me surgido ir embora, e voltei para o caminhão. Os dois na cabina pareciam ainda dormir. Puxa! Que sono!

Por volta das dez horas da manhã o motorista do nosso caminhão apareceu, havia ido procurar por algum mecânico. Acordou bem cedo, antes que eu, deixou o Perna dormindo na cabina e foi ver se conseguia socorro para o problema no motor. Encontrou dois mecânicos que só poderiam vir na segunda-feira. Passaríamos o domingo naquele fim de mundo. E como primeira diversão do dia fomos tratar de preparar o almoço que seria feito com a comida que havia na mini cozinha pendurada no meio da carroceria. Cada um fazia uma parte e logo o almoço estava pronto. Uma comida simples, sem muita fartura, mas gostosa, bem temperada e forte. Foi um almoço bem divertido, conversamos e rimos muito. Terminamos de comer, limpamos e lavamos tudo, quem tem o costume procurou um canto pra fazer a sesta. Eu fui ver televisão no restaurante. A tarde passava sem nenhuma graça, um marasmo entediante, só cortado com algum carro que parava para que seus ocupantes comprasse algo de comer ou beber. Lá pelas dezessete horas um grupo de crianças entra no restaurante com balões e comidas de aniversário nos mãos, o pessoal do restaurante se mostrou admirados com a chegada deles. Porque chegaram tão cedo? A festa já havia acabado? Sim, a festa acabou mais cedo, pois um homem esfaqueou outro no meio da festa, depois de uma briga. Era um aniversário de criança, e acabou com um corpo estirado no chão todo ensangüentado. É, o lugarzinho por ali parecia ser meio barra pesada, era bom eu ter mais cuidado com o que falar e pra quem.

À noite assisti um pouco de televisão e fui dormir. Pensei que por aquelas horas eu já deveria estar bem longe, se o cegonheiro tivesse me cedido a carona. Não podia deixar de lamentar tal falta de sorte. Envolto nestes pensamentos fui adormecendo, a posição era a mesma sempre, encostado de lado na minha mochila. O cansaço de dormir só de um jeito, em uma posição, sem poder me mexer, já ia aparecendo, mas tinha que me conformar e aproveitar que não estávamos em movimento, relaxar e descansar me preparando para o próximo dia.

Segunda feira, dia cinco de setembro. A manhã não trouxe novidade e nós esperando os mecânicos surgirem e seguirmos viagem. Eles apareceram pelas onze horas, depois de ouvirem do motorista o que havia ocorrido com o caminhão, foram abrindo o capô, vendo aqui, puxando ali, sentido o cheiro do óleo, liga, desliga, e anunciaram que não poderiam fazer muita coisa, iriam dar um jeito, fazer um paliativo, para chegarmos ao menos em uma oficina mais equipada, em Muriaé, há alguns quilômetros à frente. O problema, segundo eles, foi que o motor “bateu”. Eu até então, pensava que um motor batido não funcionava. Mas nunca entendi muito de mecânica, e eles é que eram os profissionais ali, deveriam saber o que estavam falando. E pouco tempo depois de novas tentativas, e de muitas ferramentas, o motor estava funcionando novamente, para mim, leigo no assunto, normalmente. O que me chamou a atenção foi o forte sotaque dos dois, muito puxado pro caipira, aquele bem caricaturado mesmo. A maioria das palavras deles eu não entendi, e creio que meus companheiros também não. Parecia um dialeto. Mas uma coisa não se pode negar: eram bons profissionais, não demoraram a por o motor em funcionamento e nos preparamos para pegar a estrada para tentarmos só parar em Muriaé, na tal oficina. Foi só pagar pelo serviço, e irmos embora, não podíamos perder tempo com nada.

De onde eu viajava tinha-se uma visão privilegiada, e eu usufruía ao máximo disto. Como eu ficava o tempo inteiro só, me sentia bem a vontade, até conversava comigo mesmo. Ficava lá, cantando, e ensaiando as conversas que teria com meus amigos e amigas quando voltasse de vez a Campina Grande. Quando passávamos por uma ribanceira, havia um certo temor, a visão que tinha era mais abrangente que a de dentro do caminhão. Mas o que eu fazia era mesmo curtir as mais variadas e belas paisagens. Comparava alguma anterior com uma mais recente e de certas diferenças. Vi muitas árvores, serras, montanhas, pedras enormes e todo tipo de gente que, ou passava pela pista, no acostamento, ou nos carros, nas cidades que ficavam para traz. Eu ia bem tranqüilo com o banco reclinado, olhando as árvores que ladeavam a pista, quando o veículo foi perdendo velocidade. O quê acontecia? Me sentei e vi uma fila de carros a nossa frente, haviam uma placas sinalizando obras na pista, e uns homens vestidos com boné, calça comprida e camisões, agitando umas bandeiras vermelhas, pedindo baixa velocidade. Paramos, e eu que estava com vontade de urinar, e me preparava pra descarregar no velho saco plástico, desci, avisei aos caras na cabina que ia urinar e que me esperassem um pouco. Tudo bem! Estava eu, bem escondido rente ao caminhão, devido as vários carros que já se enfileiravam após a nossa parada, aliviando as tensões, quando o caminhão começa a se movimentar, acompanhando a fila que evoluía. Fui obrigado a terminar andando atras. Coisa mais ridícula e embaraçosa. Finalizei, nem esperei as últimas gotinhas e guardei “as partes” e saí correndo, o caminhão aumentava a velocidade, alguns carros já passavam por mim. Procurava ficar na reta da visão do Perna pelo retrovisor, mas o desgraçado não me via, e nem eu o via pra saber se fingia em não me ver ou não. A minha mochila havia ficado dentro do carro, com todos os meus pertences, dinheiro, documentos, as roupas limpas, pois continuava com o mesmo pensamento de não sujar roupas. Afinal, pra que eu sairia com a mochila, se minha intenção era só urinar e voltar? O caminhão se afastava e eu me desesperava. Ficar naquele lugar, sem nada seria pior que ficar no posto, em São Paulo. Eu vou é alcançar o caminhão e voltar pra casa. Saí correndo, e vi os carros irem parando, eu passando por eles até chegar no que eu queria. Fui direto até a cabina e perguntei se queria me deixar pra traz. Ele olhou pra mim com surpresa. O que eu estava fazendo ali?! Eu não estava dentro do carro? Eu quase ficava para traz. Sorte que o pessoal da obra parou novamente o tráfego. Não chegamos a trocar palavras, fui subindo rapidinho de volta para o meu lugar na viagem, e depois de alguns minutos retornamos a jornada. Agora só parando na entrada da cidade de Muriaé, onde saímos da pista e adentramos o pátio de uma oficina, estacionamos, descemos todos e o problema no motor foi sendo relatado pelo motorista. Nós saímos do posto em Aventureiro por volta das treze horas e chegamos à oficina por volta das dezesseis horas e trinta minutos. Eu e o Pena fomos pro restaurante comer alguma coisa e passamos boa parte do tempo sentados em uma salinha ao lado do balcão do restaurante, assistindo televisão. Conversamos pouco, ele parecia não querer fazer qualquer laço de amizade comigo, como querendo que permanecesse a situação distante de quem está cedendo a carona e o caronista, uma relação forçada pelas circunstâncias, de breve duração.

Ainda bem que a nossa permanência ali foi relativamente breve, pelas dezessete horas, o motor já parecia estar consertado e nós nos preparávamos para continuar viagem. O nosso motorista pagou pelo serviço, cada um em seu lugar e lá fomos nós de novo. Sem poder forçar muito, mas tendo perdido muito tempo, o asfalto voltou a ser nosso companheiro e desafio a ser deixado para traz. Os tracinhos amarelos iam passando, assim como os segundos, minutos e horas, a noite nos abraçou com a escuridão característica das auto-estradas. Algumas poucas cidades davam um contorno diferente e iluminado ao caminho. Lombadas, sonorizadores e placas, agora, com o tempo perdido, elas se tornavam mais raras ainda. Eu achava ótimo, só que ficar muito tempo sentado também cansa, e ia mudando de posição, tentava dar uns cochilos, e ao perceber que nos aproximávamos de uma cidade, me erguia e olhava tudo pelas janelas e pára-brisas. As frestas em baixo do painel do carro já todas tampadas com plásticos e o vento por ali havia diminuído muito. Eu tinha pego, ainda no apartamento do Chôla, uma garrafa de dois litros de refrigerante Fanta, e nas paradas eu a enchia de água para beber quando estivéssemos em movimento. Se dava vontade de urinar, o saquinho plástico era a solução. Pegava um dos que estavam enfiados na fresta do painel, um saquinho de biscoitos polvilho, seco, urinava dentro e jogava pela janela afora. Deixava o saco levar muito vento pra secar um pouco, sacudia bem e voltava pro lugar de sempre, tampando o vento que entrava por debaixo do painel do carro. Vinha fazendo isso desde a manhã de Sábado, antes de nossa parada em Aventureiro.

Havíamos adiantado bastante a jornada, sem interrupções, e era preciso dar um tempinho pra abastecimento tanto do caminhão, quanto de nós. E encostamos em um posto de combustível. Aproveitei o tempo para comer alguma coisa no balcão do pequeno restaurante. Tinham uns bolos de preço bem em conta, pedi um. Estava uma delícia. Tenho que assumir, sou um admirador e apreciador inveterado de bolo. Acho que nesta parada comi uns quatro ou cinco pedaços. Tinha uns homens sentados em um banco no lado esquerdo do balcão, mas não lhes dei atenção, é bom evitar qualquer tipo de contato duvidoso por aquelas horas, além de que não podia me prender em conversas, era comer e voltar pro carro. Esta parada foi ótima pra esticar as pernas e respirar melhor, movimentar um pouco. Meia hora depois, mais ou menos, retornamos a estrada, e seguiríamos sem novas interrupções até pela madrugada, em um novo posto. Fomos para o restaurante, tomamos café e um motorista, aparentemente de caminhão, com certa familiaridade, cumprimentou nosso motorista e foi logo dizendo que eu era um grande comedor de bolo. Como ele sabia disso? Este cara comeu uns vinte pedaços de bolo lá pra traz. Disse ele. Que exagero! Só comi no máximo cinco. Mas uma coisa ficou de lição, o mundo é realmente pequeno, pois ele era um dos homens que estavam parados perto do balcão em nossa última parada, horas atrás e se eu tivesse sido desagradável na parada anterior, com certeza agora o troco seria dado. Não se deve pensar que indo embora o problema está resolvido. O rapaz não tinha nenhum motivo pra criar caso conosco, o que fizemos foi trocar algumas poucas palavras, ele foi jantar, creio eu, e nós retornamos a estrada. Desta vez ficou no ar um certo receio devido ao aviso de nosso motorista de que aquele pedaço da estrada que pegaríamos em breve, uma subida bem forte, é um pedaço perigoso, onde vários assaltos de cargas já haviam sido realizados e muitos companheiros já haviam perdido as vidas. E, no meio da conversa, deu-me o aviso de ficar bem acordado lá em cima, e que me daria um revolver para se caso eu visse alguma pessoa subindo pela carga, eu podia meter bala. Confesso que fiquei apreensivo com o risco que assumiríamos. E fomos afinal para o asfalto. Nessa parada também fiquei sabendo que os dois estavam revezando a direção, por isso que estávamos passando tanto tempo rodando. Enquanto um dirigia o outro descansava. Até me perguntaram se eu sabia dirigir, como a resposta foi negativa, não fui incluído no esquema de revezamento da direção. Mas, tenho quase certeza de que eu não dirigiria o caminhão nem se soubesse, eles não iriam confiar tanto assim em mim, eu ainda via alguma desconfiança neles comigo. Tanto que não me passaram o tal revolver para eu levar lá em cima, como segurança. E se eu aproveitasse justamente esta arma pra rendê-los e tomar a carga? Não, eles não seriam tão ingênuos! De certo modo, achei até bom não terem me passado a arma, nunca fui apreciador de armas, guerras, exércitos e todo e qualquer gasto feito com algo que tenha a ver com isso.

Fechei bem as janelas e não tirava os olhos do escuro dos acostamentos. Estava realmente assustado. O caminhão subia em baixa velocidade, o cenário era perfeito para emboscadas mesmo. A pista estreita, com pequeno acostamento, e encostas dos dois lados, sem contar a subida que força o veículo a baixar muito a velocidade. Eu pensava em mil possibilidades, poderia ficar observando tudo, como eu estava fazendo, ou me esconder no carro e servir de um elemento surpresa. Mas que surpresa? Nem o prometido revolver eu tinha! O que eu poderia fazer contra gente especializada no ramo de abordar veículos como o nosso, levar as cargas para onde quiserem e sumirem com seus ocupantes? Inclinei o banco pra traz e me deitei, pensava que seria melhor se os supostos assaltantes não me vissem. Fiquei naquela posição por um bom tempo, até o caminhão parar. O que será que aconteceu? E agora? Me levanto ou fico aqui? Tinha que acontecer logo conosco? Eu tinha que saber, ver algo, e fui me erguendo aos poucos. Tive medo de ver alguma coisa mais grave. O que vi foi a traseira de um ônibus parado a nossa frente. Os meus companheiros estavam no chão conversando com algumas pessoas. Deveria ser umas duas horas da madrugada, o clima era ameno. Desci pra ver o que havia ocorrido, fui na direção das pessoas. Quase não passava carro por ali, uma estrada perigosa mesmo. O que aconteceu não deixa de ter o seu lado trágico. O ônibus havia atropelado uma capivara, ela estava estirada no chão, atras do ônibus e à frente do nosso caminhão. O motorista do ônibus perguntou se o nosso motorista queria levar o animal. Não havia espaço. Insistiu, mas a resposta foi a mesma. Decidiu levar o animal. Abriu uma das portas dos porta-malas que se estendem nas laterais do ônibus e, com a ajuda de mais umas duas pessoas, jogou o animal morto lá dentro. Disse que ia deixá-lo em um restaurante mais à frente, pedir para prepará-la e na volta a comeria assada ou cozida. Triste fim de um animal que atravessava a pista, uma intrusa em seu próprio território. Ou será que a pista já estava lá antes das capivaras?

Como não foi um acidente mais grave, com mais vítimas, e o problema com o cadáver do animal resolvido, voltamos para nossa viagem antes que o ônibus saísse. O rodízio dos motoristas estava funcionando, o percurso estava sendo feito com progressivo adiantamento. E com o trecho mais perigoso já transposto, relaxei e procurei dormir. Só acordava para dar uma urinadazinha. Repetia o ritual com o saquinho plástico e voltava ao sono. E só pela manhã, com os primeiros raios do sol, foi que me dispus a acordar de vez, o pensamento de toda a viagem de ver e guardar na memória tudo o que fosse possível, continuava comigo. Já que o descuido de não colocar uma máquina fotográfica em nossas mochilas foi um fato, pelo menos na memória poderíamos e deveríamos registrar todo o possível. Quando me estiquei para espreguiçar, vi uma paisagem linda, umas montanhas ao fim de um vale verde, o Sol dando um belo contorno amarelo e azul, mesclando com vermelho, e umas nuvens baixas esbarravam as montanhas. Era muito cedo, mesmo assim o caminhão foi adentrando um pátio de chão batido e de um barracão feito de barro, palha de coqueiro e ripas de madeira. Paramos afinal, depois de uma longa jornada desde que nos deparamos com o ônibus que matou a capivara. Desci rapidamente, estava louco pra me esticar direito. Cheguei a por os pés no chão primeiro que os dois. Achei estranho termos parado naquele lugar, algum problema com o motor? É que sempre paramos em postos de combustível! A resposta veio do motorista. Ali vendia a melhor carne de charque do mundo! Puxa! Aquele casebre perdido no fim da estrada, num fim de mundo daquele, sem casa nenhuma por perto, só ele e o mato, árvores e atras as montanhas, fazer a melhor carne de charque “do mundo”?! Bem, exageros à parte, entramos no casarão rústico, à frente um balcão de bambu, umas mesas com cadeiras, tipo um bar ou restaurante, e do nosso lado direito uma grande mesa com vários pedaços de carne de charque. O cheiro da iguaria impregnava o lugar. O motorista parecia ser velho amigo e freguês do local, já foi cumprimentando as pessoas que estavam atras do balcão e se dirigindo pra mesa com os pedaços de carne, escolhendo alguns pedaços, o mesmo fazendo o Perna. Me convidaram pra escolher uns pedaços pra mim também, mas como não comia carne de espécie alguma não havia motivo pra carregar comigo um pacote sem a menor utilidade pra mim. Já pensou como seria a noite dentro do carro com as janelas fechadas, devido ao vento e frio e um pacote daquela carne de cheiro forte?

Pagaram pela mercadoria, pegaram os pacotes e tão logo estivéssemos cada um, em seu lugar, caímos no mundo. A previsão era de chegarmos em Esplanada, dia Sete de Setembro, ou seja, no dia seguinte, e para isso a pressa era imprescindível. Eu pensava o tempo todo em meus companheiros que ficaram em São Paulo. Não sabia se ainda estavam lá ou não. Os pensamentos iam e vinham em minha mente. Era a única coisa que eu fazia enquanto estávamos em movimento. Não tinha nada com que passar o tempo, além de ver as paisagens, as pessoas e tudo mais que passavam por nós. Será que voltaria a passar por aqueles lugares? Lugares bem peculiares, como o Posto Papai Noel, em que paramos brevemente para abastecimento, tomar um café e ir ao banheiro. Achei um posto muito modesto para a quantidade de propagandas que foram colocadas ladeando a pista desde muito longe. Placas de todo tamanho e cor iam informando aos viajantes a proximidade do posto e seus serviços. Ao passarmos, sem parada, pela estrada que corta a cidade onde o tal posto está situado, vi sua principal atração de lá, os cristais de todo tamanho e cores variadas, vendidos em barracas montadas na beira da pista. Crianças, adultos e velhos oferecem e vendem suas peças. Tive vontade de descer e conhecer melhor aquele costume daquele povo. Conversar com as pessoas, e saber suas histórias. Mas, eu não era louco pra gritar lá de cima pra pararem o caminhão. A vontade de voltar pra casa era maior que qualquer curiosidade. Até porque eu não estava fazendo um turismo, nem uma dessas viagens de aventura em que a pessoa sai com dinheiro na carteira, cartão de crédito, vários contatos em várias cidades como apoio e a possibilidade de ficar em pousadas e albergues. A minha situação era bem diferente e crítica, não tinha o luxo de escolher qualquer coisa. Ou era o que tinha em mãos ou nada. Então não podia perder aquela carona por nada. Já pensava no dia seguinte em Esplanada, já tinha me informado com o Perna sobre um bom lugar pra pegar carona pra Campina Grande ou para o mais próximo de lá. A ansiedade de estar de volta já no dia seguinte tomava conta de meu interior, queria ver todos os conhecidos, pisar na cidade, conversar sobre a viagem. Rever pessoas como Adriano Caminha, Fábio Rolin e, lógico torcia para que meus dois companheiros de viagem já estivessem retornado.

A velocidade foi diminuindo e em seguida fomos na direção de um casarão de madeira e alvenaria. Havia um bom número de caminhões de todo tipo, cor e marca estacionados nesse local. Era um restaurante e pelo jeito de ótima comida, parecia muito freqüentado. Descemos, o motorista disse-me que almoçaríamos ali, que se eu quisesse daria tempo de tomar um bom banho em um dos banheiros ao lado de estacionamento, onde a água vinha direto de uma mina lá em cima de um morro por um cano. Água de primeira qualidade, o banho ali era o melhor de toda a viagem, e é sempre bom aproveitar as oportunidades. Fiquei receoso em ir tomar banho e deixar minhas coisas no carro se eles não me acompanhassem. O pessoal do posto lá de São Paulo contava várias histórias que alguns motoristas faziam com os caronistas, principalmente com as mulheres. Eles contavam que os caras cedem a carona pra mulher, passa uma imagem de ser um cara muito legal, mas quando estão em um pedaço em que ele sabe ser deserto, ele faz de tudo pra que a mulher tenha relações sexuais com ele, as que não cedem ficam por ali mesmo, ou seguem em frente, como se nada tivesse ocorrido, o que acontece com as que caem nas conversas bem intencionadas do santinho motorista e têm relações com ele. Quando chegam a um determinado posto de combustíveis, o motorista avisa que vai demorar um pouco, que se a moça quiser tomar banho pode ir sossegada, ele a espera. Não é preciso levar suas coisas. Se a coitada for, ao retornar só encontrará, no máximo, suas bagagens no lugar onde estava o caminhão que a deixou ali. Isso também acontecia com caronistas homens, que mesmo não sendo atrativo sexual para os caminhoneiros podem ser vítimas de pessoas covardes e que agem de má fé. Fiquei naquela de esperar pelo o que eles iriam fazer, pra só daí eu me manifestar. Disse que estava pensando. Não sei... Acho que sim, penso que não. Mas quando disseram que eu fazia o que achar melhor e que iriam correndo pros chuveiros, falei meio despretensioso que iria também. E realmente fez muito bem aquele banho, a água estava ótima, os chuveiros daqueles grandes que deixam cair muita água.


O que achava ruim era tomar banho e ter que vestir as mesmas roupas. A calça comprida foi a única que levei para a viagem, e como não queria que vissem minhas tatuagens na perna direita, tinha que vesti-la mesmo já num estado terrível de sujeira. Por ser de cor cinza, as manchas não apareciam, mas eu sentia e sabia do estado da calça. As cuecas eu as lavava sempre que tomava banho, e as punha pra secar penduradas pela janela do carro, o vento e o Sol faziam o serviço rapidinho. Troquei a camisa que usei durante a viagem de vinda para São Paulo que foi a mesma que fiquei no Posto Presidente. Mas vinha usando-a desde que saí de lá. Mesmo assim não parecia estar fedendo, chegava a tomar até dois banhos por dia, era ter o aviso de uma parada mais demorada e corria para o banheiro me refrescar e higienizar. E esse banho foi ótimo, deu uma renovada geral, se eu fosse convidado para o almoço seria o complemento perfeito para que voltasse para a estrada pronto para tudo dali pra frente. Saí do banheiro, deixei minhas coisas dentro da mochila no caminhão e fiquei circulando pelo pátio, admirando as maravilhas de carretas que estavam estacionadas junto ao nosso caminhão que parecia até um fusquinha perto a certas monstruosidades com ar condicionado, antenas enormes, aerofólios, e todo tipo de acessórios. Fez-me lembrar do serviço do pessoal que acompanhei durante uma semana antes de encarar esta viagem de retorno para casa. Eu estava perdido em meus pensamentos em meio às gigantescas carretas quando ouvi o Perna me chamando. Tá na hora da “bóia”! Convidaram-me, afinal. Que bom! Estava morrendo de fome, a barriga já parecia uma orquestra sinfônica de tanto reclamar por comida. Não contei conversa, fui correndo. Só que acho que fizeram de propósito, o almoço, depois de tanto tempo, seria numa churrascaria. E eles sabendo do meu desapego a carne, pareceu que armaram pra ver o que eu faria, se comeria as carnes ou ficaria com fome. Quando a comida começou a ser servida, mandei ver, joguei pra dentro bons pedaços de carne, me reservando apenas às bovinas, uma vez que as suínas me fazem muito mal. Ainda perguntaram se eu era mesmo vegetariano, se comeria o que nos era servido, e ironias do gênero. Respondi que estava com muita fome, e que não podia me dar ao luxo de escolher o que comer. Se eles estavam fazendo o favor e gentileza de pagarem o quê eu comer, eu não deveria ser arrogante e exigente em rejeitar o que ofereciam. Sou vegetariano sim, mas, como tal sou racional, e naquele momento comer as carnes estava sendo uma questão de sobrevivência, e sem dúvida, de educação para com eles. A reação deles foi de concordância. Tá certo! E o almoço foi de um bom humor e fartura digna de um encontro de três velhos amigos.

Fizemos uma pequena pausa após o almoço e voltamos pro asfalto. A previsão era de chegarmos a Esplanada pelas nove horas da manhã. Saímos da churrascaria umas treze ou quatorze horas, ainda havia muito chão a percorrer e passamos toda a tarde em movimento, só fizemos uma rápida parada em um posto de combustíveis para um abastecimento e vistoria dos pneus, já na Bahia, mas não demoramos quase nada ali. Era por volta das dezesseis ou dezessete horas de terça-feira, e eu ainda me sentia sem fome, talvez pela quantidade de carne que comi. A digestão desse tipo de comida é bem mais lento e um consumo diário, e em excesso, pode gerar até um câncer estomacal, devido à putrefação de certos resquícios de carne no estômago, que por sua vez não dá conta de digerir tudo antes que uma nova carga chegue. Como eu não tinha o costume de consumir esse tipo de alimento, me senti pesado, sonolento e até dormi durante a viagem. Nessa parada rápida descobri uma coisa que tive que correr pra não deixar os outros verem. A urina que eu jogava pela janela quando estávamos em movimento, estava manchando a lateral do carro. Peguei a garrafa de água que eu reabastecia em toda parada que tivesse água boa, e joguei todo o conteúdo no carro, deu pra lavar bem, as manchas sumiram. A partir dali tinha que procurar diminuir as urinadas no saco plástico e tentar utilizar os banheiros de onde parássemos, só quando não agüentasse mais é que usaria o saquinho do alívio.

Pela noite, em uma das breves paradas me convidaram pra viajar com eles na cabina. Passei um tempinho com eles, não conversamos muito, acho que o sono já assolava todo mundo. Pra falar a verdade eu preferia ir lá em cima, tranqüilo, sem precisar me mostrar de uma maneira que talvez eu nem estivesse me sentido naquele momento. Pela madrugada, durante uma parada breve em mais um posto, voltei e rapidinho dormi. Quando não se tem nada pra fazer e se permanece na mesma posição por um bom tempo, os pensamentos logo se transformam em sonhos. Faltava tão pouco! O posto de combustíveis onde o Perna disse ser o melhor lugar para se conseguir uma carona pros lados de Campina Grande, já estava em minha mente. O negócio era dormir mesmo pro tempo passar sem eu perceber. O ritmo da viagem ajudava bastante pra dormir. Fizemos uma parada em Feira de Santana, o motorista queria por uma lanterna dianteira direita nova. Estacionamos ao lado da loja de acessórios, bem menor e modesta que a minha hospedeira da semana anterior. Como de costume, desci e fui movimentar as pernas, conhecer o lugar. Apesar de não ser um galpão muito grande, a quantidade de acessórios pendurados por toda parte era impressionante. Adesivos, pára-lamas, faróis, faroletes, antenas, espelhos e todo tipo de bugigangas e penduricalhos que um caminhão possa carregar, estavam expostos por todo lado e de todo jeito. Adesivos de santos tinha pra todo gosto e crença. Apenas os nomes ou com as fotos das mais variadas expressões. Fui vendo tudo e saindo da loja, pois os mostruários estavam pelo lado de fora também. A loja parecia ser das do tipo vinte e quatro horas, pra atender a todos o tempo inteiro. Acompanhei o final da operação de pôr a lanterna, os testes e quando vi estava tudo em ordem, subi para o meu lugar, não queria nem atrasar a saída, nem receber novamente o convite para acompanhá-los na cabina. Assim que os últimos acertos foram feitos, lá fomos nós de novo.

O dia sete de Setembro começou chuvoso. A água caia do céu sem dó. A estrada sempre fica bem mais perigosa nestas condições. Todo cuidado é pouco para se evitar um acidente. E não tardamos a nos deparar com o primeiro acidente que encontrei em toda esta aventura. Um caminhão havia tombado na pista. Era um bauzinho carregado de grandes folhas de papel. Muitas delas se espalhavam pela pista e em certo ponto se fazia uma pasta de tanto os carros passarem por cima. Fizemos uma rápida parada, só pra ver como estavam os ocupantes do caminhão acidentado. Só um motorista vinha no mesmo, e assumia que havia dormido ao volante, o que o fez perder o controle do veículo, o fazendo tombar quase no meio da pista. O tráfego por ali não parecia ser de grande fluxo, mesmo assim houve um certo acúmulo de carros nas duas mãos, principalmente por ser de pista dupla. Como o senhor aparentemente de quarenta anos de idade não sofrera ferimento algum, nós tratamos de partir o quanto antes, para desimpedir um pouco o tráfego. A chuva continuava a castigar. Eu ficava observando tudo lá de cima, como sempre. E ao passarmos por uma cidade, que se não me engano, chama Três Rios, vi dois caras se escondendo da chuva, bem mais fraca neste momento, em uma parte de uma antiga guarita, do que parecia ter sido uma industria no passado, e hoje não passa de ruínas. Logo deduzi que não estavam apenas se protegendo da chuva, estavam matando o tempo fumando um “fininho”, um baseado. Eles também me viram e quando fiz um certo gesto com o braço esquerdo e a mão, eles ficaram eufóricos, começaram a pular e a me chamar. Não sei ao certo o real sentido do convite, se para acompanhá-los a fabricar fumaça, ou se pensaram que eu poderia ser alguma ameaça à paz deles. Mas a primeira hipótese pareceu mas convincente. Mas, claro, eu não ia perder a carona, pedir para parar e ir “me esconder da chuva” com os figuras!



O tempo nublado e a chuva não parecia querer dar trégua. E por volta do meio dia, uma hora da tarde, fomos parando em um posto de combustíveis. Tinha a aparência de recém estruturado, com muito espaço vago e bem simples e rústico. Estávamos, finalmente, na cidade de Esplanada. Descemos e o Perna foi me dando a notícia, agora com certo ar de indiferença para comigo. É como se sentisse no seu pedaço e ali ele manda. Por mim ele podia mandar no que quisesse, eu só queira ir embora. Disse que eu já podia pegar minhas coisas e tentar pegar uma carona para Campina Grande ali mesmo. Ele queria era se livrar de mim, senti isso sem demora ou dificuldade, e eu já subi no carro, peguei minha mochila que estava prontinha, só esperando por este momento, tirei os sacos plásticos que coloquei por baixo do painel, desci, os joguei num balde de lixo encostado numa das pilastras do posto e fui me despedir e agradecer por tudo que fizeram por mim. Mas o motorista disse que precisava de mim para ajudar a tirar o carro de cima da carga. Sem problema, vamos lá! Disse ainda que havia um posto, um pouco mais à frente, que lá sim eu conseguiria uma carona com mais certeza e rapidez. Depois de descermos o carro ele me deixaria lá.

O caminhão foi encostando de ré em uma plataforma de terra, o Perna foi de motorista e o dono do caminhão guiando. Mas não chegaram nem a iniciar a operação, descobriram que a carga havia afundado, alguém mais leve trocaria de lugar com o Perna, e eles levantariam o carro para que saindo do buraco da carga, os pneus pudessem rodar sem dificuldades. Só um dos pneus estava atolado, mesmo assim se forçasse a saída machucaria a carga, que por sinal até hoje não sei do que se tratava. Pediram para eu dirigir o carro, enquanto eles ergueriam o carro. Como não sabia dirigir, me recusei. O que os contrariou um pouco, tinha que ser eu, por ser o mais magro ali, consequentemente o mais leve. Insistiram em eu ser o motorista na retirada do veículo e eu explicava que não tinha nenhuma noção do que fazer. O perna deixaria tudo no ponto e eu só precisava pisar de leve no acelerador. Não, nada me fazia mudar de idéia. Eu já estava ferrado e se algo acontecesse com o carro, como eu ia ter condições de pagar? Insistiram mais e só quando eu pedi atenção e falei um “não” bem convincente foi que se convenceram de que eu não ia entrar mais naquele carro, principalmente por aquele motivo. Sugeri que colocássemos uma tábua como apoio para a roda, por baixo dela, um levantaria o veículo. A idéia foi bem recebida e logo posta em prática. Deu certo, se tivessem pensado nisso antes teria se evitado a falação para eu entrar no diabo do carro.

O carro do Perna no chão, o caminhão pronto para seguir viagem, os acertos entre os dois foram feitos e eu me despedi e agradeci por tudo ao Perna, que ficaria ali esperando seu irmão que viria de Esplanada para rebocar o carro que foi minha casa durante os últimos cinco dias. Realmente o estado dele não era dos melhores, o motor parecia mais ou menos, mas sem condições perfeitas de assumir uma estrada ou rua. O motorista que nos levou até ali ainda me levaria ao posto onde tentaria a sorte de chegar definitivamente em Campina Grande. Meia hora depois, aproximadamente, paramos no tal lugar. Um bom movimento de carros, foi logo o que me chamou a atenção. É, acho que ali não vou demorar uma semana pra sair. Segundo meu companheiro eu deveria partir dali ainda naquele mesmo dia. E tratei de desimpedi-lo, alertei de sua mão calejada da labuta no volante e da vida pesada de seu ofício. O agradeci sem ter palavras para expressar minha gratidão, peguei minha mochila, desci do caminhão e depois de acenar com as mãos em sentido de adeus, fui de encontro às dependências do novo posto. A primeira pessoa que encontrei foi um frentista. Conversei com ele sobre as minhas necessidades e se ele poderia fazer algo para que eu conseguisse uma carona, se ele poderia conversar com seus clientes a meu respeito e solicitar-lhes uma carona para mim. Como ele já conhecia muita gente que por ali passava, seja para abastecer ou não, seria mais fácil ele conseguir algo do que eu, um forasteiro. Disse que não tinha permissão para arrumar carona para “Seu Ninguém”, mas se eu quisesse tentar, que faria vistas grossas. Estava com muita fome, fui primeiro ao restaurante tomar um cafezinho, que era grátis, com uma fatia de bolo. Na viagem que fiz de volta, até ali, continuei no esquema do “mangueio”, que na linguagem dos hippies é pedir, solicitar algo a alguém. E com isso pude arrecadar alguns trocados.

Procurei ser amigável com os atendentes da lanchonete, não sabia, o tempo que passaria por ali, e fazer amigos é sempre um lucro. Saí da lanchonete e fui ao banheiro. Escovei os dentes, tomei um banho, e para minha surpresa tinha um sabonete pouco utilizado na saboneteira em que entrei. Lavei-o bem e usei-o, ele não parecia estar ali por muito tempo, pensei sim em alguma possibilidade de contaminar-me com algum tipo de doença de pele, por isso lavei e deixei escorrer. Vestir aquela mesma roupa já estava me dando asco, mas o pensamento continuava, de não sujar as roupas. Fiz ainda a barba, arrumei bem os cabelos e me preparei para encarar mais uma maratona de conversas, pedido e conformismos pelas negativas. Ao sair dos banheiros procurei pelo frentista, disse que ainda nada, mas realmente não poderia fazer muito por mim, não me conhecia e preferia não se envolver em alguma possibilidade de eu ser um marginal disposto a roubar algum de seus clientes e conhecidos. Compreendi, e até hoje acho que agiu certo. Assim me restava apenas encarar mesmo, começar, e logo, as tentativas de pegar a estrada. Só que o cara não me permitiu ficar perto das bombas, onde teria melhor contato com os motoristas, se o gerente do posto me visse rondando e incomodando os clientes me mandaria sair de lá. Agora ficou mais difícil ainda, tinha que aproveitar os carros que paravam no estacionamento. Continuava com a predominância aos caminhões, achava que os carros pequenos não correriam o risco de colocar um estranho como companheiro pela estrada a fora. Não tinha tempo a perder, fui abordando os primeiros que iam estacionando, e os primeiros “não!” foram ouvidos. Muita gente ia para Esplanada, outros para as cidades bem vizinhas, não representava muita evolução. Esse posto onde eu estava ficava fora da cidade de Esplanada, na estrada, mesmo pertencendo ao município, mas ficava há uns dois ou três quilômetros de distância da cidade em si.

A tarde se avançava, a fome apertava e nenhuma perspectiva de conseguir sair de lá. Fui a lanchonete comer mais um bolinho com café. O atendente me informou que à noite talvez eu tivesse mais sorte, pois muitos caminhoneiros param para jantar e pousar no estacionamento, eu disse que queria sair dali ainda naquele dia, estava cansado de ficar na estrada e no meio do mundo há tanto tempo. Enquanto conversávamos olhei para a televisão, passava um jogo realizado no Pacaembú. O gramado estava muito desgastado ainda, devido ao show realizado no último final de semana, na Sexta-feira, para ser mais exato. O próprio locutor comentou o estado do gramado, e comentei com o atendente que eu estava neste festival que o locutor falava e me mostrei surpreso com o estrago, pois todo o gramado fora coberto com uns tapetes verdes, o que não evitou o estrago feito por tênis mais vorazes que as tarraxas das chuteiras do jogadores. E me passou pela memória o momento em que eu e o Sérgio, assim como muita gente se agasalhava debaixo desses tapetes, sentados no gramado, nos protegendo do frio que fez, mesmo com o Sol.

Chegou a noite e eu ainda sem nenhuma evolução. Se tivesse que passar a noite ali, se não conseguisse carona, a minha intenção era a de permanecer acordado, abordando os carros que por ventura parassem para o quê quer que fosse. Como iria dormir? Não havia um Josepe ali para dar o apoio que nos deu em São Paulo. Me senti um pouco desiludido por achar que aquele lugar não iria me proporcionar o que eu queria. Fiquei o dia inteiro e não tive nenhum contato com ninguém que fosse para os lados que eu desejava ir. Os carros que frequentavam aquele estabelecimento pareciam circular só pelas cidades por ali por perto, não pareciam fazer grandes viagens para os outros estados, por exemplo. Eu falava em cidades como Recife, Aracaju, João Pessoa, Caruaru e, lógico, Campina Grande. Mas, sem efeito, os destinos eram sempre ali por perto. Estava parado na porta da lanchonete, quando vi um caminhão baú adentrar o pátio e estacionar do lado esquerdo de onde eu estava. Peguei minha mochila e fui conversar com o motorista. Ia para Recife, disse que me levaria, só deveria demorar pra chegar lá, pois ia fazendo entrega dos móveis que levava no baú. Se não tivesse problema pra mim, ele ia jantar, fazer um “programinha” com uma das cozinheiras do restaurante, com quem ele mantinha um relacionamento e voltaria pra me pegar. Mas deixou claro que não o esperasse, podia ir tentando com outros carros enquanto ele não voltava. Chegando a Recife já estaria muito bom pra mim. Conhecia muitas pessoas lá, que poderiam me emprestar o dinheiro pra comprar uma passagem de ônibus de volta pra Campina Grande. Eu iria esperá-lo. Confiei nas palavras dele. Mas bem que poderia ter me convidado pra jantar com ele, eu estava com uma fome terrível, e os bolos com café aliviavam mas não estavam surtindo efeito, pela fome acumulada. É, fazer o quê? Fiquei o esperando jantar, e vi sair com o caminhão. A tal cozinheira saiu do restaurante e o ficou esperando no acostamento da pista.

A carona para Recife demorava, eu já supunha que o cara não ia voltar pra me pegar coisíssima nenhuma, e já me prontificava a reiniciar as conversas com outros motoristas. Enfrentar a noite inteira e ainda ter o dia seguinte pra me manter de pé e ativo, era uma idéia nada agradável, sorte que o clima estava bom, nem tão frio, nem calor. Um carro pequeno estaciona perto de onde o caminhão que me levaria a Recife estava. Não me recordo se era um Chevete, creio que sim. Depois de tanto tempo, a memória realmente falha para tantos e pequenos detalhes. Esperei um pouco para ver qual seria a atitude dos dois únicos ocupantes. Eu já pensava em abordar até os carros pequenos, mesmo tendo consciência da dificuldade em conseguir carona durante a noite. Os dois homens, um mais alto de bigode e o outro mais baixo e meio gordinho, entraram na lanchonete. Pediram um café e alguma coisa pra comer. Eu fui me chegando, perguntei para onde iam. João Pessoa foi a resposta. Não é possível, para João Pessoa! Tinha que ser essa aí! Falei que eu estava tentando chegar à Campina Grande, que morava lá, dei mostras de conhecer, e bem, a cidade. Expliquei onde eu morava, que fazia faculdade e mostrei os documentos. Não pareciam muito comovidos e comentaram que o fato de ter mostrado os documentos não me ajudaria em nada, muito pelo contrário, só tratava de um ato que os marginais sempre utilizam. Talvez se eu tivesse mantido os documentos na carteira e não os exposto, eu os convenceria melhor. Como eu ia saber disso? Se eu soubesse que mostrar os documentos é sinal de marginalidade e má índole, eu iria fazer isso? Eles se disseram delegados em João Pessoa e que conheciam bem o perfil de um indivíduo com más intenções e que mesmo que eu fosse uma boa pessoa não poderiam fazer muita coisa por mim, pois o carro estava cheio de bugigangas no banco traseiro, sem espaço para mais nada, quanto mais uma pessoa. Falei que se eles quisessem me levar até sua cidade, eu iria até com as coisas no colo, sem problemas, o que queria era sair dali e voltar para casa. Me perguntaram o que eu estava fazendo ali e porque. Contei um breve resumo da história que eu, Sérgio e a Simone contamos para conseguir pegar carona em São Paulo. Disse ainda que nem sabia do paradeiro dos dois que me acompanhavam e que haviam ficado em São Paulo. Tudo bem, eles me levariam com eles, mas eu teria que viajar espremido entre as coisas que levavam no banco de traz do carro. Sem problemas, eu indo era o que importava. Terminaram de lanchar e se dirigiram ao carro, iam dormir e logo cedo partiríamos. Me mostraram o monte de coisas que se misturava, uma bagunça desgraçada. Esses caras não devem primar pela organização. Enfim, foram dormir dentro do carro. Eu, bem mais tranqüilo e ainda sem acreditar que havia conseguido uma carona tão boa, fui pedir ao vigia do posto uma caixa de papelão, ou algo parecido, que servisse de forro no chão para eu deitar em cima. Me arrumou uma caixa, a abri e estiquei no chão, rente à parede e em frente ao carro que me levaria no dia seguinte. Coloquei a mochila como travesseiro, enrolei uma das alças na mão direita e procurei dormir. Os dois dentro do carro já roncavam como dois porcos. Que cena terrível!

No meio da madrugada acordei com vontade de urinar, peguei minha mochila, claro, e fui ao banheiro que ficava há uns três metros de distancia de onde eu dormia. Voltei e me deitei para dormir novamente. Notei que o caminhão baú que prometeu me levar até Recife não estava no pátio. Mas, quem liga? Agora tenho uma carona até João Pessoa, mesmo. Relaxei e dormi profundamente. Impressionante, a tensão do dia havia me deixado exausto. Conseguir dormir naquelas condições, só estando muito cansado. Não vi nem o dia surgir por traz das árvores que ladeavam a pista à frente do posto. E o Sol até já batia em meu rosto. O que me despertou foi o som do motor do carro dos delegados. Me sentei, olhei para eles e enquanto ia arrumando os cabelos para levantar e me dirigir ao carro pra saber se sairiam em breve, só vi o automóvel dar ré, se direcionar para o lado esquerdo e “cantando pneu” tomou o rumo do asfalto. O que acomodava-se no banco do carona ainda se virou para me ver. Eu estava sentado no chão, sobre o papelão em que dormi, olhando irem embora, completamente desolado. Não conseguia me mexer, senti uma amargura no peito típica de toda grande frustração. A imagem daquele carro indo embora estrada afora ainda permanece em minha mente como um dos piores momentos de toda a viagem, dado o sentimento de derrota e impotência que me invadiu. Não esbocei nenhuma reação, fiquei estático, e ao notar o olhar do motorista, o que era mais alto e que supôs que eu fosse um delinqüente, eu me senti arrasado e realista da minha situação de poucos valores a serem seguidos, de ter realmente pouco valor para as outras pessoas. Para eles não importava se eu ficasse ali para o resto da vida ou morresse de fome. Mas, eu pago os impostos para ter o direito a uma polícia que me proteja e ampare? Se parte do salário deles sai do meu bolso, porque agiam com descaso para comigo? Minha vida não se resumia àqueles momentos de aventura nas estradas do país, eu tinha uma vida social antes de iniciar tudo isso, e pretendia voltar. E aqueles olhares. Acompanhei o automóvel se perder de vista, sem conseguir me mexer. Ainda não acreditava que fizeram aquilo comigo, me deram todas as expectativas e agiram como dois calhordas sem caráter. Agora, fazer o quê? Ficar sentado ali é que não podia por muito tempo. Tinha que reiniciar tudo de novo, mais uma vez. E quantas vezes mais?

Me levantei, completamente desmotivado. O vigia ia passando e comentou a sacanagem que os delegados fizeram. Eu estava tão arrasado e triste que nem consegui responder ao homem direito. Só reclamei em poucas palavras que ele poderia ter me chamado. Mas e se eles tivessem pedido que não falasse nada comigo, que me deixasse dormindo? A reação deles também foi meio de surpresa, quando me viram levantar. Mas essa conclusão eu só cheguei dias depois, refletindo sobre o caso, no momento ali com o tal guarda, eu não pude deixar de sentir tamanha aversão por ele e procurei me afastar. Peguei a mochila, fui ao banheiro. Lá tomei um banho, escovei os dentes e nestes momentos renovei a vontade de sair dali de qualquer jeito. Era ira com frustrações mescladas como um único sentimento que percorria as veias junto com o sangue, que inundava meu peito. Estava disposto a conseguir carona nem que fosse na briga. Sabe aquele instante em que você pensa “ou agora ou nunca”?. Pois assim que eu me senti. Saí do banheiro com a mochila nas costas, entrei na lanchonete, pedi uma fatia de bolo com um cafezinho e já fui pedindo para o atendente falar com as pessoas que fossem comer ou comprar alguma coisa, a meu respeito e solicitar uma carona para mim. Contei que os caras haviam furado comigo pela manhã e que estava disposto a encarar toda e qualquer carona. Terminando o lanche, fui para o setor onde ficam as bombas e ignorando o aviso do frentista de não poder pedir caronas por ali, já fui logo conversando com todo mundo que parava. Caminhão, carro pequeno, cheio, vazio... não importava com detalhes. Até em um carro de carregar gado para o abate eu pedi que me levassem. Já viajei, uma vez, em cima de um caminhão destes. Eu e o Sérgio, inclusive, pegamos carona numa parte do trecho entre Caruaru e Campina Grande. Fomos sentados na grade em cima dos bois e num fedor de esterco terrível. No meio da viagem resolvi pôr um pé na atesta de um dos bois, e o bicho não gostou muito, começou a dar chifradas para cima, quase nos pegando. O resultado foi que o caminhão foi parado e nós descemos antes de esperado, ainda pegamos chuva e uma caminhada de matar.

Para complicar mais ainda pro meu lado chega um homem com uma mochila na mão. Cumprimenta amigavelmente o frentista, e ficou perto de uma das bombas de combustíveis. Era claro que também estava desejando pegar carona, eu só não sabia pra onde, e se fosse para o mesmo lado que eu, ainda teria uma chance de me escalar e seguir junto. Por outro lado, se fosse na direção da cidade de Esplanada, não me seria uma concorrência. Então não tinha muito o que perder com aquele cara, que aparentava ter seus trinta e poucos anos. Mesmo assim fui tirar minhas dúvidas e aproveitar para dar continuidade à minha constante e insistente busca por um meio de sair logo pra bem longe de lá. Cada momento que passava, mais entojado eu ficava de minha permanência ali. Ele ia para uma cidadezinha vizinha, há poucos quilômetros em direção contrária de Esplanada. Pedi que se conseguisse alguma locomoção me incluísse, eu iria de qualquer jeito e em qualquer veículo. Mostrou-se amistoso, claro. E enquanto trocávamos algumas poucas palavras, pára na bomba um automóvel, um chevete marron claro. O motorista deixou-o abastecendo e saiu em direção a lanchonete. Mas antes, enquanto pegava as chaves o frentista balbuciou algumas palavras com o proprietário do carro, e acompanhou com os olhos a indicação do homem que abasteceria seu veículo. O frentista apontou para seu amigo, não para mim, isso ficou bem claro. O motorista balançou a cabeça em gesto de aprovação meio relutante e, enfim, foi caminhando para a lanchonete. Eu o segui e ao alcançá-lo, fui bem educado, desejando bom dia e perguntando se estava tudo bem. A resposta foi um seco e curto “Hum!”. Perguntei-lhe para onde estava viajando. Ia para Aracaju. Perguntei se poderia me levar consigo. Já ia levar o amigo do frentista. Desgraçado! Eu iria até na roda, se fosse o caso. Riu, mas disse que não tinha jeito mesmo, o carro estava cheio. Eu carregava as coisas no colo. Não, não, fica pra próxima. Próxima!? Pedi-lhe a atenção, ainda não havíamos entrado na lanchonete. Parou, se virou e se prontificou a me ouvir. Contei resumida e dramaticamente minha jornada de São Paulo até ali, das caronas perdidas, da noite dormida na calçada sobre um pedaço de papelão e de minha vontade de voltar pra casa. Pediu que o deixasse tomar café, e que iria pensar. Tudo bem, fiquei parado no borda da calçada em frente à lanchonete. Tinha que ser agora, não ia deixar esse cara fugir. Eu tinha que conseguir convencê-lo a me levar, nem que o fulano “apadrinhado” do frentista ficasse. Se conseguisse chegar a Aracaju, iria procurar pelos vários conhecidos que tinha lá. Pessoas de lojas de discos em condições de me emprestar uma certa quantia em dinheiro para eu pagar a passagem de lá até Campina Grande. Não, esse cara não vai me escapar, vou ficar na cola, se precisar serei tão chato que me levará nem que seja dentro do porta-malas.

Quando o cara saiu eu estava na bomba, ao lado do outro caronista. Me aproximei dele e perguntei se ia me levar. Não, mas convidou o outro a entrar. Fiquei momentaneamente estático, uma tristeza me caiu sobre os ombros. Não acreditava, o carro estava vazio, só o motorista assumindo sua posição, e o amigo do frentista no banco ao lado. Tinha espaço de sobra para me levar. Coloquei a cabeça na janela e falei com o dono do carro que eu não era uma má pessoa, que ele não podia me deixar passar mais um dia ali. Será que eu vou ter que dormir mais uma noite naquela calçada? Sentia o sangue correr rápido e quente em minhas veias. Um nó na garganta se fez e junto veio uma vontade de chorar, de gritar. Era o desespero que me atingia. Juro que se o frentista intervisse contra mim eu o esmurraria. Mesmo que me arrependesse logo após. Tirei os documentos e falei que era universitário. O cara olhou no meu rosto e falou meio desconfiado que tudo bem, eu podia entrar. Eu não me contive de satisfação. Corri para o outro lado do carro tirando a mochila das costas, não queria perder tempo, nem atrasá-lo. Sentei no banco de traz, e fomos embora. Finalmente saí daquele posto. Já temia pela possibilidade de enfrentar o mesmo tempo que passei em São Paulo. Me sentia muito feliz, meu estado de espírito não condizia de forma alguma com as expressões sisudas dos dois na frente, que trocavam poucas palavras. Tentei puxar conversa, mas não fui correspondido, se mostraram indiferentes e apáticos. Decidi ficar na minha, curtir a satisfação de ver as placas no acostamento ficarem pra traz. Sabia que estava a cada metro mais perto de casa e isso era o que importava para mim naquele momento.

O motorista perguntou onde o rapaz iria ficar. Faltava pouco, na próxima cidade. Quis saber do meu destino também, respondi qual o meu objetivo final e que onde ele me deixasse mais perto de lá, para mim seria melhor. Eles continuavam trocando poucas palavras e eu vendo a vida passar pelos vidros do carro. Então o carro pára, o amigo do frentista ficaria ali mesmo. Desceu, agradeceu, se despediu de mim e do dono do automóvel e se afastou para que eu assumisse o banco da frente, onde ele viajava. Deixei a mochila no banco de traz e procurei deixar as mãos bem à vista, abertas e sobre as coxas, pra evitar qualquer desconfiança do meu novo companheiro de viagem. Fui procurando passar uma boa imagem de comunicativo e dedicado aos meus estudos. Inicialmente o homem magro, de estatura por volta dos seus um metro e sessenta e cinco, e de bigodinho se mostrou distante e com pouco interesse nas minhas histórias. Mas quando perguntou de onde eu vinha quis saber detalhes desta minha aventura. Uma loucura! Não acreditava que alguém fosse capaz de passar por tantas privações e dificuldades só pra assistir a um show. Mas não era um show simplesmente, era um festival com os grandes nomes do momento e das antigas. Bandas que cresci ouvindo e vendo nas revistas, como KISS, Black Sabbath e Slayer. Para ele era tudo estranho e inédito. O papo foi enveredando para a política, eu com minhas simpatias ao Anarquismo e ele comentando as propostas de seu partido, o PT. A viagem se tornou muito agradável com aquela troca de idéia e com ar de debate. Fiquei bem a vontade, mas com as mãos ainda bem à vista dele. Seu destino era Aracaju e me perguntou se eu ficando na rodoviária estaria bom para mim. Respondi que onde fosse melhor pra ele, pra mim estaria ótimo. Não queria atrapalhá-lo. Não há problema, ele ia passar em frente à rodoviária de todo jeito.

Quando já estávamos adentrando a área urbana de Aracaju, ao passarmos por sobre um viaduto, ele me mostrou um posto de combustíveis a nossa esquerda, na pista transversal abaixo do nós. Ali muita gente ficava pedindo carona para os lados que eu ia, e perguntou se queria que me deixasse lá. Fiquei ligeiramente em dúvida, mas estava cansado de pedir carona, falar as mesmas coisas com todo tipo de gente, que em muitos casos nem ligam para o que estão ouvindo, preferem desembolsar algum dinheirinho e se livrarem daquela lengalenga. Não, eu preferi que me levasse até a rodoviária, ia mesmo tentar encontrar algum dos conhecidos que tinha na cidade, emprestar o dinheiro pra passagem e voltar para casa, o quanto antes, sem a agonia que é pedir um espaço no carro de alguém.

Pronto, paramos em frente a rodoviária de Aracaju. Ali estava bom pra mim? Estava ótimo, melhor impossível. Me perguntou quanto eu tinha na carteira. A abri, retirei tudo o que tinha de dinheiro dentro dela, contei bem à vista dele, o resultado foi seis Reais. Como consegui juntar tanto dinheiro de São Paulo até ali é algo que me estranha até hoje. Cheguei ao Posto Presidente sem nenhum centavo, e a Aracaju com estes seis Reais. Bem, naquele momento não queria saber de onde veio o dinheiro, mas uma curiosidade me passou pela cabeça: Porquê esse cara queria saber do meu dinheiro? Só o que faltava era esse cara ser um ladrão, e aproveitar que estou preso dentro de seu carro pra me tomar a merreca que possuía. O destino me pregou uma surpresa. O cidadão retirou sua carteira do bolso traseiro de sua calça, a abriu e sacou uma nota de dez Reais, que me ofereceu dizendo para comprar a passagem de ônibus e voltar logo pra casa, além de não inventar de repetir esta aventura. Não tive palavras para agradecê-lo, apertei sua mão e disse que era uma pessoa de muito bom coração, que não sabia o que estava fazendo por mim depois de tudo o que enfrentei na estrada e esperava poder ter a satisfação de revê-lo. Guardei a nota em minha carteira junto com as que lá já estavam, abri a porta do carro, me despedi dizendo que não queria atrasá-lo, saí e esperei um pouco parado na calçada o carro se juntar aos demais no trânsito. Que cara legal! Já pensou se eu não tivesse insistido pela carona? Com certeza ainda estaria lá em Esplanada. Agora era comprar a passagem e em breve estaria em casa.

Entrei na rodoviária, fui até o guichê que tinha o nome de Campina Grande entre os que estavam expostos em uma placa acima do vidro do balcão de atendimento, e comprei a minha passagem. A satisfação que senti ao pedir a passagem e falar o nome da cidade em que morava foi muito grande. Foi muito gratificante tirar o dinheiro da carteira e pagar os treze Reais e quarenta Centavos referentes a uma passagem que me levaria de Aracaju direto para Campina Grande. Peguei as folhinhas e guardei com todo cuidado dentro da carteira, não podia nem devia perdê-las. Agora bem mais sossegado e ainda com quase três Reais na carteira, saí da rodoviária e fui procurar alguma coisa para comer numas barracas que se estendiam pela calçada ao lado. Achei umas fatias de bolo de mandioca, ou macaxeira, bem baratinhas e grandonas. Eu estava com uma fome de lascar, já tinha comido muito bolo, e praticamente só bolo nos últimos dias, mas não resisti àquelas tentadoras fatias e pedi uma. Pra acompanhar pedi um copo d’água. Estava com sede e com pouca grana pra refrigerantes, sucos, etc. Comi uns três pedaços daquela delicia, me fartei, ou melhor, inchei.

Devo ter saído de Esplanada por volta da nove horas da manhã, a passagem era lá para as dezenove horas, e ainda era umas doze horas do dia. O que fazer agora? Ficar parado, sentado ou circulando pela rodoviária mesmo? Puxa, até chegar a hora de ir embora estaria cansado de tudo ali. Senti que era uma oportunidade de conhecer um pouco a cidade. Fui até onde paravam vários ônibus coletivos, os circulares, esperei o que passaria pelo centro, um dos fiscais me orientou e pouco tempo após entrei num dos ônibus indicados. Sentei em um lugar à janela, para ir observando tudo. Depois de fazer toda a rota, chegamos à rodoviária. Foi muito rápido, não vou descer, vou dar mais uma volta e talvez descer no centro e procurar pelos meus conhecidos daqui e por lojas de discos. Pra tapear, falei pro cobrador que dormi e passei direto do meu ponto. Ele poderia me cobrar outra passagem. Mas isso não ocorreu. Saí novamente, desta vez troquei de lado, e como memorizei onde deveria ser o centro, fiquei só esperando chegar por lá para descer e dar uma volta.

Desci do ônibus em uma calçada onde o volume de pessoas indo e vindo era grande. Carregando caixas, pacotes, cestas, balaios e todo tipo de coisa que se ponham as compras dentro ou em cima. Na rua um vai e vem de carros, caminhões, bicicletas, pessoas atravessando pra lá e pra cá, carroças e motos. Eu sabia de cabeça, mais ou menos, algumas referências de como chegar às lojas dos meus conhecidos e fui logo perguntando às pessoas como chegar lá e se estava por perto. Felizmente era tudo ali mesmo, e na base da pergunta fui invadindo ruas e galerias até chegar à loja do Silvio, a “Lokaos Discos”. Ele não estava, então dei uma olhada na loja, nos discos, nas camisetas a venda e demais produtos. O sócio dele me perguntou de onde eu era. De Campina Grande, mas venho de São Paulo, fui assistir ao Moster Of Rock. Quando falei que fui com mais dois amigos de carona e voltamos separados, que não tinha informação alguma do paradeiro deles, o cara não acreditou. Que doideira! Achou muito interessante, mas assumiu que não teria coragem de fazer o mesmo.

Como o amigo Silvio não estava por lá, pedi informação de como chegar à loja do Jail, a “BR Records”. Não percebi muita afinidade, mas o cara me deu as coordenadas e depois de agradecer e me despedir do pessoal da Lokaos, saí em busca da loja do meu outro amigo, o Jail. E não demorou muito cheguei à galeria indicada pelo rapaz da Lokaos, entrei e logo vi o Jail, um negro forte e de sorriso fácil. Ao me ver não evitou a surpresa, era a primeira vez que estive por lá. Nos cumprimentamos e conversamos muito sobre várias coisas, me convidou a dar uma volta pelo centro da cidade, queria me apresentar a algumas pessoas e lugares legais que ele freqüentava. Me convidou a passar o final de semana em Aracaju, respondi que já havia comprado a passagem e que estava muito afim de voltar para casa, depois de tanto tempo na estrada. Sugeriu que eu fosse até a rodoviária e devolvesse a passagem, não haveria problemas nisto. Não Jail, eu quero mesmo é pisar em Campina Grande, fica pra outra vez. Este encontro com Jail foi providencial pra que o tempo passasse mais rápido, fomos a alguns barzinhos, conversamos com várias pessoas e depois voltamos para a sua loja, onde vasculhei seus discos e me contou da confusão devido à não realização de um show com a banda Ratos de Porão. As pessoas que compraram os ingressos não seguraram os ânimos e depredaram a BR Records sem dó. A sorte foi que o vigia conteve o pessoal e os dispersou, mas mesmo assim a vidraça foi quebrada e vários produtos roubados, acho que pra compensar os gastos com o show cancelado. Particularmente acho que meu amigo agiu erradamente ao sumir com o dinheiro da bilheteria e não devolver a quem já havia comprado os ingressos antecipados sem dar nenhuma satisfação sobre a não vinda do grupo.

Lá pelas cinco e meia da tarde em despedi do Jail para me dirigir à rodoviária, não queria correr nenhum risco de perder o ônibus. Sempre preferi esperar no lugar certo a me desesperar pra chegar ainda a tempo. Retornei pelo mesmo caminho que fiz para chegar à loja, esperei um pouco pelo coletivo e pouco tempo depois estava de volta à rodoviária. Dei uma volta por lá, comi mais uma fatia de bolo de macaxeira com mais um copinho d’água. Visitei as lojas existentes no interior da rodoviária, e beirando as sete horas da noite me dirigi às plataformas de embarque. Quando entrei no ônibus e sentei no assento de número trinta e nove, me senti muito, mas muito feliz. Aquele lugar tinha naquele momento pra mim, o valor de um trono, de um palácio, de pódio conquistado a duras penas. Observava a rodoviária pela janela, via as pessoas colocando suas bagagens nos porta malas, todo mundo alheio à minha história que acabava de viver. Eu pensava nos dias no posto em São Paulo, na noite em Esplanada, nos meus amigos que eu não tinha a menor idéia de onde estavam e nas várias pessoas que conheci nesta aventura. Lembrava dos momentos iniciais, da partida, dos momentos de fome, do jantar na Atlas e dos amigos e amigas que me aguardavam em Campina Grande. Me sentia vitorioso por ter conseguido a façanha de voltar para casa de ônibus, comprando a passagem, mesmo tendo chegado ao Posto Presidente completamente liso. O que poderia acontecer para evitar que eu completasse a viagem? Um acidente? Não, isso não iria acontecer, tudo desenrolaria normalmente, sem nenhum lance inesperado, com certeza. O ônibus finalmente deu partida e enquanto ainda estávamos pela cidade fui observando trechos que ainda não conhecia, mas quando adentramos a rodovia, completamente absorto, caí no sono profundo.



O dia de nove de setembro, uma Sexta-feira, se iniciava e eu despertava de uma noite de sono relaxante. Estávamos muito perto da última parada, eu contava os segundos enquanto via os primeiros momentos de claridade daquele dia que ficaria marcado para sempre em minha mente. Era um dia nublado, de muitas nuvens cinzentas e ameaçadoras, mas vários dias em Campina Grande começam assim. Paramos na rodoviária desta cidade ainda muito cedo, desci do ônibus e fui olhando e sentindo tudo ao meu redor, o vento, a cidade ao redor da rodoviária, o seu centro mais ao fundo, atras do ônibus. Passei pela roleta, peguei a carteira, contei o resto do dinheiro e vi que ainda dava para uma passagem de circular, ou até duas ou três. Fui em direção ao ponto de ônibus, mas bem antes de lá chegar eu parei, dei meia volta e comecei a andar. Queria mesmo era caminhar naquela cidade, tocar nas árvores, ver o seu povo que se preparava para a rotina diária, queria tentar encontrar algum conhecido pelas ruas. E fui andando, andando em direção à casa que mais me interessava naquele instante, a casa do Sérgio. Teriam chegado? Como estavam? Onde estavam?

Bem próximo à casa de meu companheiro, parei em um barzinho tipo uma pequena mercearia, e também padaria. Lá tomei um copo de chá com pão. O seu proprietário ficou curioso em saber se estava chegando de viagem, respondi que sim e fiz um breve resumo de tudo. Achou incrível, e disse nunca ter ouvido história semelhante, nos parabenizou. Perguntei se conhecia o Sérgio e se sabia se tivera retornado. A resposta foi negativa, ele não conhecia, e não sabia nada a respeito. Terminada a primeira refeição do dia, agradeci e me despedi do homem que por muito tempo me cumprimentaria e eu seria freguês de seu chá. Saí de sua vendinha e fui à rua onde o Sérgio morava, passei em frente de sua casa e como estava toda fechada e em silêncio prossegui rua acima, onde morava a minha velha amiga Emília. Lá ouvi barulhos de panelas vindos de dentro, como que da cozinha, deviam estar fazendo o café. Eu ia muitas vezes à esta casa e tinha certa liberdade para entrar, então abri o portão, entrei já chamando por ela, sua mãe apareceu no beco lateral da casa e me convidou a entrar, da cozinha mesmo chamou por minha companheira de banda. Em menos de um minuto Emília aparece, com a aparência de sono e surpresa por minha volta. As pessoas pensavam que algo mais grave havia ocorrido comigo, pois o Sérgio e a Simone já estavam por lá desde a terça-feira, dia seis de setembro. Contei partes da viagem vividas por nós e outras só por mim, na volta solitária. A mãe da Emília, Dona Josira, me mandou para o banheiro tomar um banho, trocar de roupas e acompanhá-las no café da manhã. Não contei conversa, fui logo seguindo os conselhos daquela mulher que era pra mim como uma segunda mãe.

Terminado o café da manhã mais esperado há tantos dias, com uma fartura que eu não via desde que saímos do apartamento do pessoal de Vila Sabrina, deixei minhas coisas na casa da minha amiga e desci à casa do Sérgio. Ele ainda estava dormindo, mas sua mãe deixou que eu entrasse em seu quarto e o acordasse. Também ficou surpresa e se mostrou aliviada com meu retorno. Entrei no quarto, o cara estava dormindo todo enrolado em um cobertor. Não fiz alarde, falei com ele como se estivesse acordado, o cumprimentei e perguntei se sabia quem havia acabado de chegar. O cara saiu de baixo do cobertor, me olhou e se levantou. Foi muito bom rever meu velho e grande amigo, companheiro de tantas aventuras e desta que se findava ali, com um final feliz. Foi dizendo que todo mundo pensava que algo inesperado havia ocorrido comigo devido ao fato deles terem saído depois de mim e chegado quase três dias antes.

O cara que passou por nós lá no Posto Presidente, e prometeu levar os dois até Recife, realmente voltou e os pegou. Eu já estava na estrada. A viagem deles foi muito melhor que a minha. O motorista que os levou até Recife era um cara muito legal e espontâneo. Divertiram-se bastante com ele, que lhes pagou almoços, jantares, cafés da manhã e mantinha sempre o som do caminhão ligado. O Sérgio tinha umas duas fitas que rolaram várias vezes, até por pedido do motorista. Eles ficaram em Boa viagem, à beira mar, tomando pinga com água de côco e a Simone tomando banho de mar. Até em termos de acidentes eles tiveram, digamos, mais sorte. Passaram por um caminhão da Aguardentes Ypioca tombado, enquanto eu, um caminhão de papel, debaixo de chuva. O Sérgio catou vinte e cinco garrafas e já tratou de ir esvaziando-as desde que retornaram o ritmo normal na estrada.

A satisfação do retorno, de voltar a ver o amigo era muito grande, as comemorações foram logo iniciadas. Pegamos uma das garrafas de pinga que ele pegou do acidente e dose após dose seu conteúdo foi sendo ingerido, acompanhado com muitas histórias particulares outras vividas por ambos. A Simone voltou com o Sérgio e bem. Infelizmente não tive maiores contatos com ela depois de nosso retorno, não soube de seus pareceres a respeito da aventura. Sinto até hoje por ela não ter ido conosco ao festival, mas sei que assim como para mim e para o meu eterno amigo Sérgio, essa foi uma história inesquecível que contamos inúmeras vezes aos vários amigos e sempre a contaremos, pois foi uma lição de coragem, amizade, espírito de aventura e um certo grau de loucura.

FIM

VÁRIOS DEGRAUS ABAIXO


Naquela noite estávamos no posto e fomos tentar conseguir cobertores com o pessoal que entregava a sopa para os mendigos.


Por Sérgio Mauro.

Naquele momento, sentado ao relento, necessitado de calor, comida, palavras, etc., caminhei a uma opção de grande nível insólito, foi onde conheci mais uma modalidade de civilização humana, conhecida como miséria. A miséria material, pois quando me aproximei tive medo, talvez pela disputa pelo pouco que eles tinham. Mesmo assim cheguei, e aos poucos deixei meu ser transparecer para poderem me entender. E quando me estabilizei temporariamente naquele âmbito, descobri que havia mais filantropia ali do que em certos lugares de fartura material que já estive.

A dor da necessidade faz as pessoas se tornarem mais sensíveis quanto a essa dor, e logo percebi o quanto eles estavam a par de nossa carência; quando isso aconteceu fui invadido por uma mistura de nostalgia e compreensão que me fez ver bondade em olhos tão sofridos, pelo fato da incoerência do destino.

E quando saímos do minúsculo vilarejo dos mendigos tornei a observá-los e vi uma pequena forte comunidade, onde a fraternidade entre eles é a única lei.



Nota: As fotos aqui apresentadas são meramente ilustrativas e não representam propriamente a época da história àcima relatada.